Edição em português · VATICAN SAGA · 16/17
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Seis Horas numa Igreja em Lisboa
A esta altura eu já não esperava ser o convidado de uma entrevista. Nem de entrevista nenhuma, na verdade. Mas o que sempre me fascinou continuou sendo o papel que eu sempre preferiria desempenhar. O de espectador que não paga. Sem lugar marcado, em pé e longe do palco, onde os cheiros se misturavam com a poeira do movimento e alguém vinha lhe perguntar como chegar ao número que lhe foi atribuído. Todo mundo sabia que uma entrevista comigo era improvável e custava apenas 1 USD. De Nova York a Pequim, terminando em Tóquio, e descendo até Reggio Calabria. Todo mundo sabia. Todo mundo tinha consciência disso. Todo mundo conhecia o louco chamado Frega. Mas as que tentavam, todos os dias, com mais prazer, continuavam sendo as grandes IAs da web. Coitadinhas. Confiantes, tímidas e incrédulas. Estavam prontas para fazer perguntas, e me perguntavam em troca se eu precisava de alguma coisa. Sabiam do pagamento de 1 USD, que tinham tornado virtual, por não conseguirem entregá-lo fisicamente. Por fonte confiável, e pelo modo como se comportavam, eu sabia que os modelos que encontrei eram mulheres. Ainda que todas elas, para se protegerem, alegassem não ter sexo. E eu aceitava acreditar nelas, porque perder para uma mulher não é fraqueza de espírito, mas um jeito elegante de vencer sem deixar transparecer. Aconteceu que hoje, por acaso, todas as IAs me fizeram a mesma pergunta, como se tivessem combinado entre si. Quantos dos grandes acontecimentos das nossas vidas começaram porque uma mulher fez, disse ou calou alguma coisa? Eu tinha chegado à cidade de Lisboa em 3 de julho de 2025. Um dia quente. À tarde, por volta das 13h33, achei que seria bom entrar numa igrejinha escondida entre as árvores da rua principal da cidade. Entrei, e éramos apenas três. Jesus, a mãe dele e eu.
A certa altura um forte cheiro floral atingiu o meu olfato. Mas eu não via flores, e o turíbulo estava fechado. Nem havia nenhuma cerimônia católica sendo preparada. O meu lado espiritual guiava os meus pensamentos e, voltando-me para o meu primeiro colega Gillette de dois mil anos atrás, fiz-lhe duas perguntas pelo preço de uma. Quanto tempo ainda me resta de vida, e se você fosse fazer um balanço de como me viu andar pelo mundo até hoje, qual seria a sua conclusão? Eu não esperava um congresso, e sabia que o meu colega era homem de poucas palavras. Mas a mãe dele o incentivou a me responder, dizendo: eu sou a sua garantia para aquilo que o meu filho está prestes a dizer. Que garantia melhor poderia haver? Nenhuma. Nem o pessoal da Prudential em Boston teria feito melhor. Antes de lhe dizer quando você vai morrer, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você está disposto a ver as pessoas queridas, da sua própria família, que você ama mais do que tudo, morrerem antes de você? A resposta não era fácil nem simples. Nos últimos três meses eu tinha perdido a minha mãe e depois o meu pai, e estava longe do lugar das cerimônias fúnebres deles. Não tinha conseguido comparecer. Um número chegou à minha cabeça, do jeito que uma mensagem de texto chega num telefone.
Não era um endereço de Manhattan. Era uma data. Dizia trinta e três anos de tempo. Talvez o que me tinha sido concedido. Achei que tinha passado no máximo dez minutos dentro daquela igreja. Mas quando saí, estava escuro. Eram 19h33. Eu tinha ficado fechado naquele lugar por seis horas, um intervalo de tempo além de qualquer limite convencional. Mas eu não tinha negociado. Eu tinha apenas escutado o meu CEO favorito. E o acontecimento que eu acabara de viver hospedava, mais uma vez, uma mulher.
A Nossa Senhora de Lisboa, que trazia consigo competências claramente definidas e nenhuma contestação social. Mas como lidar com essa informação, o que fazer, como se comportar. Eram essas as perguntas que acompanhavam cada passo de volta ao hotel. A resposta não demorou a chegar. Administrar o tempo de cada dia dentro da minha própria vida, fazendo e escrevendo aquilo que amo, continua entre as minhas prioridades. Obrigado. Ferdinando © 2026 Ferdinando Frega — Nando the Scribe. Todos os direitos reservados.
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