O SR. FREGA EMPRESTADO À L’ORÉAL

A SAGA L’ORÉAL BRASILEIRA · Edição Brasileira  ·  Nº 02

O SR. FREGA EMPRESTADO À L’ORÉAL


Nas manhãs de domingo, Giorgio e eu costumávamos nos encontrar — um amigo e colega, gerente comercial de uma das maiores empresas do mundo em cosméticos femininos: a L’ORÉAL.

Era o nosso jeito de manter a proximidade, de contar um ao outro sobre a semana, sobre o trabalho, e depois falar dos clientes lá no mercado, trocando uma piada ou outra sobre o que tinha surgido, diante de uma xícara quente de café no bar.

Ele tinha um temperamento sociável, sempre sorrindo, sempre irônico, mas com um espírito indomável — uma elegância e um refinamento que não tinham igual.

Sempre tinha uma piada na ponta da língua, e nunca uma descuidada, um sorriso proverbial que deixava todo mundo à vontade — gostava de dizer que tinha gasto uma fortuna nos dentes novos, e que teve que assegurá-los por 25 mil euros, contra o risco de alguém não levar tão bem uma das suas piadinhas afiadas e resolver arrancá-los.

Sempre que saíamos para vender juntos pela nossa região, a Calábria, anunciávamos em voz alta a cada cliente que éramos os homens mais sortudos do mundo, trabalhando para as duas melhores empresas do planeta, que nos pagavam uma fortuna só para nos divertir, não para trabalhar — o que nunca deixava de irritar quem estava ouvindo. Muitas vezes não acreditavam na gente, mas mesmo assim tínhamos o respeito de quase todos.

Numa manhã de abril ele me disse: semana que vem eu passo para te pegar, a gente vai trabalhar na Sicília, três dias — não se preocupe, está tudo coberto, você não paga por nada.

Ele sabia muito bem que não era o meu território, então perguntei: que diabo a gente vai fazer fora do território?

Bom, ele disse, isso vai ser a sua surpresa — e talvez um pouco a minha também.

Você vai continuar sendo o Frega da Gillette, mas por três dias vai ser convidado da empresa lá no campo, por conta da L’ORÉAL.

Vou te mostrar o outro lado da moeda — um mercado que você não conhece, que você nunca viu, porque nunca esteve nele, onde as mulheres são as protagonistas de toda compra, com todos os seus jeitos particulares.

Para mim é também uma forma de dizer obrigado, pelos dois anos que passamos juntos — eu sei que sem você, sem a sua ajuda e a sua boa vontade, o seu calor e os seus modos, tudo aquilo que faz de você o homem e o amigo que você é, eu provavelmente não teria conseguido voltar ao trabalho, e talvez nem sequer voltar a viver, depois do câncer de estômago.

Ele se deixou levar, só por um instante, uma única lágrima — foi a primeira vez que eu o tinha visto assim, incapaz de segurar a emoção.

Ele me disse que passaríamos três dias em Catânia e um em Palermo, e depois voltaríamos para casa — estavam tratando aquilo como um teste oficial, aprovado de antemão pela direção de vendas dele, que tinha dado o aval, e todo mundo estava curioso para ver o que ia acontecer e no que nós dois íamos nos meter.

Eu disse sim sem hesitar. As empresas sempre te davam informação, mas nunca compartilhavam experiência de verdade — e aquela era uma chance genuína de crescer.

Contei ao meu pai, e ele sorriu e disse: você não para de fazer coisas que ninguém vê chegando — isso não é só um traço, isso é o Ferdinando Frega.

Era o jeito dele de dar a bênção. Conhecia Giorgio havia vinte anos e sabia que eu ia aprender alguma coisa — só não sabia o quê.

Cheguei em casa e minha esposa viu algo estranho no meu rosto e perguntou o que havia. Me emprestaram para a L’Oréal por três dias, eu disse, e ela rebateu: o mesmo brincalhão de sempre — quando é que você vai ser sério?

No dia em que eu voltar te conto exatamente como foi, eu disse, e contei a ela a história toda. Ela disse: agora você se meteu numa fria — está entrando no mundo das mulheres por uma porta diferente daquela a que está acostumado. Estou curiosa para ver o que acontece.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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