O HOMEM L’ORÉAL

A SAGA L’ORÉAL BRASILEIRA · Edição Brasileira  ·  Nº 10

O HOMEM L’ORÉAL


Esperei muito tempo antes de escrever este texto.

Não por me faltarem as palavras, mas porque tinha medo de desperdiçá-las com um homem que merecia mais.

Giorgio não era um vendedor.

Era um método disfarçado de pessoa.

Era o Sr. Giorgio Priolo, Diretor Comercial para o Sul da Itália na L’Oréal.

Tinha começado como vendedor em meados dos anos 1970, no mundo das perfumarias — um mercado quase exclusivamente associado às mulheres, o próprio mundo com que a L’Oréal sempre dialogou e ao qual permaneceu profundamente ligada.

Um mundo que acabou dando origem ao hoje universal slogan “Porque Eu Mereço”, como se fosse a resposta de uma mulher cansada de ter que provar o próprio valor, cansada de buscar permissão para se sentir digna.

Agências de publicidade globais ganharam bilhões de dólares desenvolvendo conceitos como esse, com toda a sua suposta criatividade, quando tudo o que de fato precisavam era mandar um vendedor ao Queens, escutar pessoas comuns por algumas horas, e transformar as palavras delas em duas ideias simples pelo preço de um café de um dólar.

AHAHAHAHAHAH.

Eu o conheci num hotel, sentado a uma mesa com o meu pai, numa daquelas noites em que trabalho e família se misturam sem pedir licença.

A L’Oréal o tinha mandado organizar o seu negócio de Grande Distribuição, um mercado emergente que estava concentrando rapidamente consumidores e consumo, enquanto o seu reino histórico — as perfumarias e os balcões COROLLE — permanecia intacto, forte, intocável.

Ele já tinha conhecido a doença.

Ainda era jovem, mas o corpo já tinha lhe pedido para pagar a conta uma vez. Nunca falava disso para conquistar compaixão. Quando chegava a mencionar, falava do mesmo jeito que se fala do tempo: um fato, não uma tragédia.

Ele me emprestou dois anos da sua companhia, um dia por semana a cada mês, viajando entre clientes que não eram nem dele nem meus.

Pela duração daquelas jornadas, eles se tornavam nossos.

Ele me ensinou que um homem da Gillette que sabia escutar a L’Oréal entendia o mercado melhor do que alguém que vendia apenas lâminas de barbear.

Ele tirou de mim a minha loção pós-barba masculina e a substituiu por uma fragrância feminina, me dizendo que às vezes os homens precisam usar aquilo que querem entender, não aquilo que são.

Ele me chamava de seu aprendiz de feiticeiro, e nunca dizia isso de brincadeira.

Dizia porque acreditava.

Com os clientes, ficamos conhecidos simplesmente como “Que Grande Empresa”.

Esse era o nosso slogan.

Sempre alegávamos que estávamos nos divertindo, e que era por isso que nos pagavam.

Enquanto isso, o mundo lá fora era diferente: os que viviam reclamando, os que sempre tinham reclamado, e os que não faziam absolutamente nada e mesmo assim reclamavam.

Vendedores de outras empresas.

Nomes, dispensáveis.

Um dia Milão me ligou, muito educadamente, para me pedir que parasse de viajar com ele.

A divisão de Cuidados Pessoais da Gillette no meu território estava desmoronando e, de algum modo, a culpa parecia ser minha.

Segundo algumas pessoas, eu estava vendendo L’Oréal sem sequer perceber.

Sem comissões.

De graça.

Assim como ainda faço hoje.

Rimos disso por dias.

A Gillette tinha construído um império em torno de uma promessa simples: A MELHOR COISA QUE UM HOMEM PODE TER.

Na época, achei que fosse publicidade.

Anos depois, percebi que tinha sido uma descrição.

Porque um dia, um concorrente me deu exatamente aquilo.

O nome dele era Giorgio Priolo.

Ele morreu aos cinquenta e dois.

Cedo demais para um homem que ainda tinha clientes para apresentar, piadas para contar, e uma vida inteira de compromissos que a sua saúde jamais cumpriria.

Eu dei o nome dele.

Minha filha se chama Giorgia, e toda vez que a chamo, chamo também por ele — por um instante, de volta à minha mesa.

Ele não era um colega.

Era o homem que me ensinou que uma empresa rival, vista de perto, é apenas outra família que você ainda não conheceu.

Adeus, Giorgio.

Esta saga é tão sua quanto minha.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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