Gillette From Wall Street · Edição Brasileira · Nº 03
A Ação De Wall Street
Introdução à Saga de Wall Street
Nunca vou esquecer o dia em que entrei no internato.
Era 15 de outubro de 1970. Uma quinta-feira.
Para a ocasião, meu pai estava presente. Ele havia pedido à Gillette uma tarde de folga, algo que raramente acontecia. Olhando para trás, percebo que ele não estava simplesmente acompanhando uma criança à escola. Ele estava entregando um pequeno pedaço da história da Gillette a um mundo que nenhum dos dois ainda conseguia compreender.
Uma freira jovem chamada Irmã Giuseppina veio me receber.
Pele clara, olhos azuis, rosto juvenil. O véu escondia todo o resto. Ela me pegou pela mão e me acompanhou até a turma 1A, onde minha professora, Irmã Dominella, esperava.
Irmã Dominella já era idosa.
Ela esfregava os joelhos constantemente e previa chuva com uma confiança notável. Segundo ela, o tempo vivia em suas articulações. Se seus joelhos doiam, as nuvens estavam chegando.
Quando entrei na sala de aula, ela já sabia meu nome. Na verdade, todos sabiam. As notícias viajavam rápido dentro daquelas paredes. As homenagens tinham chegado antes de mim.
Cada sala continha o mesmo presente: simples sacolas plásticas com o logotipo vermelho da Gillette dos anos 1970, decoradas apenas com imagens de lâminas de barbear.
Eu era jovem demais para entender, mas já havia me tornado um pequeno embaixador de uma empresa que me acompanharia por toda a vida.
A primeira lição foi sobre ação. As boas ações.
Aos seis anos, isso parecia bastante simples. A boa ação era boa. A má ação era má. Caso encerrado.
Mas a vida, como sempre, tinha outros planos.
Alguns anos depois, descobri que as ações nunca são julgadas pelo que são. São julgadas pelas histórias que as cercam.
Dê um doce a alguém e isso se torna uma boa ação. Use o mesmo doce para outro propósito e, de repente, torna-se uma má ação. A ação permanece inalterada. Só a narrativa muda.
Essa foi a primeira lição verdadeira da minha vida. Não a moral. Não a religião. Não a disciplina. A narrativa. Aquele poder estranho que transforma fatos idênticos em significados opostos.
Décadas depois, a Gillette me levaria a Boston. Junto com colegas do mundo inteiro, eu acabaria chegando à capital financeira com a qual crianças de internato nunca sonham: Nova York.
Bem perto de Wall Street.
Mas essa é outra história. Já foi escrita em outro lugar, e nunca gostei de me repetir apenas para preencher espaço literário.
Ainda assim, resta um pensamento.
As pessoas são sempre lembradas por suas ações. Algumas ações se tornam histórias. Algumas histórias se tornam a História.
E se essas ações por acaso estiverem escritas no papel, negociadas, avaliadas, compradas, vendidas e cotadas todos os dias… quem diabos vai esquecê-las?
Ferdinando Frega