O balanço Gillette

The Gillette Balance Sheet — Gillette Structure, chapter 13

GILLETTE, A ESTRUTURA · Edição brasileira  ·  N.º 13

O balanço Gillette


O balanço mais famoso é o do Estado, movido por uma única obsessão: manter o holofote fixo no mesmo ponto — as áreas frágeis.

A dívida pública continua sempre na pole position, como se fosse um paciente destinado a viver para sempre. Não morre nunca. Está condenada à eternidade.

Toda vez que alguém diz “Estamos em apuros”, vem o mesmo apelo: é hora de todo mundo mudar de marcha, trabalhar mais, ser mais responsável. Não dá para continuar assim. A frase obrigatória é sempre a mesma: precisamos tomar jeito.

Soa como um ato coletivo, nacional, de responsabilidade. Mas seu efeito se dissipa em minutos, como se não tivesse nada a ver com a gente.

E, mesmo assim, a palavra ecoa à nossa volta, carregando o peso de algo supostamente causado pelos outros, enquanto continuamos espectadores dentro de uma realidade em que podemos mudar de canal quando quisermos.

Depois há os balanços das organizações: instituições, associações, empresas. A finalidade pode variar, mas a pergunta final continua a mesma:

Fomos bem, ou poderíamos ter feito mais?

Raramente um gestor de verdade apresenta um balanço que destaque as perdas em detalhes nítidos e atribua a responsabilidade a cada indivíduo. Quando faltam respostas, a explicação passa a ser os fatores externos, como se o culpado fossem uns misteriosos ventos contrários que ninguém esperava e ninguém consegue identificar.

E, por fim, há o balanço da família.

Então, um dia, você começa a contar os próprios anos. As notas de falecimento lembram que as pessoas morrem, e que a idade nada mais é do que uma data colocada em algum ponto de uma vida.

É aí que chega o seu balanço pessoal.

Aquele em que só você responde por como gastou o seu tempo—e só você sabe de verdade qual foi o retorno desse investimento.

Sem me aventurar pela psicologia nem pela filosofia—não sou médico nem professor—, gostaria de compartilhar o meu último balanço:

Meu balanço como escritor

Os números falam por si. Dispensam comentários.

E depois há as pessoas.

Leitores chegando naturalmente, um após o outro, sem publicidade, sem campanhas, sem estratégias.

O que mais poderia ter sido feito?

Provavelmente nada.

Não porque a viagem tenha acabado, mas porque tudo aconteceu naturalmente.

E quando a natureza cria, o mundo preserva.


Ferdinando

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