Edição em português · VATICAN SAGA · 10/17
Muitos Vícios e Poucas Virtudes
A Itália, Vista de Perto
Ser imprevisível tem as suas vantagens, mas também os seus pontos cegos. Aqueles momentos em que você espera que a clareza chegue sozinha. E ela chega. Basta saber esperar. O que não é um talento italiano. Nenhum projeto a montante. Nenhum planejamento. Esse é um trabalho reservado a quem é bem pago para parecer reflexivo, enquanto os dados reais continuam presos ao instinto e à intuição. Dois valores absolutos. Sem nunca esquecer que somos filhos de mulheres capazes. Nunca esqueça isso. Os americanos chamam isso de work in progress, e dizem isso com naturalidade. Nós italianos não temos visão gerencial. Depois de dois mil anos ainda estamos defendendo as nossas posições. Discutindo sobre quem era dono do quê, e nunca sobre quem realmente era dono do quê. E sempre invocando os antigos romanos. Hábeis construtores de aquedutos e latrinas. Mestres da submissão, da dominação, da usurpação, da discriminação. Envoltos em entretenimento e orgia sem fim. Muitos vícios e poucas virtudes. Um povo que pregou numa cruz o colega que chegou dois mil anos atrás trazendo uma palavra e um livro. Ele não tinha vindo anunciar a chegada de Bezos e da Amazon. Tinha vindo mostrar como se constrói e se possui um negócio na pele dos outros. Dois mil anos depois o confessionário ainda está na mesma sala. Os pecados são os mesmos. Só a penitência foi renegociada.
Um povo que perdeu tudo e ficou com os mictórios públicos, e um governo que governa como quem reza com pressa. Olhos fechados. Palavras decoradas. A cabeça já do lado de fora da porta. Pedimos proteção a Washington e chamamos isso de soberania. Pedimos dinheiro a Bruxelas e chamamos isso de dignidade. Depois vamos comungar com uma das mãos ainda no bolso de alguém. A Igreja pelo menos admite que tem dogmas. A nossa política tem os mesmos dogmas e os chama de bom senso. Ambas pedem que você acredite sem verificar. Só uma das duas tem a decência de chamar isso de fé. E há uma lição que este país nunca aprendeu, embora tenha ficado diante dos seus altares por séculos. A submissão aparente é a verdadeira conquista escondida. Só é legível para um homem de bolsos vazios. Enquanto o capital se acumula de um lado, do outro alguém segura exatamente aquilo que consegue conter, do jeito que um crupiê trabalha uma mesa de cassino. A casa nunca levanta a voz. A casa espera. Que é justamente a única coisa que ficou estabelecido que não sabemos fazer. Itália. Um país onde você vem passar vinte dias de férias, come bem e depois vai embora imediatamente. Porque não é um lugar que eu recomende. Nando © 2026 Ferdinando Frega — Nando the Scribe. Todos os direitos reservados.
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