A SAGA DOS QUARTOS DA MENTE · Edição Brasileira · Nº 07
GENÉTICA — ORIGEM
Olhei-me no espelho.
Pensei que estava me vendo.
Depois comecei a ver outra coisa.
Meu pai.
Meu avô.
Seus silêncios.
Sua teimosia.
Seus medos.
Sua disciplina.
Mas cometi um erro.
Não dediquei tempo suficiente a procurar minha mãe.
A mulher que me trouxe ao mundo.
Procurei-a apenas no meu rosto.
A genética é uma biblioteca sem estantes.
Um arquivo escrito na carne.
Cada gesto contém vestígios.
Cada reação guarda uma memória.
Carregamos batalhas que nunca travamos.
Medos que nunca aprendemos.
Forças cuja origem não sabemos explicar.
Nunca somos um começo absoluto.
Somos continuidade.
Somos o próximo capítulo de uma história muito maior que o nosso nome.
Então compreendi uma coisa.
A herança mais importante não estava escrita nos traços do rosto.
Não nos olhos.
Não no formato do rosto.
Estava escrita nos atos.
Naquele jeito silencioso de enfrentar as dificuldades.
Na capacidade de resistir sem fazer barulho.
E ali, enfim, comecei a ver minha mãe.
Não no espelho.
Mas cada vez que eu escolhia não me render sem anunciar isso ao mundo.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️