A SAGA BIC BRASILEIRA · Edição Brasileira · Nº 03
SHERATON
Cheguei exatamente na hora.
Ela não estava lá.
Então o meu telefone tocou.
Era a Chanel. Ela se desculpou. Estava num táxi, ainda na estrada, e chegaria com apenas cinco minutos de atraso.
Alguns minutos depois eu a vi entrar no hotel.
Cabelos longos e loiros. Alta. Elegante. O tipo de presença que dispensava apresentações.
Ela se aproximou da recepção, fez o check-in, deixou a bagagem e então veio em minha direção.
— Senhor Frega, boa tarde. Sou a Chanel. Já tenho a vantagem de saber quem o senhor é. O vídeo no seu site e a sua fotografia não criaram falsas expectativas. E também é verdade que o senhor não usou nenhum filtro. O senhor é exatamente como se anuncia.
— Obrigado, senhora. Por favor, sente-se. Posso lhe oferecer um café ou outra coisa para beber?
Fique à vontade. Não tenho pressa, e sei como um cavalheiro deve se comportar na companhia de uma dama.
— Não, obrigada. Já tomei café no aeroporto. Aliás, estou usando um perfume novo hoje. Espero que goste.
O perfume chamou a minha atenção.
— Qual é o nome dele? — perguntei. — É completamente novo para os meus sentidos.
Ela sorriu.
— Bem, o nome dele é um velho clássico francês. Ele responde a uma pergunta muito simples: como se derrota um italiano sem nunca entrar em campo?
Olhei diretamente nos olhos dela.
Além de elegante, ela era extraordinariamente inteligente. Só isso já me deixava mais disposto a prosseguir com a conversa. Um forte sentimento de empatia surgiu quase de imediato.
Ela começou a explicar o motivo da visita, mas eu me vi distraído pela maneira como ela se movia enquanto falava. Ela percebeu. De vez em quando fazia uma pausa e perguntava se estava tudo claro.
Claro apenas até certo ponto.
Ela tinha aquele tipo de presença que dificulta a concentração.
Então ela disse algo que mudou completamente o rumo da reunião.
— Cinco altos executivos da BIC France vieram comigo hoje. Eles gostariam de conhecê-lo. É aí que a verdadeira conversa começa.
Minha atenção voltou imediatamente ao assunto.
Ela fez sinal para que se aproximassem. Afinal, eu havia concordado em conhecê-los.
Em instantes, éramos sete reunidos ao redor de uma mesa cercada por quatro sofás.
A princípio, imaginei que fosse algum tipo de mal-entendido.
Por que alguém viajaria da França inteira para uma reunião comigo?
O mais velho entre eles se apresentou.
— Meu nome é M……..A. Atualmente ocupo o cargo de CEO da BIC France.
Eu ainda não fazia ideia do que eles queriam.
Pedi que todos se apresentassem.
O quadro ficou claro muito rápido.
Toda a diretoria da BIC estava diante de mim.
O motivo da reunião era a oferta pública de aquisição editorial que eu havia lançado on-line.
Eles a levaram a sério.
Na verdade, a levaram a sério o bastante para começar a questionar o próprio futuro. Seriam reposicionados dentro da nova organização? Teriam de buscar emprego em outro lugar?
E, de algum modo, a ligação havia sido arranjada por meio da Chanel, que permanecia quase sempre em silêncio, comunicando-se por gestos. Uma presença impossível de ignorar.
Expliquei que eu era apenas um escritor e nada mais.
Ninguém acreditou em mim.
A resposta foi unânime.
— Quando alguém da Gillette fala, até os nossos acionistas escutam em silêncio. A começar pela própria família Bic.
Pedi uma breve pausa e usei a desculpa de um café para decidir o que dizer em seguida.
A situação era incomum.
Ainda assim, pela primeira vez tive certeza de uma coisa: a narrativa causa muito mais transtorno do que as promessas.
E só agora eu começava a entender isso.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️