16 · Depois Da Rachadura

A Saga da Comunidade · Edição Brasileira  ·  Nº 16

Parte II · Limiar 5

Uma Segunda Vida Não É Uma Metáfora


Há expressões que usamos com leviandade.

“Sinto-me renascido.”

“Recomecei.”

“Foi uma nova vida.”

Geralmente são metáforas.

Figuras de linguagem.

Modos elegantes de contar uma mudança.

Depois existem momentos nos quais aquelas palavras deixam de ser simbólicas.

E tornam-se literais.

Por muito tempo eu imaginara a vida como uma linha contínua.

Com altos e baixos.

Com acelerações e desacelerações.

Com sucessos e problemas.

Mas sempre a mesma linha.

Sempre a mesma viagem.

Depois chegou o dia em que entendi que uma vida pode interromper-se sem que o corpo morra.

Pode interromper-se uma visão do mundo.

Uma identidade.

Uma segurança.

Um projeto.

Uma imagem de si.

E quando acontece, a pessoa que emerge do outro lado nunca é idêntica àquela que tinha entrado.

No início tenta-se resistir.

Procura-se salvar o que é possível salvar.

Reparar.

Reconstruir.

Voltar à normalidade.

É uma reação natural.

Também eu fiz o mesmo.

Queria recuperar a continuidade.

Queria reatar aquilo que se tinha partido.

Queria voltar ao antes.

Depois compreendi algo difícil de aceitar.

O antes já não existia.

E era inútil persegui-lo.

Esta é uma das lições mais caras da vida.

Porque exige um pequeno luto.

O luto daquilo que éramos.

Falamos muitas vezes das pessoas que perdemos.

Muito menos das identidades que perdemos.

E no entanto também essas merecem um funeral.

Existe o momento em que você deixa de ser o filho que era.

O profissional que era.

O homem que era.

A mulher que era.

Existe o momento em que uma versão de nós conclui a própria tarefa.

E cede o lugar a algo mais.

Quando atravessei aquela temporada, não me dei conta logo.

Pensava que fosse uma crise.

Um parêntese.

Um incidente.

Só depois entendi que estava atravessando uma transformação.

A diferença é enorme.

Uma crise é algo que você deseja terminar.

Uma transformação é algo que o modifica para sempre.

Lembro-me de um período no qual cada certeza parecia suspensa.

As velhas respostas já não funcionavam.

As velhas ferramentas pareciam insuficientes.

Até alguns objetivos perderam significado.

Era uma sensação inquietante.

Como caminhar numa paisagem familiar e descobrir que todas as ruas mudaram de direção.

Por um tempo tentei me orientar usando mapas velhos.

Não adiantou.

Porque quem tinha mudado era eu.

Os mapas não estavam errados.

Estavam obsoletos.

É o que acontece nas grandes transições.

Os problemas não derivam apenas do mundo que muda.

Derivam do fato de que continuamos a interpretá-lo com olhos que pertencem ao passado.

Depois, lentamente, algo se realinha.

Não acontece num dia.

Não acontece numa semana.

Acontece através de centenas de pequenos ajustes.

Através de novas consciências.

Novas prioridades.

Novas perguntas.

Uma manhã você acorda e se dá conta de que está observando a realidade de modo diferente.

As mesmas coisas.

Com olhos diferentes.

Foi então que comecei a compreender o significado autêntico do renascimento.

Não consiste em voltar a ser jovem.

Não consiste em eliminar a dor.

Não consiste em apagar os erros.

Consiste em criar uma nova relação com tudo o que aconteceu.

Com as feridas.

Com os medos.

Com as perdas.

Com as oportunidades.

Com o próprio tempo.

A segunda vida não nasce da negação da primeira.

Nasce da sua integração.

Tudo o que você era continua a existir.

Mas já não governa o presente.

Torna-se experiência.

Torna-se memória.

Torna-se material de construção.

Muitas pessoas imaginam o renascimento como um evento espetacular.

Eu o vivi de modo diferente.

Como uma lenta reconstrução.

Um tijolo de cada vez.

Um pensamento de cada vez.

Uma decisão de cada vez.

Muitas vezes em silêncio.

Muitas vezes sem público.

Muitas vezes sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo.

E no entanto acontecia.

Na profundidade das coisas.

Com o passar do tempo comecei a olhar as outras pessoas de modo diferente.

Compreendi que quase todos estão vivendo mais de uma vida.

Não necessariamente mais existências biológicas.

Mais capítulos interiores.

Mais identidades.

Mais transformações.

Olhamos um rosto e imaginamos continuidade.

Mas por trás daquele rosto poderiam existir cinco, dez, vinte versões diferentes da mesma pessoa.

Todas reais.

Todas sobreviventes.

Todas necessárias.

Talvez seja por isso que a compaixão se torna mais importante com a idade.

Porque aprendemos a respeitar as batalhas invisíveis dos outros.

Compreendemos que ninguém é apenas aquilo que aparenta.

Cada um traz dentro de si uma história de desmoronamentos e reconstruções.

De perdas e renascimentos.

De mortes simbólicas e novas partidas.

Olhando para trás, não idealizo aquele período.

Não desejo revivê-lo.

Foi difícil.

Confuso.

Às vezes doloroso.

Mas reconheço o seu valor.

Porque daquela transformação nasceu alguém que antes não existia.

Alguém mais consciente.

Mais atento.

Mais humano.

Talvez menos seguro.

Mas muito mais autêntico.

E é esta a parte que conta.

No fim do caminho, quando observo o percurso cumprido, não vejo uma só vida.

Vejo pelo menos duas.

A primeira construída sobre as expectativas.

A segunda construída sobre a compreensão.

A primeira centrada no fazer.

A segunda mais atenta ao ser.

A primeira convencida de saber.

A segunda disposta a escutar.

Por isso o título deste limiar não contém exagero algum.

Não é uma frase poética.

Não é uma metáfora.

É uma constatação.

Porque existem momentos nos quais não mudamos simplesmente de direção.

Mudamos de existência.

E quando acontece de verdade, uma segunda vida não é uma metáfora.

É o que resta depois de a primeira ter ensinado tudo o que podia ensinar.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

PDF ← A Saga da Comunidade

Explore the Other Sagas

Library · Vatican · Genesis · Opera

← Return to Main