A PRIMEIRA LÂMINA, MINHA GILLETTE · Edição brasileira · N.º 13
GILLETTE: UMA MAGIA DE INVERNO
Uma cidade quente do Mediterrâneo, dentro das fronteiras italianas, me hospedava havia sessenta e um anos: um corpo inquieto em busca da sua verdadeira dimensão e uma mente que já vivia na América.
A minha América. Aquela que me fazia chorar sempre que eu olhava a bandeira, acelerando meu coração de maneiras impossíveis. Aquela que um dia me hospedaria, esperando para me acolher nas profundezas da sua terra.
Foi nesse dia que recebi um telefonema da minha tia. Ela me disse que meus avós tinham morrido. Velhice.
Trezentos quilômetros nos separavam, mas nada nem ninguém poderia ter me detido. Entrei no carro e dirigi. Quatro horas depois, cheguei.
A casa estava fechada. Uma vizinha, assim que me viu, me cumprimentou e me convidou para entrar e tomar um café. Mas a minha hora não era aquela.
Eu sempre tive as chaves da casa. Um traço típico dos Frega: prevenir o problema é sempre melhor do que ter de achar a solução. Era assim que nós éramos.
Entrei. Ainda dava para sentir o cheiro da casa, dos quartos, dos armários, da cozinha e daquela lareira que tinha me feito companhia no inverno de 1977, quando eu tinha só doze anos. Tudo o que tinha ido embora já não estava lá. Mas as lembranças continuavam lá.
O instinto me puxou para o sótão.
Dois ratinhos me receberam. Nem um pouco assustados. Estavam ali como se estivessem me esperando, como se tivessem de me guiar até alguma coisa.
Eles me levaram até uma mala de papelão, fechada, coberta por uma grossa camada de poeira.
A curiosidade me fez abri-la. Os dois ratinhos pareciam satisfeitos, como se tivessem cumprido uma tarefa.
Dentro, encontrei um caderno.
Uma caligrafia única, toda em letras de forma, inconfundível. Era a do meu pai.
Uma história trazia uma data: 21 de fevereiro de 1955. Por coincidência, o dia exato do meu nascimento — só o ano era diferente. Ele tinha escrito aquelas linhas dez anos antes de eu vir ao mundo.
Ele escrevia a Deus.
Pedia uma família, uma esposa e filhos. E um em especial: um menino. Ia chamá-lo de Ferdinando, como o pai dele. Mas o pedido não parava aí.
Comecei a chorar intensamente. Tive medo de molhar o caderno, então mudei para o modo soluço-sem-lágrimas. Aquele que eu só usava na vida, na presença de mulheres — um dos meus jeitos de fazê-las se render, um dos meus jeitos de trapacear. Eu sou Frega.
A descrição de como ele queria o filho era detalhada. E, sem me alongar, no fim eu me encontrei. Quem eu sou.
E aquele foi um daqueles momentos em que me fiz uma única pergunta:
Quem era meu pai?
A genealogia fez o resto. Porque, junto com essa pergunta, com o meu sobrenome, com o que eu sou, as pessoas hoje perguntam sempre a mesma coisa:
Os Frega são de verdade, ou são trapaceiros? Um pouco das duas coisas. Nós somos os Frega.
Meu pai pediu um filho a Deus.
Deus atendeu ao pedido.
Mas a entrega saiu errada.
O modelo era americano.
Chegou à Itália.
Nando
