ALÉM DA DEPRESSÃO GILLETTE · Edição brasileira · N.º 03
GILLETTE: MINHA FILHA
Gillette Audio — Nando, o Escriba — gillettenarrative.com
Tínhamos acabado de nos sentar à mesa. Ela estava na minha frente. Minha mulher, sentada ao lado, perguntou por que eu a observava em silêncio, sem uma palavra.
Perguntou se havia um motivo, uma condição, alguma coisa que tivesse concentrado minha atenção daquele jeito.
Eu comia meu hot dog — a melhor coisa que eu poderia ter, mesmo na Itália — e meus olhos procuravam os dela. Giorgia. Minha filha. Tentando entender o que ela continha.
Ela era de fato uma parte de mim. Minhas imperfeições dentro de um corpo perfeito. Uma mente refinada. Uma mulher.
A certa altura ela se levantou para contestar uma coisa que eu tinha dito antes — quase para me corrigir, com aquele jeito dela, aquela personalidade — e tentou me dar uns tapinhas nos ombros. Do tipo que as mães dão nos filhos.
Mas eu era só o pai dela. E sorri, pensando que tinha ao meu lado outra mulher, depois da minha mãe, com a mesma missão: não me proteger, mas me controlar. Esse era o meu destino.
Eu me perguntei por quê. O que a minha alma era de verdade. Quem eu estava representando naquele momento. Eu me perguntei, sinceramente, quem diabos eu era.
A mesma pergunta que fazem as pessoas que me conhecem. As que me leem. E talvez um dia, de algum canto de Nova York, elas me vejam com um carrinho, doando hot dogs na rua — só pela alegria de ver as pessoas sorrirem. Como sempre foi, há 61 anos. Sem preço para ninguém.
Porque é isso que eu sou.
Nando
