Meu pai

A Saga Da Gillette Company · Edição Brasileira  ·  Nº 12

MEU PAI


Meu pai faleceu em abril de 2025.

Não se passou um único dia desde então sem que a presença dele me atravessasse a mente.

A morte tira um homem da sala.

Não o tira da conversa.

Quanto mais velho fico, mais descubro pedaços dele escondidos dentro de mim.

Gestos. Silêncios. Reações. Modos de olhar as pessoas.

As heranças que importam nunca são dinheiro.

É o reconhecimento.

Quando eu era jovem, ele me olhava e dizia que eu era capaz de coisas além do alcance dele.

Eu achava que ele estava me provocando.

Achava que os pais dizem essas coisas porque os pais são obrigados a acreditar no impossível a respeito dos filhos.

Agora eu entendo.

Ele não estava me elogiando.

Estava me emprestando uma confiança que eu ainda não havia conquistado.

Ele via estradas que eu não conseguia ver.

Portas que eu não sabia que existiam.

Possibilidades que eu passaria décadas tentando descobrir.

Éramos pai e filho.

Depois viramos amigos.

O tipo de amigos que falam honestamente sobre a vida, mulheres, vitórias, humilhações e sonhos.

Depois viramos colegas.

Conspiradores ligados pelo trabalho, pelo sangue e pela recusa teimosa de aceitar limites comuns.

Acima de tudo o mais, compartilhávamos um sobrenome.

Um sobrenome que agora sobrevive não porque está escrito em documentos, mas porque entrou na narrativa.

Entrou na memória.

Entrou na GilletteNarrative.

Às vezes tenho a sensação estranha de que ele ainda está observando.

Não como juiz.

Não como crítico.

Não como o homem que diz:

“Eu te avisei.”

Não.

Mais como um observador silencioso estudando um experimento que ajudou a criar.

Um filho que nunca seguiu o manual de instruções.

Um filho que repetidamente saiu do formato.

Um filho cuja vida produziu resultados que ninguém poderia razoavelmente ter previsto.

Sinto falta dele.

Do sorriso dele.

Das pausas dele.

Do silêncio dele.

Das decisões dele.

Daqueles pequenos quadros preservados na memória que nenhum arquivo consegue guardar e nenhuma tecnologia consegue recuperar.

Ele foi capitão do Exército Italiano aos vinte e sete anos.

Mas a patente nunca o explicou.

O que o tornava único era mais simples.

Ele era meu pai.

A parte silenciosa da minha existência enquanto o resto do mundo competia para fazer barulho.

E então, vou escrever para ele.

Para onde quer que ele esteja.

Espere por mim.

Mas ainda não.

Ainda há trabalho por terminar.

Ainda há mistérios por resolver.

Ainda há histórias que precisam ser escritas.

Um dia eu chegarei.

E quando eu chegar, vamos rir juntos.

Não do sucesso.

Não do fracasso.

Da absurdidade da jornada.

Porque a experiência vivida sabe contar histórias que a imaginação jamais igualará.

Adeus, papai.

Por ora.

Seu filho,


Ferdinando

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