A Saga da Comunidade · Edição Brasileira · Nº 18
Parte II · Limiar 7
A Memória É Um Lugar
Por muitos anos acreditei que a memória fosse um arquivo.
Um recipiente.
Uma espécie de armazém interior no qual conservar fatos, nomes, datas, rostos e episódios.
Era uma visão ordenada.
Racional.
Até tranquilizadora.
Depois o tempo me ensinou algo diferente.
A memória não conserva.
A memória habita.
Não é um arquivo.
É um lugar.
E como todo lugar possui quartos.
Corredores.
Portas.
Janelas.
Alguns são abertos com frequência.
Outros permanecem fechados por anos.
Até que algo, de repente, os reabre.
Pode ser um cheiro.
Uma rua.
Uma fotografia.
Uma palavra ouvida distraidamente.
De repente não estamos mais no presente.
Voltamos para outro lugar.
Não fisicamente.
Interiormente.
E é surpreendente como aqueles lugares continuam a existir.
Lembro momentos que pensava ter esquecido.
Cenas insignificantes.
Uma mesa.
Uma voz.
Uma porta entreaberta.
Um dia qualquer.
Por décadas permanecem silenciosos.
Depois emergem com uma precisão quase inquietante.
Como se tivessem ficado à espera.
E talvez seja exatamente assim.
Talvez a memória não esqueça de verdade.
Talvez selecione.
Conserve.
Aguarde.
Vivi tempo suficiente para ver pessoas desaparecerem.
Lugares se transformarem.
Cidades mudarem de rosto.
Mundos inteiros se dissolverem.
E no entanto algo permanecia.
A memória.
Não como nostalgia.
Como continuidade.
A nostalgia olha para trás.
A memória conecta.
É uma diferença importante.
Por anos observei pessoas aprisionadas pelo passado.
E outras iluminadas pelo passado.
As primeiras tentavam voltar.
As segundas utilizavam o que tinham vivido para compreender melhor o presente.
A memória pode fazer as duas coisas.
Pode tornar-se uma prisão.
Ou uma biblioteca.
Depende de como a utilizamos.
Com o passar do tempo comecei a preferir a segunda possibilidade.
Não queria viver no passado.
Queria dialogar com ele.
Porque toda experiência deixa um rastro.
Todo encontro deixa um rastro.
Todo amor.
Todo erro.
Toda partida.
Toda perda.
Todo sucesso.
Tudo deixa algo.
E o que deixa continua a nos influenciar muito mais do que imaginamos.
Às vezes me perguntei quantas pessoas ainda vivem dentro de nós.
Não as presentes.
As ausentes.
Um pai.
Um professor.
Um amigo.
Uma pessoa amada.
Um colega.
Uma presença ocasional.
Muitos partiram há anos.
E no entanto continuam a falar através das decisões que tomamos.
Através dos valores que defendemos.
Através dos princípios que escolhemos não trair.
Nesse sentido a memória é povoada.
Nunca estamos sozinhos em seu interior.
Carregamos conosco comunidades invisíveis inteiras.
Durante minhas viagens visitei muitos lugares.
Alguns magníficos.
Alguns esquecíveis.
Alguns impossíveis de explicar.
Com o tempo descobri um fenômeno curioso.
A geografia real e a interior raramente coincidem.
Existem cidades nas quais vivi anos e das quais lembro pouco.
E existem lugares atravessados por poucos dias que continuam a viver dentro de mim.
Porque a memória não mede o tempo.
Mede o significado.
Conserva o que nos transformou.
Deixa esmaecer o que não deixou rastros profundos.
Por isso duas pessoas podem viver o mesmo evento e lembrá-lo de modos opostos.
Não conservam o fato.
Conservam o significado.
E o significado é sempre pessoal.
Com a idade aprendemos também outra lição.
A memória não é imóvel.
Muda junto conosco.
O mesmo episódio assume significados diferentes aos vinte, quarenta, sessenta ou oitenta anos.
O evento permanece idêntico.
O observador muda.
E mudar de observador significa mudar de interpretação.
Essa descoberta me ajudou a me reconciliar com muitas coisas.
Compreendi que não era obrigado a lembrar de tudo do mesmo modo.
Que podia conceder novas leituras a velhas experiências.
Que podia perdoar algumas coisas.
Compreender outras.
Aceitar outras ainda.
Porque a memória não é um tribunal.
É um diálogo.
Às vezes severo.
Às vezes doce.
Mas sempre aberto.
Existem pessoas que passam a vida tentando apagar o passado.
Não creio que seja possível.
E talvez nem sequer fosse desejável.
Porque o passado contém a matéria da qual somos feitos.
Apagá-lo significaria apagar nós mesmos.
Muito melhor compreendê-lo.
Muito melhor organizá-lo.
Muito melhor aprender a caminhar junto com ele.
Quando olho para trás hoje, não vejo uma sequência de anos.
Vejo lugares.
Lugares interiores.
Alguns luminosos.
Alguns difíceis.
Alguns ainda misteriosos.
Mas todos necessários.
Todos parte da mesma construção.
Talvez seja isto que o tempo tenta nos ensinar.
A memória não serve para voltar.
Serve para compreender.
Serve para dar continuidade ao que fomos.
Serve para impedir que a nossa história se transforme numa série de episódios desconexos.
No fim do caminho, restam as lembranças.
Mas não do modo superficial que muitas vezes imaginamos.
Restam como territórios.
Como paisagens interiores.
Como lugares aos quais voltamos toda vez que precisamos compreender quem somos.
Por isso, depois de tantos anos, não considero mais a memória uma função da mente.
Considero-a uma pátria.
Uma pátria sem fronteiras.
Sem bandeiras.
Sem endereço.
Um lugar que continua a me acompanhar aonde quer que eu vá.
Porque a memória não é algo que possuímos.
É o lugar no qual continuamos a viver, junto a tudo o que nos tornou o que somos.
A memória é um lugar.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️