A SAGA L’ORÉAL BRASILEIRA · Edição Brasileira · Nº 08
A BIBLIOTECA
Pela experiência com a L’Oréal entendi que eu tinha vivido dentro de um formato Gillette, e que não era a mesma coisa que o mercado real — e que, se um dia eu me visse fora de um contexto corporativo, estaria completamente despreparado para enfrentar o mundo.
Meu pai ligou e me convidou para almoçar — não em casa, a gente se encontraria fora, como se fosse só trabalho, quando na verdade estávamos passando o nosso melhor tempo juntos, pai e filho se reencontrando. Sinto falta dele.
Ele estava curioso para saber como eu me sentia depois dessa experiência profissional — não queria os detalhes nem as particularidades, sempre tinha sido um homem reservado, nunca perguntava, só ouvia e sorria.
Eu tinha dito a ele que queria estudar — não pela escola nem pela universidade, mas indo até uma biblioteca e, dia após dia, explorando o que os livros tinham a dizer.
Ele ficou feliz com isso e disse: a cultura não vem só da experiência — lembre-se de que a história sempre se repete, os mesmos ciclos de novo e de novo, basta você lê-la uma vez e entender como ela funciona.
Poucas palavras, nada de teatro — isso também faz parte de quem eu sou hoje. A ironia eu herdei da minha mãe, um traço na verdade herdado do meu avô materno.
Mas eu sempre teria que adaptar a minha linguagem a quem quer que estivesse falando, porque uma palavra complicada muitas vezes não sinaliza cultura nenhuma — só te faz soar como um tolo ignorante que não faz a menor ideia do que diabo está dizendo.
Pensei em ir a Milão e me inscrever num curso de gestão da Kaiser, mas queriam 3.760.000 liras, e depois de ler todo o programa não me convenci de que valia o investimento.
Eu queria me testar contra o conhecimento dos outros, e encontrei o que fazer: UM CURSO DE MERCHANDISER, onde eu poderia refinar e aprimorar o que eu já fazia na prática, fundamentando aquilo na teoria.
Paguei 650.000 liras por vinte horas de aula por semana — mas vou te contar como aquilo terminou no próximo episódio.
Só um pensamento: já naquela época eu pressentia que alguma coisa em mim não estava funcionando, ou talvez estivesse funcionando muito bem, mas eu não sabia dizer o que era. Foi a escrita, mais tarde, que deixou tudo claro.
Eu era alguém que ninguém esperava que existisse — e, ainda assim, eu era alguém.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️