Estreia · Começo · Edição Brasileira · Nº 07
O ANO DO TRÊS — 1993 SEQUÊNCIA II
Chega a hora de revisar os dossiês, decidindo quem será promovido entre os novos agentes comerciais. Enquanto todos se apressam para pegar as pastas, eu pego apenas quatro e começo a ler.
Não havia muita coisa neles — mais um diário informal do que credenciais de verdade. Mas isto era a Itália, e estava tudo bem.
Detive-me em algumas histórias que valem ser contadas.
A primeira era a do sr. Carta, que alegava um mandato de uma empresa de papel higiênico e havia inventado uma nova maneira de vendê-lo. Ele entrava em clientes já fiéis às marcas líderes e, quando chegava a sua vez, soltava a frase: vender papel higiênico é fácil — basta saber onde fica a bunda e onde fica a privada.
Aí ele dizia: esta é a bunda, aquela é a privada, o senhor leva o papel? Todo mundo ria.
Fui pego de surpresa. Tive de promovê-lo, em meio à risada geral.
Depois veio o sr. Prinzi Giovanni, que vendia — de caminhão — água sanitária caseira, fabricada num rio perto de Cosenza junto com o sogro, sem licença, sem regulamentação nenhuma. Ele enchia tanques com água do rio, acrescentava solvente, e o produto era esse. Depois entrava nos mercadinhos de terno e gravata, para dar credibilidade, e anunciava:
Bom dia, senhora, sou PRINZVANNI da PRINZVANNI & COMPANY, uma multinacional que vende HIPOCLORITO DE SÓDIO no mundo inteiro a um ótimo preço — posso lhe deixar uma amostra?
A comerciante, assustada, perguntava: desculpe, que produto é esse?
E ele respondia: ÁGUA SANITÁRIA.
Ele também foi promovido.
Trinta e três anos se passaram, e eu ainda me pergunto o quanto esses dois vendedores eram realmente bons — sobretudo o segundo, que de algum modo conquistou também a minha mãe, a sra. Gillette.
Ferdinando