A escritora que nunca escreveu

Além do Dado · Edição Brasileira  ·  N° 12

A escritora que nunca escreveu


Uma das primeiras coisas que entendi foi que o negócio editorial nunca deixaria a narrativa pura intocada. Mais cedo ou mais tarde, o dinheiro ensinaria ao sistema como fabricar credibilidade.

Hoje, alguém foi desmascarada.

Ela não roubou um romance.

Ela roubou a palavra que o conta.

Uma mulher publica um livro. Chama-o de seu primeiro romance de amor. Num vídeo, quase em lágrimas, ela diz ao seu público:

“Escrevi eu mesma. Só pedi à IA que me ajudasse a corrigir. A ideia foi inteiramente minha.”

As pessoas acreditam nela.

Aplaudem.

Depois descobrem que “corrigir” queria dizer algo bem diferente.

A inteligência artificial não ajeitou as vírgulas.

Ela escreveu o livro.

A mulher escreveu o pedido.

Meu próprio caminho nunca foi construído para a publicidade. Foi construído para algo bem menos atraente: pagar o preço integral daquilo que descrevo.

Dezoito anos dentro de uma empresa de verdade.

Não uma ideia ampliada pela inteligência artificial, mas uma vida ampliada por um pai que já havia investido quarenta anos dos seus antes de mim.

O que separa quem escreve de quem manda escrever?

Não a tecnologia.

A tecnologia é apenas uma ferramenta, em nada diferente de uma máquina de escrever nos anos 1950.

A distinção real é se existe um corpo por trás das palavras.

Um corpo que atravessou aquilo que as palavras descrevem.

Um corpo que pagou por cada frase com anos, erros, disciplina, sacrifício, vitórias e perdas.

O livro dela é vendido como uma promessa de amor.

Um sucesso garantido.

Porque a forma mais antiga de publicidade sempre foi a mesma:

o engano.

As pessoas raramente o reconhecem.

Simplesmente se deixam fascinar por ele.

É precisamente por isso que a minha narrativa carrega um slogan diferente:

“Uma conta que o tempo apresenta a quem acreditou que poderia pagá-la depois.”

Nunca serei famoso.

Nunca serei rico.

Mas serei impossível de esquecer.


Ferdinando

PDF ← ALÉM DO DADO