O PELO ENTRE A L’ORÉAL E A GILLETTE
THE SYSTEM · 11
O pelo é um detalhe que as pessoas fingem entender.
Chamam-no de higiene, estética, identidade, cultura, ritual.
Na realidade, é apenas uma fronteira — entre o que você mostra e o que você esconde.
Uns o confiam aos barbeiros, outros às esteticistas, outros a máquinas modernas que prometem autonomia e perfeição. Mas o pelo continua ali, teimoso, um lembrete biológico: você é um animal antes de ser um ser social.
E, no entanto, não é um inimigo. É um amigo incômodo, um companheiro de viagem que faz você lembrar de onde vem. Tem uma distribuição quase capilar, uma cor atribuída pelo seu mapa genético e uma história que você não pode apagar. Nem mesmo quem sofre de alopecia está sem ele — apenas o perdeu por um tempo que ninguém sabe definir.
Mas, para entender o pelo, você precisa voltar à origem — aonde sempre se volta: o ser humano primitivo.
Eu imagino assim, numa cena noir pré-histórica. Duas figuras conversam atrás de uma parede de capim. Chega uma terceira pessoa e não consegue distinguir quem é o homem e quem é a mulher. O rosto não basta. O rosto engana.
Então a mulher decide mudar o destino da própria identidade.
Vai até o rio, olha-se na água e vê uma barba.
Não gosta dela. Não a representa. Não a distingue.
Encontra uma pedra afiada e começa a tirar os pelos, um fio de cada vez.
Descobre que o pelo demora a crescer de novo — e isso lhe dá uma vantagem: não precisa repetir o ritual todos os dias. E descobre algo ainda mais poderoso: o homem a olha de outro jeito.
A diferença se torna atração.
A diferença se torna linguagem.
Daí nasce toda a cultura do pelo: primeiro simbólica, depois social, depois higiênica, depois científica, depois ideológica.
Até chegar aos extremismos modernos: quem diz que o pelo protege você das bactérias e deve ser mantido; quem diz que deve ser removido para ser aceito; quem diz que deve ser modelado para ser desejado.
A verdade é mais simples: o pelo nasce, cresce, se curva… e no ponto em que se curva, morre.
Mas a raiz continua viva, teimosa, como certas ideias que você não consegue arrancar nem com força de vontade.
E depois há a regra final, aquela que só os contadores de histórias conhecem:
nunca transforme um pelo revolto em revolta.
A diferença é mínima — apenas uma vogal.
Mas muda tudo.
Ferdinando
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