02 · O professor Malandrino

A Saga do Forasteiro · Edição Brasileira  ·  Nº 2

O professor Malandrino


No dia seguinte, eu tinha uma reunião para alugar um apartamento. A cidade de Lisboa era fantástica, mas pouco acessível diante do custo dos aluguéis, e acabei forçado a parar na última fronteira da capital, os arredores históricos: AMADORA BORDEA.

A região era típica porque abrigava a pátria da comunidade estrangeira portuguesa, mas não apenas cidadãos de Portugal — também alguns infiltrados, como eu.

Pai e filho chegaram para me receber, mas, quando pus os pés dentro de casa, mostraram-me uma cama de beliche dividida com outras três pessoas, num quarto de nove metros quadrados, num apartamento de três quartos, nove pessoas, um banheiro, uma cozinha pequena, três geladeiras e baratas como hóspedes residentes — tudo dentro de cerca de sessenta metros quadrados, por duzentos e trinta euros por mês.

Sobravam-me exatamente setenta euros por mês para comer e viver, mas compreendi outra coisa: eu estava passando por um curso de como os pobres precisam aprender a administrar a riqueza — e ninguém ensina isso.

Um a um, os rapazes se aproximaram para se apresentar, dizendo seu nome e seu país de origem, observando-me para descobrir como eu me comportaria e se eu era racista.

Ofereci a todos um sorriso e uma saudação em sua própria língua: ANGOLA, MOGADÍSCIO, SÃO TOMÉ, BRASIL, PORTUGAL, CHINA, RÚSSIA e ARÁBIA SAUDITA.

Naquela noite eles me convidaram para o jantar — tinham preparado a ocasião para me dar as boas-vindas. Eu era o mais velho do grupo e, depois de vinte minutos conversando timidamente com todos, minha nova identidade portuguesa nasceu no instante em que me ouvi chamado: O Professor Malandrino Eram todos rapazes jovens que haviam deixado para trás mães, esposas ou namoradas, longe de casa e das pessoas que amavam, e decidi contar-lhes uma história verdadeira, vivida na pele — em troca, obteria de cada um uma reação que me ajudaria a medir seu caráter e sua personalidade.

Nenhum deles conhecia meu método.

Contei-lhes que em 2021 eu me permitira umas férias no Brasil, na cidade de Natal — um lugar conhecido por suas dunas e por seus rituais locais —, onde, quando o dia se transformava em noite, as moças no alto da duna desciam de costas, abrindo caminho em direção a cada homem que esperava impávido lá embaixo, para travar conhecimento e construir novas relações, talvez até um futuro para si mesmas.

Fiquei naquela cidade por quarenta dias — foi realmente minha quarentena brasileira —, mas nunca participei do jogo. Permaneci espectador, e observei.

Hoje penso, mais do que nunca, o quanto de fato me serviu conhecer o Brasil — mesmo com a chegada inesperada da CEO da Gillette — e, se um dia ela me perguntasse sobre sua terra natal, eu poderia lhe dizer: O RITUAL DAS DUNAS, EU O CONHEÇO, MAS NUNCA PARTICIPEI, PORQUE NÃO OFEREÇO A NINGUÉM UM FUTURO, APENAS O PRESENTE.

O que mais me impressionou naquela cidade foi a história com a filha do reitor, que conheci por acaso numa noite de segunda-feira, numa festa de solteiros.

Cheguei com cem cartõezinhos de papel que eu havia preparado, com meu nome e um número de telefone brasileiro, que troquei com as mulheres do lugar — as que me agradavam e que se diziam solteiras, divorciadas ou viúvas. No dia seguinte encontrei quatro delas no supermercado fazendo compras com maridos e filhos, e não houve palavras trocadas, apenas olhares silenciosos.

Camilla, a filha do reitor, era uma mulher linda e avassaladora. Foi ela quem me levou para casa às duas da tarde e me fez sair às dez da noite, e foi ali que compreendi que minha colega de andar de cima quisera me punir — fazer-me entender que uma mulher pode derrotar mil homens, mas mil homens não conseguem derrotar uma mulher.

Sem entrar em detalhes, levei-a logo em seguida para jantar num restaurante italiano e pedi duas garrafas de vinho branco e catorze lagostas só para ela. O garçom brasileiro perguntou se eu queria alguma bruschetta, mas o cansaço — ou minha audição traiçoeira — fez-me perceber a palavra como “bussetta”, e eu já estava exausto e pronto para fugir.

Todos os rapazes da sala riam, com ar hipnotizado — ainda estavam presos à versão de doze páginas da Amazon sobre como o amor é vendido. Como eu poderia continuar sem arriscar que explodissem?

Encerrei a conversa e fui dormir.

Na manhã seguinte, todos pela casa diziam “bussetta brasileira” e “bussettero”, que no espanhol colombiano significa motorista de ônibus — mas o jogo de palavras fazia todos sorrirem de qualquer forma.

Parti no dia 22 de novembro de 2025, e todos lamentaram me ver ir embora — até as baratas que dormiam comigo na minha cama tiveram um momento de tristeza, porque é só nesse instante, quando você foi feliz com alguém e essa pessoa parte, que se compreende o que nunca mais se terá.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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