21 · Nenhum Lugar Reservado

A Saga da Comunidade · Edição Brasileira  ·  Nº 21

Parte II · Limiar 10

Entre Se Você Se Reconhece


Por muitos anos acreditei que as histórias serviam para explicar.

Explicar um evento.

Explicar uma vida.

Explicar uma escolha.

Explicar um erro.

Era uma convicção natural.

Toda vez que lemos um livro, escutamos um relato ou observamos uma biografia, esperamos encontrar uma resposta.

Uma moral.

Uma conclusão.

Um significado ordenado.

Depois descobri algo diferente.

As histórias mais importantes não explicam.

Reconhecem.

Não te dizem o que pensar.

Fazem você erguer o olhar e dizer: “Eu também.”

É uma coisa pequena.

E no entanto muda tudo.

Porque, no momento em que nos reconhecemos em algo, deixamos de ser espectadores.

Tornamo-nos participantes.

Este livro, estes limiares, esta longa travessia não foram escritos para criar admiração.

A admiração é frágil.

Dura pouco.

Vive na distância.

Eu queria outra coisa.

Queria proximidade.

A proximidade nasce apenas quando um ser humano reconhece um fragmento de si dentro da história de um outro.

Não importa o país.

Não importa a língua.

Não importa a religião.

Não importa o ofício.

O que conta é o reconhecimento.

No decorrer da minha vida atravessei muitas fronteiras.

Geográficas.

Profissionais.

Pessoais.

E toda vez chegava à mesma conclusão.

Os seres humanos são muito mais parecidos do que acreditam.

Mudam as palavras.

Mudam os hábitos.

Mudam as tradições.

Mas permanecem idênticas as perguntas.

O medo.

O amor.

A ausência.

A esperança.

A responsabilidade.

A perda.

A busca de significado.

É por isso que uma história escrita num lugar pode ser compreendida do outro lado do mundo.

Não porque conta uma cultura.

Porque conta uma condição humana.

Quando comecei a juntar os fragmentos da minha experiência, não imaginava uma saga.

Não imaginava um sistema narrativo.

Não imaginava nem sequer um destino.

Estava simplesmente tentando compreender o que tinha restado.

Depois do trabalho.

Depois das viagens.

Depois das provas.

Depois das pessoas encontradas.

Depois dos anos.

A resposta chegou lentamente.

Tinha restado muito menos do que pensava.

E muito mais do que imaginava.

Tinham restado os princípios.

As relações.

As lições.

As presenças.

As responsabilidades aceitas.

As fidelidades mantidas.

E sobretudo tinha restado algo que não conseguia definir.

Uma espécie de fio.

Uma ligação invisível entre experiências aparentemente distantes.

O mesmo fio que talvez tenha acompanhado também a tua vida.

Porque toda existência possui uma trama secreta.

No início não a vemos.

Estamos ocupados demais vivendo.

Correndo.

Reagindo.

Construindo.

Depois, a certo ponto, o tempo nos concede uma distância suficiente.

E finalmente começamos a observar o desenho.

Não perfeito.

Não linear.

Mas real.

Talvez seja este o motivo pelo qual contamos.

Não para ensinar.

Para reconhecer.

Reconhecer o que foi.

O que continua a existir.

O que merece ser transmitido.

Muitas vezes me perguntam qual é a mensagem.

A verdade é que não existe uma só.

Cada leitor entrará por uma porta diferente.

Alguém se reconhecerá no pai.

Alguém no filho.

Alguém na perda.

Alguém no renascimento.

Alguém na viagem.

Alguém na doença.

Alguém na resiliência.

Alguém no amor.

A história é a mesma.

A entrada muda.

E está tudo bem assim.

Porque nenhuma narração pertence completamente a quem a escreve.

No momento em que é lida, torna-se também de quem a atravessa.

Aprendi a respeitar essa transformação.

A não controlá-la.

A não dirigi-la.

A deixá-la acontecer.

No fundo, cada leitor reescreve o livro que tem diante de si.

Utilizando a própria experiência.

Utilizando as próprias feridas.

Utilizando a própria memória.

Por isso não existe uma leitura definitiva.

Existem milhares de leituras possíveis.

Todas legítimas.

Todas autênticas.

Todas humanas.

Chegado até aqui, depois de todos estes limiares, não sinto a necessidade de convencer ninguém.

Não devo provar nada.

Não devo buscar aprovação.

Não devo construir um monumento.

Basta-me uma possibilidade mais simples.

Que alguém, lendo estas páginas, encontre um ponto de contato.

Um reconhecimento.

Um eco.

Uma frase.

Uma passagem.

Um silêncio.

Algo que o faça pensar: “Não sou o único.”

Talvez seja esta a verdadeira tarefa de toda narração digna de ser contada.

Reduzir a distância entre seres humanos.

Ainda que só por alguns minutos.

Ainda que só por algumas páginas.

Ainda que só por um limiar.

Porque no fim do caminho, quando os títulos perdem importância, quando as estatísticas se tornam poeira e quando o tempo começa a fazer o próprio trabalho, resta uma só pergunta.

Não quem admiraste.

Não quem seguiste.

Não quem imitaste.

Mas quem reconheceste.

E é por isso que este limiar existe.

Não como conclusão.

Não como convite.

Não como instrução.

Mas como possibilidade.

Se ao longo destas páginas encontraste algo de teu, então a porta já está aberta.

Não precisas pedir permissão.

Não precisas provar nada.

Precisas apenas atravessá-la.

Entra se te reconheces.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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