A CLÍNICA

A SAGA DO PACIENTE · Edição Brasileira  ·  Nº 05

A CLÍNICA


Lembro-me de minha mãe contando como, nos anos 1960, quando estava prestes a me dar à luz, as clínicas eram poucas e o hospital era para os doentes; por isso ela escolheu o melhor lugar que pôde para fazê-lo: a própria casa, a própria cama.

Assim que nasci, havia uma mulher, aquela a quem chamavam de parteira, e ela disse à minha mãe que eu tinha saído bem — e que, se minha mãe não me quisesse, ela me levaria para casa consigo.

Minha mãe a fulminou com um olhar. Mas talvez a parteira não soubesse que eu jamais pertenceria a uma só mulher, e sim a todas as mulheres que viria a conhecer; e vinte anos depois fui à casa dela. Sou um homem de palavra. Não podia desapontá-la.

Esta abertura não é ironia literária, nem piada. Significa apenas uma coisa: a clínica, enquanto lugar, é nova. Não nos vem dos egípcios, nem dos assírios ou dos babilônios. É apenas o produto de um sistema de saúde que fez da patologia um comércio e dos seus remédios uma marca.

Nunca pretendeu substituir os hospitais, que continuam sendo uma instituição; e no entanto sempre levou o paciente a crer que, pagando, poderia ter mais — o melhor.

Alguns lugares cumprem uma função. Outros se tornam uma possibilidade.

Foi o dia em que se inaugurou a clínica na minha cidade: a primeira do gênero capaz de oferecer uma lista completa, apta a cobrir toda a medicina, ao menos a básica — a medicina das pessoas comuns, por assim dizer.

Foram nomeados três médicos-chefes, aqueles que iriam construir a estrutura médica. Depois de conduzir as entrevistas para contratar os médicos, fecharam-se numa sala para trocar suas opiniões sobre como fazer a seleção.

O que se segue relato não como verdade, mas como noir — contado a mim por um grupo de médicos amigos recém-aposentados do sistema de saúde italiano, que costumavam contá-lo a nós, os da área de vendas, para nos fazer rir, e para nos dar a saber que também eles tinham suas histórias.

Uma história que eu pessoalmente considero uma história de pátio, uma dessas piadas amargas que os próprios médicos costumavam contar sobre outros médicos — uma raça estranha e peculiar, a quem eu não confiaria mais nem os cuidados com o meu gato.

Ponho-a por escrito não como um veredito, mas como retrato de quanta desconfiança as pessoas comuns já haviam acumulado contra uma medicina que já não sentiam como sua.

Contava-se assim. O mais velho dos três — homem que também havia trabalhado sob o antigo regime — disse que explicaria como escolher os novos médicos, pelo que chamava de princípio do número três.

Se você encontrar um médico que entende muito, mande-o para a clínica geral: ali, com a experiência, ele responderá sozinho à maior parte das perguntas.

Se você encontrar os medianos, capazes mas não brilhantes, ponha-os nas salas de cirurgia: assim, quando abrem, veem o que encontram e aprendem a consertar.

E os que entendem pouco, ou que chegam recomendados pelos partidos e pelas listas de colocação, dê-lhes as tarefas em que — assim dizia a piada cruel — se deixa a natureza fazer quase todo o trabalho em seu lugar.

Essa era a versão de pátio, é claro. E como toda história de pátio, ela diz menos sobre os médicos do que sobre os que a contavam: sobre a pouca fé que ainda lhes restava.

E assim nasceu a clínica. A sua verdadeira experiência foi feita pelos pacientes; e só os vivos falaram dela — os que tinham sido afortunados, não os tocados pela desgraça. E quando tudo virou para pior, a clínica do Norte — de qualquer nação — ficou com a melhor parte: porque o Norte sempre evocou riqueza e indústria, e ali pagar pelo cuidado dá a impressão de que ele é melhor.

Depois fecharam-se os manicômios judiciários, e nasceram as clínicas psiquiátricas — mais tarde reconvertidas para as condições neurológicas. Já não se tratavam apenas os loucos declarados, mas também outras patologias.


Ferdinando
Gillette Man ⚔️

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