GILLETTE, A SAGA DO PACIENTE · Edição brasileira · N.º 12
O atlas Gillette de uma lâmina
1º DE ABRIL DE 2058
Eu tinha entrado no último mês da minha vida, um prazo que já não podia ser adiado.
Noventa e três anos, e eu sempre tinha achado que era um pescador.
No fim das contas, eu não tinha entendido porra nenhuma.
Alguém tinha me retratado numa fotografia: barco de madeira, vara de pescar na mão, o Vesúvio atrás de mim.
Como se eu fosse o homem que tinha aprendido onde lançar o anzol. O homem que sabe.
Depois olhei a imagem com mais atenção.
O peixe que eu pesquei não se mexe. Não está lutando por ar.
Está lendo. Está lendo a GILLETTENARRATIVE. Em inglês, em espanhol, em chinês, em amárico, em urdu, em árabe.
Eu pesquei o peixe. O peixe está me estudando.
Durante anos acreditei que evolução fosse falar mais línguas, ter mais mapas, mais edições.
Vinte e duas edições. Cinco com muitos volumes. Dezessete sem nem contá-los. Mas quanta coisa eu escrevi, porra?
Depois entendi que evolução não é quanta água você atravessou. É se, pendurado num anzol, você ainda tem lucidez para ler.
O primeiro de abril não é uma peça que você prega nos outros. É a peça que a vida prega em você quando você acha que é o pescador e descobre que é o peixe.
E, se tiver sorte, nesse dia você também aprende a ler.
Eu aprendi naquele dia. Mas já estava no fim, e uma linha de chegada não deixa memória. Só a possibilidade de ser inesquecível.
Ferdinando
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