UM EXEMPLO GILLETTE

Um exemplo Gillette — Gillette, a peça que falta, capítulo 10

GILLETTE, A PEÇA QUE FALTA · Edição brasileira  ·  N.º 10

UM EXEMPLO GILLETTE

Sobre a distância, o disfarce e a mulher que audita.


POR EXEMPLO,

A comunicação sempre se apoiou numa fórmula particular.

Por exemplo.

Duas palavras inocentes.

Duas palavras que parecem inofensivas e corteses, mas têm uma vantagem extraordinária: permitem que uma pessoa entre no território de outra sem pedir licença.

Quando alguém diz por exemplo, o objetivo raramente é o exemplo em si.

O objetivo é a distância.

Porque as pessoas não gostam de se ver expostas a um problema. Não gostam de ouvir o próprio nome ligado a uma fraqueza, a um erro ou a uma contradição.

Mas estão perfeitamente dispostas a observar essas mesmas coisas quando elas pertencem a outra pessoa.

E assim a comunicação inventou um atalho notável.

Não diga:

“Você está fazendo isso.”

Diga:

“Por exemplo, imagine um homem que…”

E imediatamente as defesas caem.

O ouvinte acompanha a história.

Examina o personagem.

Julga a situação.

Talvez até ria.

Só mais tarde vem a constatação.

O personagem nunca foi outra pessoa.

O personagem era o ouvinte.

O exemplo era apenas um disfarce usado pela realidade.

Os melhores comunicadores sempre souberam disso.

As ideias raramente entram pela porta da frente.

Preferem as entradas laterais.

POR EXEMPLO,

As relações humanas sempre dependeram de exemplos. Principalmente entre homens e mulheres.

Os homens os usam há séculos.

Por exemplo, imagine que a gente morasse à beira-mar.

Por exemplo, imagine que a gente tivesse se conhecido cinco anos antes.

Por exemplo, imagine que a gente se mudasse para Nova York.

Por exemplo, imagine que a gente pertencesse um ao outro.

Nenhuma dessas frases descreve a realidade.

Descrevem arquitetura.

Estruturas temporárias construídas com palavras.

Quartos onde a possibilidade tem permissão para entrar antes que as provas cheguem.

Os homens adoram esses quartos.

Porque imaginar custa menos do que construir.

Dentro da imaginação, todo projeto funciona.

Toda viagem dá certo.

Toda mulher compreende.

Todo desfecho é favorável.

Então, mais cedo ou mais tarde, a realidade chega.

E a realidade muitas vezes chega na forma de uma mulher.

Uma mulher inteligente escuta.

Uma mulher muito inteligente avalia.

Uma mulher superior audita.

E a diferença é considerável.

Uma conversa comum pode sobreviver a uma avaliação.

Um projeto pode sobreviver à crítica.

Uma ilusão nunca sobrevive a uma auditoria.

Esse costuma ser o momento exato em que um homem inteligente descobre se estava construindo um futuro ou apenas decorando uma fantasia.

A resposta chega rápido.

As mulheres quase sempre cobram por segundo.

Nunca por hora.

POR EXEMPLO,

Imagine um homem que passou anos construindo explicações. Estratégias.

Cenários.

Modelos.

Arquitetura.

Sistemas inteiros projetados para fazer a realidade parecer razoável.

Então, um dia, ele encontra uma mulher cuja inteligência ultrapassa as dimensões do sistema que ele construiu.

Sem drama.

Sem agressividade.

Só com naturalidade.

Ela escuta.

Observa.

Espera.

Depois faz uma pergunta.

Uma pergunta simples.

O tipo de pergunta que faz dez anos de construção intelectual desabarem em dez segundos.

Nesse ponto acontece uma coisa incomum.

O homem para de construir.

Os planos de repente perdem o encanto.

As plantas baixas se tornam desnecessárias.

Os cálculos viram enfeite.

A arquitetura desaparece.

O projeto vai direto para o cesto de lixo.

Não porque ele tenha sido derrotado.

Não porque tenha sido humilhado.

Porque finalmente entendeu uma coisa.

O exemplo nunca tinha sido hipotético.

O exemplo era ele.

O exercício era ele.

O estudo de caso era ele.

E a mulher diante dele não tinha entrado na imaginação dele.

Ele é que tinha entrado na dela.


Ferdinando

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