20 · O Último Passo

A Saga da Comunidade · Edição Brasileira  ·  Nº 20

Parte II · Limiar 9

Além Da Borda


Quando crianças acreditamos que o mundo termina onde termina o nosso olhar.

A colina além do povoado.

A rua além do bairro.

O horizonte além do mar.

Pensamos que a fronteira coincide com o que conhecemos.

Depois crescemos.

E descobrimos que as bordas mais importantes não são geográficas.

São interiores.

Por muitos anos imaginei a minha vida como um conjunto de territórios alcançáveis.

Um trabalho.

Uma posição.

Um objetivo.

Um projeto.

Toda vez que alcançava uma meta, aparecia outra.

Toda vez que atravessava uma fronteira, encontrava uma nova.

No início era empolgante.

Parecia uma forma de progresso.

Depois comecei a notar algo.

Não eram as metas que me transformavam.

Eram as passagens.

O momento em que deixava o terreno conhecido e punha o pé em algo que não controlava mais.

É ali que aconteciam as coisas importantes.

Sempre ali.

Nunca na segurança.

Sempre na borda.

A borda é um lugar particular.

Não pertence ao passado.

Não pertence ao futuro.

É uma linha sutil onde as certezas terminam e as possibilidades começam.

Por isso dá medo.

E por isso é preciosa.

Atravessei muitas bordas na minha vida.

Algumas profissionais.

Algumas pessoais.

Algumas invisíveis a qualquer um exceto a mim.

O dia em que deixei uma segurança.

O dia em que aceitei uma responsabilidade maior.

O dia em que uma doença mudou o significado do tempo.

O dia em que uma perda mudou o significado do amor.

Toda vez o mecanismo era o mesmo.

Primeiro o medo.

Depois a dúvida.

Depois o passo.

Por fim a descoberta.

Com o passar dos anos aprendi que quase todas as coisas importantes vivem além da borda.

O amor vive além da borda do controle.

A confiança vive além da borda do medo.

O crescimento vive além da borda do hábito.

A liberdade vive além da borda da segurança.

E o significado vive além da borda do ego.

Isso não significa que a borda seja confortável.

Nunca é.

Ninguém atravessa de verdade uma fronteira interior sem pagar algo.

É preciso deixar para trás convicções.

Hábitos.

Identidades.

Versões superadas de si mesmo.

Toda transformação exige um desprendimento.

E todo desprendimento produz uma forma de dor.

Por isso muitas pessoas preferem permanecer.

Não porque sejam fracas.

Porque compreendem o preço.

O problema é que permanecer também tem um preço.

Um preço menos visível.

Mas real.

O preço da possibilidade perdida.

Da vida não vivida.

Da pergunta sem resposta.

Às vezes me perguntei o que teria acontecido se tivesse escolhido mais vezes a prudência.

Provavelmente teria cometido menos erros.

Teria sofrido menos.

Teria corrido menos riscos.

Mas teria me tornado uma pessoa diferente.

Talvez mais protegida.

Certamente menos completa.

Porque toda vez que atravessamos uma borda, uma parte da realidade nos é finalmente mostrada.

Não antes.

Não depois.

Somente durante a travessia.

É o motivo pelo qual nenhum livro pode substituir uma experiência.

Nenhum conselho pode substituir uma escolha.

Nenhuma teoria pode substituir uma vida vivida.

Podemos nos preparar.

Podemos estudar.

Podemos escutar.

Mas a passagem cabe sempre a nós.

E é uma passagem solitária.

As pessoas podem te acompanhar até a margem.

Podem te encorajar.

Podem te sustentar.

Podem te amar.

Mas o último passo pertence sempre a quem o dá.

Com o tempo comecei a ver a borda não como um obstáculo mas como um convite.

Um convite a sair do que já conhecia.

A deixar de me definir através do que tinha feito.

A deixar espaço para o que ainda podia me tornar.

Essa consciência mudou a minha relação com o futuro.

Deixei de considerá-lo um destino.

Comecei a considerá-lo um território de exploração.

Não devia controlá-lo.

Devia atravessá-lo.

É uma diferença enorme.

Porque o controle gera tensão.

A exploração gera curiosidade.

E a curiosidade é uma das formas mais elegantes de coragem.

Olhando para trás hoje, não lembro todos os resultados.

Não lembro todos os números.

Não lembro todas as vitórias.

Lembro, ao contrário, as bordas.

Os momentos nos quais poderia ter voltado atrás e não o fiz.

Os momentos nos quais poderia ter fechado a porta e a abri.

Os momentos nos quais poderia ter escolhido a segurança e escolhi a possibilidade.

Nem sempre deu certo.

Algumas vezes errei.

Algumas vezes paguei um preço alto.

Mas toda vez aprendi algo que não poderia ter aprendido permanecendo parado.

E é isso que conta.

No fim da vida não somos definidos apenas pelo que construímos.

Somos definidos também pelas fronteiras que tivemos a coragem de atravessar.

Porque todo ser humano possui uma borda.

Uma linha invisível além da qual começa a versão seguinte de si mesmo.

A maior parte das pessoas a observa de longe.

Algumas se aproximam.

Poucas a atravessam.

Eu não sei se fui corajoso.

Sei apenas que toda vez que a vida me colocou diante de uma borda, tentei não recuar.

Porque é ali que o mundo se torna maior.

É ali que o ser humano se torna mais verdadeiro.

É ali que a história continua.

Além da borda.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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