A SAGA DO PACIENTE · Edição Brasileira · Nº 06
O QUE RESTA
Eu estava na sala de recreação, aquela aberta aos pacientes para o descanso da tarde, o cigarro, a conversa — e a nós, acompanhantes, à espera de levar os nossos doentes de volta para casa.
Não estava inquieto, mas estava atento: a como uma pessoa se torna frágil dentro da doença, muitas vezes incapacitante e sem saída, uma doença que não olha a idade de ninguém.
Havia cinco homens e uma mulher, todos sentados em cadeiras de rodas. Voltaram- se para mim e começaram a perguntar quantos anos eu tinha, que trabalho fazia, do que me ocupava, qual era a minha vocação; e por fim quiseram saber o que eu pensava sobre certas questões de política e de religião, e sobre algumas figuras públicas.
Os olhos deles estavam apagados, os olhos de quem apenas espera ver a luz se apagar. E, em vez disso, eu, essa luz, voltei a acendê-la.
É o meu jeito de estar com as pessoas: fazê-las sorrir. Não sou ator, nem bobo da clínica — apenas um homem como muitos, mas não tão comum quanto o pão.
Então me pediram uma história. E aqui devo ser honesto com o leitor: a que contei não era uma piada polida, e eu não a teria contado em nenhum outro lugar. Mas ali, naquela sala, a permissão de rir do que a vida lhes tinha tirado cabia a eles dar, a si mesmos. E foram eles que me pediram. Por isso a relato tal como foi, porque limpá- la por inteiro seria traí-los.
Deixem-me contar — eu disse — sobre um homem numa cadeira de rodas, sem braços e sem pernas, que um dia respondeu a um anúncio num site de encontros.
E se alguém não sorrir, acrescentei, não é culpa minha: só quererá dizer que hoje não é o dia dele.
Uma mulher muito rica, já de idade avançada — uns oitenta anos —, ajudada pela sobrinha de quarenta e cinco anos, procurava um marido. Mas, depois de tudo o que a vida lhe tinha ensinado, tinha ideias claras sobre o tipo de homem que queria: um que nunca levantasse as mãos, um que ficasse em casa e — digamos assim — um homem de proporções generosas.
Bateram à porta. Ela encontrou diante de si aquele homem numa cadeira de rodas, sem braços e sem pernas, mas jovem e bonito, que vinha candidatar-se ao anúncio.
Ela o entrevistou.
Queria um homem que nunca levantasse as mãos: e ele não tinha braços. Primeiro ponto a seu favor.
Queria-o caseiro, quieto: e ele estava sem pernas, na sua cadeira. Segundo ponto a seu favor.
E por fim disse-lhe que o queria bem dotado. E ele, com toda a seriedade, respondeu: “Senhora… e com o quê acha que bati à porta?”
Nesse ponto os cinco homens caíram na gargalhada e não conseguiam parar. Mas a mulher permaneceu séria, impassível. E toda a minha atenção se voltou para ela.
Para ela eu não tinha uma segunda versão, não tinha preparado nada. Mas tive um lampejo de inspiração: disse-lhe que, se ela quisesse, lhe daria o número de telefone daquele candidato. Os olhos dela se iluminaram, ela sorriu e disse: sim, sim.
Eu tinha conquistado um sorriso dela. Tinha alcançado o meu objetivo. Era tudo o que restava daquele momento — e era o bastante.
Quando saí da instituição, todos me perguntaram quando eu voltaria, e se eu tinha outras histórias.
Ferdinando
Gillette Man ⚔️