A Saga da Comunidade · Edição Brasileira · Nº 2
Parte I · Limiar 2
Eu Não Era Esperado
Se observas uma vida à distância, tudo parece ter um sentido.
Os pontos se ligam.
Os eventos encontram uma explicação.
As reviravoltas parecem inevitáveis.
Até os erros parecem parte de um desenho.
Mas essa é uma ilusão que pertence ao presente.
Quando vives as coisas, não existe mapa algum.
Existem apenas dias.
E nos dias não há explicações.
Há decisões.
Quando eu era jovem pensava que os adultos sabiam o que estavam fazendo.
Pensava que os professores conheciam o futuro dos estudantes.
Pensava que as empresas sabiam reconhecer o potencial das pessoas.
Pensava que o mundo tinha uma ordem.
Depois descobri uma verdade muito mais simples.
Ninguém sabe de fato o que vai acontecer.
Todos navegam.
Alguns o admitem.
Outros fingem que não.
Olhando para a minha vida, não consigo identificar um momento no qual alguém tenha dito: “Esta pessoa chegará longe.”
Ninguém estava me esperando.
Não existia uma faixa preferencial.
Não existia um desenho preparado com antecedência.
Eu não era o favorito de ninguém.
E, para dizer a verdade, essa descoberta me libertou.
Porque quando ninguém te espera, deixas de viver para confirmar as expectativas dos outros.
Começas a construir o teu percurso.
Um passo de cada vez.
Muitas pessoas passam a vida tentando estar à altura da imagem que os outros construíram para elas.
Eu tive uma vantagem diferente.
Aquela imagem não existia.
Por isso aprendi cedo a conviver com a incerteza.
A não me assustar quando as coisas mudavam.
A não considerar a mudança uma ameaça.
A não tratar os percursos não convencionais como erros.
A vida nunca se preocupou em seguir os meus programas.
E, com o tempo, aprendi a não exigir que o fizesse.
Houve momentos em que tudo parecia ir na direção certa.
E momentos em que parecia acontecer exatamente o contrário.
Pessoas que pareciam indispensáveis e que desapareciam.
Oportunidades que pareciam decisivas e que se revelavam irrelevantes.
Estradas que pareciam secundárias e que se tornavam centrais.
Encontros casuais que modificavam o curso dos anos seguintes.
A verdade é que o futuro adora surpreender.
Não pede permissão.
Não envia comunicados prévios.
Não respeita as hierarquias.
Chega e pronto.
E muitas vezes chega de onde ninguém olha.
Muitas das coisas que definiram a minha existência nasceram assim.
De desvios.
De acidentes.
De eventos que, no momento em que aconteciam, não tinham aparência alguma de grandeza.
Lembro-me de uma lição que o tempo me ensinou com certa dureza.
Não se deve confundir a previsibilidade com o valor.
O que é previsível tranquiliza.
O que tem valor transforma.
As duas coisas raramente coincidem.
Por anos trabalhei observando mercados, empresas, números, organizações.
Em todo lugar encontrava a mesma convicção.
De que era possível prever tudo.
De que a realidade fosse governável.
De que o futuro fosse uma linha traçável.
Depois chegava sempre algo a desmentir aquela segurança.
Uma mudança.
Uma crise.
Uma pessoa.
Uma doença.
Uma perda.
Uma oportunidade.
Algo que ninguém havia inserido no plano.
E no entanto era justamente ali que começava a parte mais interessante da história.
Porque a vida não mede a capacidade de prever.
Mede a capacidade de se adaptar.
Essa diferença é fundamental.
Prever é um exercício da inteligência.
Adaptar-se é um exercício da identidade.
Quando o mundo muda, não vence quem tinha razão.
Vence quem consegue permanecer vivo dentro da mudança.
Às vezes me pergunto o que teria acontecido se alguém me tivesse dito com precisão como se desenrolaria o meu percurso.
Talvez eu tivesse tido menos medo.
Talvez tivesse cometido menos erros.
Talvez tivesse sofrido menos.
Mas então entendo que teria aprendido muito menos.
Porque a maior parte das coisas que considero importantes não nasceu da certeza.
Nasceu da dúvida.
Do risco.
Da ausência de garantias.
Da necessidade de prosseguir sem saber exatamente para onde estava indo.
Nesse sentido, não ser esperado foi um privilégio.
Obrigou-me a construir.
A observar.
A aprender.
A mudar.
A recomeçar.
Cada vez.
Uma vez e outra.
Hoje muitas pessoas perseguem aprovações.
Esperam autorizações.
Buscam confirmações.
Querem saber com antecedência se serão aceitas.
Se serão reconhecidas.
Se serão compreendidas.
Eu não posso oferecer uma fórmula.
Posso apenas contar aquilo que aprendi.
Na maior parte dos casos, o mundo não sabe que existes.
Não te espera.
Não te prepara uma estrada.
Não organiza uma cerimônia de boas-vindas.
E talvez esteja bem assim.
Porque o valor de um percurso não depende de quem o havia previsto.
Depende de quem teve a coragem de atravessá-lo.
Eu não era esperado.
Não era aguardado.
Não era programado.
E no entanto aqui estou.
A olhar para trás.
A ligar os pontos.
A sorrir diante da ironia do tempo.
Porque, no fim, as histórias mais interessantes não são as escritas com antecedência.
São aquelas que encontram sozinhas o caminho para existir.
E a minha, para o bem e para o mal, pertence a essa categoria.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️