DE +33

A SAGA BIC BRASILEIRA · Edição Brasileira  ·  Nº 05

DE +33


Naquela tarde de verão, eu havia decidido subir para as montanhas.

Na cidade, a temperatura havia chegado a 42 graus Celsius. A Calábria Saudita nos lembrava o que era o calor do deserto. Ainda não tínhamos sido admitidos na OPEP, a Itália continuava se recusando a nos deixar ir, e Bruxelas apresentava uma conta diferente a cada dia, cada uma exigindo um novo sacrifício.

Incapaz de deixar de refletir sobre como eu passava os meus dias, sorri diante dos acontecimentos recentes e pensei em como a humanidade podia ser frágil dentro das histórias, dentro dos pensamentos, e enquanto relia as mensagens guardadas no meu celular.

Só haviam se passado alguns dias desde que toda a diretoria da BIC France deixara a minha cidade. A Chanel partiu pouco depois, e menos de vinte e quatro horas mais tarde me enviou uma mensagem no Telegram.

Ela dizia: “A moça do hotel me deu o seu número de telefone. As mulheres sempre trocam essas pequenas gentilezas entre si. Fiquei realmente feliz em conhecê-lo, e apreciei o fato de que o senhor não fez o que a maioria dos homens costuma fazer. O senhor prestou atenção na minha mente, e não apenas no meu corpo. Mas, falando com sinceridade, como mulher, acredito que isto não é o fim.

Não é uma promessa; é muito mais do que isso. E as mulheres nunca desistem das coisas impossíveis.

Falo com o senhor em breve.

Beijos, Chanel.”

Eu estava prestes a guardar o celular e sumir na natureza quando outra chamada chegou.

O código do país era o mesmo de sempre.

+33. França.

A Chanel queria falar comigo.

Não atendi de imediato.

Na verdade, só atendi na quarta tentativa, cada ligação chegando quase exatamente cinco minutos depois da anterior.

Eu queria entender quão urgente e importante era de fato o assunto, e essa era a única estratégia que me permitia medi-lo com precisão.

Era um dos segredos que a Mãe Gillette havia me ensinado.

Nunca ofereça a sua total disponibilidade.

Não se torne fácil demais de alcançar.

Torne-se algo valioso, quase um objeto precioso.

Só assim o seu valor aumenta, e só assim as pessoas passam a considerá-lo do jeito devido.

Por fim, chegou o momento de atender.

Ela parecia irritada e logo perguntou onde eu havia me metido.

Era importante.

Era urgente.

Precisávamos de outra reunião.

Mas dessa vez, disse ela, seria no mais alto nível.

— Quem é? — perguntei. — O Papa, do Vaticano?

— Não — respondeu ela, rindo. — O senhor é sempre o mesmo.

O comentário quase sugeria que ela já havia passado a me conhecer.

Então ela continuou.

— A família que detém a maior participação acionária da BIC quer conhecê-lo. E, curiosamente, até para mim, são todas mulheres. Nenhum homem.

— O senhor vem a Paris?

— Preciso ver quanto custa o camelo disponível — respondi. — Além do mais, a senhora sabe que vivo com muito pouco.

— Eu sabia que o senhor viria por um único motivo — respondeu ela.

— Lendo os seus livros, percebi que o senhor nunca diz não às mulheres. É uma questão de elegância, estilo e classe. Qualquer um que leia a sua obra consegue perceber isso.

— Por favor, não me faça corar — disse eu. — Ainda mais porque, pelo telefone, a senhora nunca perceberia. E quando exatamente gostaria que eu fosse?

— Quando o senhor quiser. Não é preciso marcar hora. Elas o receberão dentro de um café na Champs-Élysées. Pode pedir o que quiser para beber.

— Vou me organizar e aviso a senhora em breve.

— Até logo.

— Até logo.

Depois que a ligação terminou, fiquei muito tempo pensando.

No entanto, nenhum pensamento jamais alcançaria a realidade contida na improvisação das mulheres extraordinárias.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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