13 · A Luz Na Janela

A Saga da Comunidade · Edição Brasileira  ·  Nº 13

Parte II · Limiar 2

A Presença Basta


Por grande parte da minha vida acreditei que o valor de uma pessoa se medisse por aquilo que conseguia realizar.

Era uma convicção razoável.

O mundo parece construído de propósito para confirmá-la.

Pedem-nos resultados.

Números.

Objetivos.

Desempenhos.

Metas.

Cada sistema possui os seus indicadores.

Cada organização possui as suas classificações.

Cada época inventa um modo diferente de medir o sucesso.

E quase sempre a medida se concentra naquilo que aparece.

Raramente naquilo que permanece.

Com o passar dos anos comecei porém a notar um fenômeno curioso.

As pessoas de que mais me lembrava quase nunca coincidiam com as que tinham obtido os resultados mais impressionantes.

Lembrava-me de outras pessoas.

Aquelas que tinham permanecido ao lado.

Aquelas que tinham escutado.

Aquelas que tinham encontrado tempo.

Aquelas que tinham estado presentes.

A memória humana é menos impressionável do que parece.

À distância de décadas não lembra apenas o que você fez.

Lembra como você fez os outros se sentirem.

E essa descoberta mudou muitas coisas.

Aconteceu lentamente.

Como acontecem todas as transformações autênticas.

Não houve uma revelação repentina.

Houve centenas de episódios.

Pequenos.

Quase invisíveis.

Um amigo que aparece quando você não o chamou.

Uma pessoa que permanece sentada ao seu lado durante um momento difícil.

Um familiar que não consegue resolver o problema mas escolhe mesmo assim partilhar o peso.

Em todos esses casos acontece algo que os números não conseguem medir.

A presença gera força.

Não porque elimine a dor.

Porque impede que a solidão se torne absoluta.

Muitas pessoas pensam que ajudar signifique encontrar soluções.

Eu já não tenho tanta certeza disso.

As pessoas que me ajudaram de verdade nem sempre possuíam as respostas.

Muitas vezes possuíam apenas a disponibilidade de permanecer.

E era suficiente.

Quando somos jovens acreditamos que o valor resida na ação.

Com o tempo descobrimos que o valor reside muitas vezes na permanência.

Estar ali.

Não fugir.

Não se distrair.

Não delegar.

Não desaparecer.

Estar presente.

Parece pouco.

Longe disso.

Vivemos numa sociedade cheia de conexões e muitas vezes pobre de presença.

Podemos alcançar qualquer um em poucos segundos.

Podemos enviar mensagens para qualquer parte do planeta.

Podemos comunicar continuamente.

E no entanto muitas pessoas se sentem mais sozinhas do que nunca.

Talvez porque a presença não seja uma questão tecnológica.

É uma questão humana.

A presença exige atenção.

E a atenção tornou-se um dos recursos mais raros do nosso tempo.

Lembro-me de algumas fases da minha vida nas quais não procurava conselhos.

Não procurava estratégias.

Não procurava respostas.

Procurava companhia.

Alguém disposto a partilhar um trecho de caminho.

Alguém disposto a dizer: “Não sei como vai terminar, mas você não vai atravessar isso sozinho.”

Essas frases não mudam os acontecimentos.

Mudam a nós.

E é muito mais importante.

Durante anos trabalhei em ambientes nos quais tudo era medido.

Desempenhos.

Quota de mercado.

Crescimento.

Produtividade.

E no entanto algumas das coisas mais preciosas que recebi não apareciam em nenhum relatório.

A confiança.

A lealdade.

A escuta.

A proximidade.

Nenhuma dessas coisas entra facilmente numa tabela.

E no entanto sustentam grande parte da vida humana.

A presença age do mesmo modo.

É invisível quando está.

Torna-se evidente quando falta.

Como o ar.

Como a saúde.

Como certos afetos.

Percebemos o seu valor sobretudo no momento em que já não estão disponíveis.

Com a idade aprendi uma lição que nenhum livro me tinha ensinado.

Muitos problemas não pedem para ser resolvidos imediatamente.

Pedem para ser atravessados.

E quando um problema deve ser atravessado, a presença vale mais do que a competência.

Pode parecer uma frase estranha.

Mas qualquer um que tenha vivido uma provação importante a compreende imediatamente.

Nenhuma explicação elimina uma perda.

Nenhuma estratégia elimina uma doença.

Nenhuma teoria elimina a ausência.

Existem situações nas quais o ser humano não precisa ser corrigido.

Precisa ser acompanhado.

Essa descoberta mudou também o meu modo de me relacionar com os outros.

Deixei de me sentir obrigado a encontrar soluções para tudo.

Deixei de considerar o silêncio um fracasso.

Deixei de acreditar que o meu valor dependesse da minha capacidade de consertar o mundo.

Comecei em vez disso a cultivar uma qualidade diferente.

A disponibilidade.

Estar disponível.

Para a família.

Para os amigos.

Para as pessoas frágeis.

Para quem atravessava uma dificuldade.

Para quem precisava ser escutado.

É uma competência menos vistosa.

Mas infinitamente mais útil.

Olhando para trás, percebo que os momentos mais significativos da minha existência partilharam muitas vezes uma característica.

Alguém estava presente.

Às vezes era eu.

Às vezes eram os outros.

Mas havia uma presença.

Uma presença silenciosa.

Discreta.

Não invasiva.

Uma presença que não exigia nada.

Que não pedia reconhecimentos.

Que não procurava aplausos.

Existia e pronto.

Como uma luz acesa numa janela durante a noite.

Talvez a maturidade consista também nisso.

Entender que não precisamos ser extraordinários todos os dias.

Não precisamos salvar o mundo.

Não precisamos convencer todos.

Não precisamos vencer todas as batalhas.

Às vezes precisamos simplesmente estar presentes.

De verdade.

Com toda a nossa atenção.

Com toda a nossa humanidade.

Com toda a nossa imperfeição.

Porque as pessoas esquecem muitas coisas.

Esquecem palavras.

Esquecem datas.

Esquecem até acontecimentos importantes.

Mas raramente esquecem quem permaneceu ao seu lado no momento necessário.

No fim, depois do trabalho, das viagens, dos sucessos, das perdas, das transformações e do tempo transcorrido, resta uma verdade surpreendentemente simples.

Nem sempre podemos mudar o que acontece.

Nem sempre podemos curar.

Nem sempre podemos salvar.

Nem sempre podemos entender.

Mas podemos estar presentes.

E muito mais vezes do que imaginamos, a presença basta.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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