Gillette From Wall Street · Edição Brasileira · Nº 10
A Quiromante De Wall Street: Continuação
O encontro com a quiromante portuguesa de noventa e dois anos em Boston, alguns dias antes, tinha me deixado uma surpresa e uma lembrança agradável dentro do meu silêncio, junto com um sorriso que não dizia nenhuma palavra mas sempre pensava a mesma coisa: e agora, o que vai acontecer que eu ainda não previ?
A disciplina esotérica, dentro de Pitágoras e sua geometria, tinha sido minha base cultural pelos últimos trinta e três anos. Magia, branca ou negra, eu nunca tinha realmente conhecido — eu a usava ironicamente, para fins nobres, só na leitura de horóscopos e signos do zodíaco. Não custava nada, toda manhã, ler as colunas pequenas dos jornais, e eu direcionava sua utilidade para uma única coisa: conquistar mulheres bonitas, impossíveis, mulheres que diziam não estar esperando homem nenhum, mas estavam sempre procurando exatamente um como eu.
Naquela noite voltei ao hotel, na Rua Doze — embora não fosse exatamente um endereço na cidade, era só eu contando o número de quarteirões do restaurante até onde eu dormia, para não me perder.
O jantar foi o mesmo de sempre, havia anos — eu jamais abriria mão do meu linguine com lagosta no MAIN, daquele que falava inglês, enquanto o meu falava africâner e nem sempre era compreensível, uma mistura de línguas tribais africanas com holandês. Sobre o vinho não havia dúvida: uma taça por refeição, sempre, tinto, italiano — o paladar não pedia mais nada. Mas quando o bolso ditava o ritmo, não havia o que fazer a não ser desistir e passar para a água da torneira.
Meu quarto era lindo, cheio de comodidades que ficavam fechadas — uma piscina, um campo de golfe, uma sauna, uma sala de massagem, duas mulheres loiras e duas negras e uma ruiva, um jardim de inverno, tudo dobrado num único quadro pendurado na entrada como um quebra-cabeça.
E depois aquela cama de solteiro, onde virar de lado fazia as molas gritarem, uma poltrona vermelha cheia de buracos, uma mesinha — tudo incluído no preço, alguns dólares por noite, pagos antes de entrar.
O banheiro era a peça de destaque — o primeiro verdadeiro banheiro com reserva prévia da história. Bastava gritar: está livre? Se ninguém respondesse em dez segundos, era seu — um único espaço no corredor servindo vinte quartos, unissêx, para não criar desigualdade.
Eram 22h34. Eu estava cansado, quase dormindo, quando ouvi uma batida na porta. Achei que alguém tinha errado de quarto e não me levantei. Depois veio outra batida, e pelo relógio eram 2h46 da manhã — o tempo seguindo em frente de qualquer jeito, sem ninguém perceber.
Levantei para abrir a porta e não encontrei ninguém. Quando me virei de volta para a cama, havia alguém sentado na minha poltrona vermelha. Frega, ele disse, finalmente te encontrei.
Sua imagem estava embarçada, não humana, como um reflexo. Tentei descobrir se era algum truque dentro de um holograma. Não encontrei nada que confirmasse isso.
Não adianta olhar, ou tentar descobrir quem eu sou — vou te poupar o trabalho. Sou o fantasma que você conheceu na casa da quiromante, e vim saber o final do volume 15 da saga Gillette. Em troca, vou te dar dois segredos para o seu GILLETTENARRATIVE.
Se eu tivesse contado essa história para alguém, teriam me internado no Hospital de Boston na hora. Por isso, cuidei para nunca contar a ninguém.
A parte final do livro 15 é esta:
Duas mulheres cubanas, mãe e filha, jovens e bonitas, cada uma — em momentos diferentes, de formas diferentes — tinha reservado um espaço para ficar sozinha comigo, para conversar, e cada uma tinha saído dali abalada. As duas queriam a mesma coisa: se casar comigo.
Eu nunca usei aliança, por causa de um defeito congênito nos meus dedos, atestado antes do meu casamento em 1993 — e minha esposa também tinha aceitado essa minha falha. Numa manhã eu saí de Cuba. Peguei o primeiro voo para a Itália sem reserva nenhuma — quem conhece aqueles lugares consegue imaginar a dificuldade, mas nunca vai entender como eu consegui — dizendo às mulheres, uma por uma, em total confidência, que eu voltaria logo, que ia me casar com elas.
Nunca aconteceu.
Achei que um dia elas se esqueceriam de mim e das minhas promessas. Só que não: decidiram contratar um Aifá da religião africana de Orulá, para invocar o mal e lançar uma maldição de morte sobre mim — daquelas sem reembolso.
E estava funcionando. Fui levado às pressas para a UTI, a antessala da morte, depois que encontraram um nível de hemoglobina abaixo de cinco por cento, líquido nos pulmões, dificuldade para respirar — e o laudo me dava, no máximo, trinta e seis horas de vida.
A funerária também chegou, e colocou o caixão ao lado da cama. Eu observei tudo. Não tinha mais força para soltar um suspiro. Mesmo assim, nunca me ocorreu escrever.
Tudo parecia pronto. Tudo seguia de acordo com o ritual da magia negra, quando, depois de trinta e três horas, me levantei da cama, arranquei todos os tubos e saí da ala de pijama para ir para casa.
Caminhei cinco quilômetros a pé, toquei a campainha, e minha esposa desmaiou. Disse para ela fazer pasta e fagioli, eu estava com fome. Vinte minutos depois a polícia tocou a campainha, avisada pelo hospital.
Estavam procurando o morto, e quando eu disse que era eu, seguraram os próprios testículos e foram embora.
Chegou a hora de dizer ao meu convidado que aquilo fazia parte do final, e que eu estava pedindo para ele ir embora, dada a hora. Ele sorriu: você não está curioso para saber o que tenho a te contar?
Eu disse que não — porque curiosidade é coisa de mulher. As mulheres usam isso para vencer outras mulheres. E minha mãe sempre me disse uma coisa: continue homem dentro da mente de uma mulher.
Ferdinando