A PRIMEIRA LÂMINA, MINHA GILLETTE · Edição brasileira · N.º 12
GILLETTE: MÃE
Quando eu era criança, toda vez que você contava a alguém sobre o meu nascimento, começava sempre pela mesma pergunta que fez ao ouvir meu primeiro choro: “Ele é perfeito?” E durante anos eu achei que as crianças vinham ao mundo em pedaços, como brinquedos de montar. As pessoas riam quando eu dizia isso. Depois todos crescemos e descobrimos que era verdade.
Primeiro vem um corpo que cresce. Depois uma força que evolui. Depois um cérebro que nos lembra quem são nossos pais.
Você e eu… fomos conflito desde o começo. Levei cinco anos para entender que estaríamos sempre divididos. Você achava que éramos iguais. Mas metade de mim não era você — era meu pai.
Eu não amei você porque você nunca me ensinou como o amor funciona. Não odiei você porque meu DNA não trazia esse código. Mas carreguei a sua raiva por sessenta anos e, alguns meses atrás, eu a devolvi a você sobre o seu túmulo.
Hoje é Dia das Mães. Um dia que o mundo usa para dizer “obrigado” por mil coisas. Mas gratidão é só uma palavra — o resto são fatos.
Por isso, eu celebro você de longe. Sem ressentimento. Sem necessidade de perdão. Porque finalmente entendi uma coisa: o que você não me deu, você não tinha — e não sabia onde encontrar. Seus pais nunca lhe passaram a tocha.
Deixo você com isto, de onde quer que esteja me lendo: a lembrança de todas as vezes em que fiz você sorrir. Porque você sempre acreditou que eu era alguém inesperado. Mas eu não era. Eu era só o seu menininho.
Adeus, mãe.
Nando
