A SAGA L’ORÉAL BRASILEIRA · Edição Brasileira · Nº 01
GILLETTE, FREGA E L’ORÉAL
Uma noite no hotel, eu tinha acabado de voltar da minha rodada de visitas e vendas, e meu pai tinha feito o mesmo — a gente usava o mesmo hotel para ficar um pouco juntos, isso acontecia cerca de uma semana a cada quatro meses.
À nossa mesa se juntou um colega simpático chamado Giorgio, um executivo de vendas da L’Oréal que tinha assumido a tarefa de organizar a distribuição na DO — eles estavam saindo das perfumarias em direção aos supermercados, enquanto seu mercado histórico permanecia onde eram fortes: produtos e cosméticos Corolle.
Ele tinha saído do hospital havia pouco tempo, por causa da doença de Crohn. Era jovem, quarenta e cinco anos, mas dava para ver que não estava com muita força.
Ele me perguntou qual era o meu roteiro para o dia seguinte, e se eu podia apresentá-lo aos meus clientes, poupando-o dos mapas das ruas e agilizando o trabalho dele — a gente ia tentar.
Meu pai não disse uma palavra, ficou em silêncio, o que significava que aprovava — caso contrário teria dito: “Nando, escuta, a gente precisa conversar”, que era o jeito dele de dizer: que diabo você está fazendo.
Giorgio e eu viramos amigos, e saímos juntos nas rodadas de clientes por quase dois anos, embora nunca mais do que uma semana por mês.
Quando, em 88, a Gillette decidiu criar duas divisões de produtos — Barbear e Cuidados Pessoais — eu me dei mais conta de que vender artigos de higiene era um trabalho mais difícil. Então em 89 voltei para o Barbear, e ele foi de grande ajuda para mim — aprendi muito com a L’Oréal, embora a gente nunca vendesse produtos concorrentes.
Depois de dois anos convivendo com Giorgio, muita coisa aconteceu, mas só me lembro de duas que realmente importaram: Um cliente atacadista, um jovem formado, nos recebeu no escritório dele e disse: “Chamei os dois aqui porque preciso dos produtos de vocês.” Giorgio se levantou e caminhou até a saída para conferir a placa lá fora, e o rapaz, surpreso, perguntou o que estava acontecendo. Ele voltou sorrindo: “Tive a impressão de que a gente tinha errado o lugar — que, em vez do escritório de um cliente, tínhamos entrado numa delegacia de polícia.” Aquilo rendeu uma longa gargalhada, e depois todo mundo ficou sabendo e sorria toda vez que nos via.
Então um dia, alguém de Milão me ligou, pedindo educadamente que eu não andasse mais com o meu colega da L’Oréal, porque a divisão de Cuidados Pessoais da Gillette não estava vendendo xampu, e a culpa era do Frega — por vender L’Oréal. Ahahahahaha.
Um dia fomos com Giorgio visitar um atacadista de alimentos. Quando eu disse a ele que me chamasse de Frega e que eu representava a Gillette, ele me recebeu de braços abertos — estava me esperando. Quando chegou a vez de Giorgio e ele disse que era da L’Oréal, o atacadista implorou que voltasse outra hora, já que tinha acabado de descarregar dois caminhões de óleo. Giorgio rebateu: “Óleo de semente ou azeite de oliva?” O cliente disse: “Não se preocupe, vou comprar os dois. Volte que eu faço o pedido — vou dar uma força para você. O Frega não precisa de força.”
Ele morreu jovem, aos cinquenta e dois. E, para agradecê-lo, dei o nome dele à minha filha — Giorgia — para que a memória dele ficasse comigo para sempre.
Ciao, Giorgio.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️