A Saga da Comunidade · Edição Brasileira · Nº 12
Parte II · Limiar 1
Além De Toda Previsão
Há uma estranha arrogância que acompanha os seres humanos.
Acreditamos poder prever a vida.
Passamos anos construindo planos.
Objetivos de cinco anos.
Estratégias de dez anos.
Balanços.
Projeções.
Calendários.
Mapas.
Depois chega a realidade.
E a realidade nunca leu os nossos programas.
Por muito tempo eu acreditara que a experiência produzisse previsibilidade.
Quanto mais você aprende.
Quanto mais você conhece.
Quanto mais você viaja.
Mais você deveria ser capaz de entender o que vai acontecer.
Parecia lógico.
Parecia razoável.
Parecia até científico.
Depois a vida se divertiu em demonstrar o contrário.
As viradas mais importantes chegaram sempre sem hora marcada.
Nenhuma reserva.
Nenhum aviso prévio.
Nenhuma advertência.
Chegavam e pronto.
Às vezes sob a forma de oportunidade.
Às vezes sob a forma de perda.
Às vezes sob a forma de encontro.
Às vezes sob a forma de doença.
A diferença só se entende depois.
Quando você se encontra dentro parecem todas a mesma coisa.
Uma interrupção.
Uma mudança repentina.
Um desvio.
Observando o percurso cumprido até aquele momento, começava a notar um desenho curioso.
Cada vez que estava convencido de ter entendido tudo, acontecia algo que mudava a pergunta.
E quando muda a pergunta, também a resposta perde valor.
Lembro-me de um período particular da minha vida.
Tinha experiência.
Responsabilidade.
Resultados.
Conhecimentos.
Tudo parecia sugerir uma trajetória bastante clara.
Estava convencido de que o futuro seguiria uma certa direção.
Não porque fosse presunçoso.
Porque os dados pareciam dizê-lo.
Depois a vida fez o que sabe fazer melhor.
Mudar a mesa de jogo.
Não as regras.
A mesa.
Esta é a parte que quase ninguém conta.
Quando a mesa muda, a experiência acumulada não desaparece.
Mas torna-se insuficiente.
É preciso aprender de novo.
Observar de novo.
Escutar de novo.
É humilhante.
E ao mesmo tempo extraordinário.
Porque nos lembra que somos estudantes por muito mais tempo do que acreditamos.
Com o passar dos anos comecei a apreciar a imprevisibilidade.
Não porque fosse cômoda.
Nunca o é.
Mas porque era honesta.
A imprevisibilidade obriga as pessoas a se mostrarem por aquilo que são.
Quando tudo segue o plano, qualquer um pode parecer competente.
Quando o plano desaparece, emerge o caráter.
As pessoas que mais admiro não são as que tinham previsto corretamente o futuro.
São as que souberam atravessar futuros que não haviam previsto.
Esta é uma competência diferente.
Muito mais rara.
Muito mais humana.
Vivemos num mundo que premia quem parece seguro.
Quem fala com certeza.
Quem promete resultados.
Quem oferece previsões.
Eu, com o tempo, comecei a confiar mais nas pessoas que sabem conviver com a incerteza.
Porque a incerteza não é um erro do sistema.
É o sistema.
O universo nunca assinou um contrato de previsibilidade com ninguém.
E no entanto continuamos a nos surpreender.
Continuamos a protestar.
Continuamos a considerar o imprevisto como uma exceção.
Talvez devêssemos fazer o contrário.
Considerá-lo a norma.
Quando finalmente você aceita essa ideia, algo muda.
Você deixa de perseguir o controle absoluto.
Você deixa de exigir garantias.
Você deixa de viver como se o futuro fosse uma propriedade privada.
E você começa a viver como um explorador.
Com atenção.
Com respeito.
Com curiosidade.
Lembro-me de uma frase que a vida me ensinou sem usar palavras: As melhores coisas e as piores coisas nunca mandam uma carta de apresentação.
Chegam.
Entram.
Modificam a paisagem.
Depois vão embora deixando consequências.
Cabe a nós decidir o que fazer com elas.
Olhando para trás, percebo que muitas das experiências que considero fundamentais nunca teriam passado por uma avaliação racional prévia.
Eram arriscadas demais.
Improváveis demais.
Complicadas demais.
Diferentes demais daquilo que eu tinha imaginado.
E no entanto são justamente elas que construíram a pessoa que me tornei.
Por isso hoje não considero mais a previsibilidade uma virtude.
Considero-a uma comodidade.
A verdadeira virtude é outra.
Permanecer aberto.
Permanecer atento.
Permanecer capaz de aprender.
Mesmo quando a vida muda a mesa.
Mesmo quando o destino modifica a pergunta.
Mesmo quando o futuro entra no quarto sem bater.
Porque existe uma verdade que aprendi atravessando continentes, crises, relações, sucessos e fracassos.
As coisas mais importantes da minha vida sempre aconteceram além de toda previsão.
E é justamente ali que começava a melhor parte da história.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️