ALÉM DA DEPRESSÃO GILLETTE · Edição brasileira · N.º 02
GILLETTE: O CASAMENTO
Gillette Audio — Nando, o Escriba — gillettenarrative.com
Nunca fui feito para formatos. Nem ao nascer, nem aos 61. Meus pensamentos sempre marcharam em linha reta rumo à ação, e as palavras que ficaram para trás só sobreviveram como ecos — um tom, um gesto, um silêncio que dizia mais do que a frase.
E tudo começou quando observei os casais do início do século XX. Casamentos sólidos, vidas longas e traições administradas com a filosofia mais antiga já inventada: se o coração não vê, o olho não dói. Naquele tempo, trair era um investimento familiar. Os filhos eram o subproduto, o trabalho era o destino, e o casamento era a única despesa de verdade — os envelopes pagavam a festa, o resto ficava por conta do casal. Dizem que era porque não existia TV. Nem talk shows. Nem distrações. Só comida, intimidade e a verdade primitiva de ser humano.
E então, o que eu fiz? Comecei a me casar. Em todo lugar.
Polônia, 1985. A fase pré-nupcial era uma obra-prima: ela dava tudo a você, os parentes o adoravam, e todo mundo sorria porque sabia que, depois da cerimônia… você estaria por conta própria pelos 50 anos seguintes.
E como fui criado durante oito anos num internato católico, eu insistia em duas fases: primeiro o ritual espiritual, depois a papelada legal. Bem depois. Tarde demais. Na verdade… nunca.
Entre 1985 e 1992, o mundo acreditou que eu tinha me casado quase três vezes. Os rituais eram perfeitos. A parte legal? Eu estava sempre “indisponível”.
Então a vida fez o que a vida sempre faz: me mandou uma mulher que morava a cem metros da minha casa. Ela quebrou o sistema. Casou comigo convencida de que a ideia tinha sido minha. Deixei que acreditasse. Porque perder para ela me pareceu a única vitória de verdade. Resultado: três filhos, trinta e três anos de casamento.
Mas a história não termina aí. Entre 1995 e 2015, colecionei mais onze casamentos simbólicos pelo mundo. Mesmo ritual, mesma magia, mesma fuga. As pessoas não acreditavam em mim. Ainda não acreditam.
E um dia entendi uma coisa simples: eu não podia me casar com todas as mulheres da Terra. Não podia ficar com todas. Mas podia ficar com os momentos. Um de cada vez. Porque as mulheres — todas elas — sempre foram superiores a nós, homens.
E eu continuo aqui, ainda tentando conquistá-las, um momento de cada vez. Porque esse é o único casamento em que eu acreditei de verdade.
Nando
