A SAGA L’ORÉAL BRASILEIRA · Edição Brasileira · Nº 15
O CABELO
O cabelo é um detalhe que as pessoas fingem entender.
Chamam de higiene, estética, identidade, cultura, ritual.
Na verdade, é apenas uma fronteira — entre o que você mostra e o que você esconde.
Alguns o confiam a barbeiros, alguns a esteticistas, alguns a máquinas modernas que prometem autonomia e perfeição. Mas o cabelo continua ali, teimoso, um lembrete biológico: você é um animal antes de ser um ser social.
E, mesmo assim, não é um inimigo. É um amigo incômodo, um companheiro de viagem que te lembra de onde você vem. Tem uma distribuição quase capilar, uma cor atribuída pelo seu mapa genético, e uma história que você não consegue apagar. Mesmo quem sofre de alopecia não está sem ele — apenas o perdeu por um tempo que ninguém consegue definir.
Mas, para entender o cabelo, você tem que voltar à origem — para onde você sempre retorna: o humano primitivo.
Eu o imagino assim, numa cena noir pré-histórica. Duas figuras atrás de uma parede de capim estão conversando. Uma terceira pessoa chega e não consegue distinguir quem é o homem e quem é a mulher. O rosto não basta.
O rosto engana.
Então a mulher decide mudar o destino da sua identidade.
Ela vai até o rio, se olha na água, e vê uma barba.
Não gosta. Não a representa. Não a distingue.
Ela encontra uma pedra afiada e começa a remover os pelos, um fio de cada vez.
Descobre que o crescimento é lento — e isso lhe dá uma vantagem: ela não precisa repetir o ritual todos os dias. E descobre algo ainda mais poderoso: o homem a olha de forma diferente.
A diferença vira atração.
A diferença vira linguagem.
A partir daí, nasce toda a cultura do cabelo: primeiro simbólica, depois social, depois higiênica, depois científica, depois ideológica.
Até chegar aos extremismos modernos: os que dizem que o cabelo te protege das bactérias e deve ser mantido; os que dizem que ele deve ser removido para ser aceito; os que dizem que ele deve ser modelado para ser desejado.
A verdade é mais simples: o cabelo nasce, cresce, se curva… e no ponto em que se curva, morre.
Mas a raiz continua viva, teimosa, como certas ideias que você não consegue remover nem com força de vontade.
E então há a regra final, a que só os contadores de histórias conhecem: nunca transforme uma raiz numa revolta.
A diferença é mínima — só uma vogal.
Mas muda tudo.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️