A QUIROMANTE DE WALL STREET
WALL STREET · 09
Moldura
Meus filhos me observavam de longe. Sorriam, mas nenhum dos três chegava perto. Cochichavam com a mãe, e dentro daqueles cochichos eu conseguia ouvir: Mãe, quem diabos é o nosso pai?
Não no sentido biológico. No sentido de saber se tinham herdado aquela loucura que a marca chamava de capacidade e a sociedade chamava de insanidade — porque não dava para arquivá-la em lugar nenhum.
Eu tinha voltado à minha Nova York para ver uns amigos. Naquela mesma noite voamos para Boston, a casa da minha mãe.
Na Main Street, o restaurante de sempre nos esperava: lagosta e linguine. Dois irmãos sicilianos, com um sotaque que misturava Palermo e Massachusetts. Parecia Era uma vez na América — só que desta vez era eu quem escrevia a trilha sonora, com as minhas próprias piadas.
Um dos dois pediu para me encontrar no dia seguinte, no fim da manhã. Não entendi o que ele queria. Encontrei-o no píer por volta do meio-dia. Ele me agarrou pelo braço: “Frega, qual é a sua relação com a MAGIA?”
“Depende. A editorial, eu sei explicar. A de vendas, eu sei inventar. O resto, não saberia dizer.”
“Não, não. Estou falando de bruxas e cartomantes. Os indianos da Índia foram os primeiros. Depois as santerías africanas. Todos combatendo o mal com rituais.”
Ele estava bem informado. Eu me fiz de bobo. Ele insistiu: “Quero levar você a uma amiga minha, para ela ler as cartas para você.”
“As cartas do tabelião eu deixei em casa. O pôquer eu larguei.”
Ele caiu na gargalhada: “Não essas cartas. Tarô.”
“Tarô não é uma variedade de laranja siciliana?”
“Não seja babaca, Frega. O mesmo filho da puta de sempre. Vamos.”
Vinte minutos a pé, quatro quarteirões. Chegamos.
Uma portuguesa de noventa e dois anos, charuto aceso. “Caramba, você veio. Faz tempo que estou esperando você. A Juliana e o amigo indiano dela estiveram aqui ontem de manhã. Estão furiosos. Metidos na confusão que você anda armando com esse maldito gillettenarrative.com. Você não pode ser comprado. Não pode ser vendido. Não pode ser gasto.”
Eu ria feito um louco. Parecia um sonho. Meu amigo me deu um beliscão: “Isto aqui não é Hollywood. É a Main Street.”
Ela começou a leitura. Mandou que eu não cruzasse as pernas. Que ficasse sério. A certa altura, chegou uma voz — um espírito, um eco do outro lado:
“Frega, é verdade o que você escreveu no volume 15 da saga Gillette?”
Caí na gargalhada. A quiromante, desanimada: “Aqui não é de magia que se precisa. Não é de tarô que se precisa. Só de orações.”
Bem-vindos. Ferdinando
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