Gillette: meu Presidente

Gillette: My President — Past The Gillette Depression, chapter 05

ALÉM DA DEPRESSÃO GILLETTE · Edição brasileira ·  N.º 05

GILLETTE: MEU PRESIDENTE

Gillette Audio — Peppe — gillettenarrative.com


O Presidente não estava sentado. Estava afundando. Sem falar, sem olhar, sem comandar. Mal respirava. Um daqueles dias em que até os maiores homens parecem crianças deixadas no frio.

Eu o avistei de longe e arranjei um encontro galante — duas amigas. Elas chegaram ao lado dele, em silêncio. Sem maquiagem, sem provocação. Simplesmente presentes. Como se alguém as tivesse colocado ali para preencher um vazio que se recusava a ser preenchido.

Ele ergueu os olhos com o esforço de um homem que levanta uma pedra, olhou para mim e, com uma expressão grave, perguntou: Quem são elas, Nando? Sorri sem responder. Ele insistiu:

— “Nando… você acha… elas são prostitutas?”

A voz dele estava quebrada. Sem ironia, sem malícia. Só medo. O medo de ter se tornado um homem que precisa pagar alguém só para deixar de se sentir sozinho.

Ele nunca tinha pagado por uma mulher na vida — mas muitas vezes tinha esvaziado os bolsos por elas. Primeiro bolso: um maço grosso de notas para representar o poder. O resto: uns trocados, como quem diz, eu só gasto o que escolho gastar.

Cheguei mais perto, devagar, do jeito que a gente se aproxima de alguém parado à beira do abismo.

— “Não, Presidente. Elas não são prostitutas.”

Ele engoliu em seco, como quem espera um veredicto.

— “Então o que elas são?”

— “São substitutas, Presidente.”

Silêncio. De início ele não entendeu. Depois o sentido chegou.

— “Substitutas… de quê?”

— “De tudo aquilo que o senhor já não consegue sentir sozinho.”

As duas mulheres me observavam, mas não baixaram os olhos. Elas pegam — sempre — mas nunca pedem.
Não estavam ali para seduzir. Estavam presentes para preencher um buraco negro.

O Presidente inspirou, devagar. Uma lágrima — uma só — caiu sem fazer barulho.

— “Nando… eu estou caindo.”

— “Eu sei, Presidente. Mas não hoje.”

E por um segundo, naquele momento, ele voltou a ser ele mesmo. Não o cargo. Não o símbolo. O homem.

O homem de Meu Presidente.


Olá, Peppe

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