Edição em português · VATICAN SAGA · + 1 VERDADE
A verdade e o recibo
Esta é a verdade.
Não uma verdade de terno e gravata, daquelas que chegam à televisão acompanhadas de música grave. A minha é uma verdade de sapatos gastos, fôlego curto e uma carta apertada na mão. Uma verdade que caminhou por ruas normais, dentro de envelopes normais, entre carimbos, endereços e guichês fechados.
A carta foi entregue ao Papa.
E aqui não é preciso acrescentar mais nada, a não ser a prova. O comprovante de entrega está ali, silencioso e preciso, como ficam as coisas que não precisam gritar. Diz que a carta chegou. Diz que alguém a recebeu. Diz que, a partir daquele momento, ninguém pode mais fingir que ela nunca foi enviada.
O recibo não é apenas um pedaço de papel. É uma pequena sentença contra a indiferença. É o documento que separa a dúvida da realidade. Antes havia uma carta. Depois há uma carta que chegou ao seu destino.
É por isso que o mostro ao mundo.
Não por vaidade. Não para fazer barulho. Não para transformar um gesto em medalha. Mostro porque certas verdades, se ficarem trancadas numa gaveta, tornam-se quase mentiras. E não quero que esta história seja contada por outros, deformada, reduzida a um boato de passagem ou a uma esquisitice a esquecer.
A carta partiu de mim, mas já não pertence só a mim. Atravessou a distância, alcançou o destinatário e deixou um rastro. Um rastro concreto, verificável, impossível de apagar com um dar de ombros.
Que o mundo saiba, portanto, que eu escrevi.
Que o mundo saiba que a carta foi entregue.
Que o mundo saiba que, às vezes, a verdade não chega com fanfarras. Chega dentro de um envelope. Bate devagar. É registrada por um recibo. E depois permanece ali, diante dos olhos de todos, esperando que alguém tenha a coragem de lê-la.
Esta é a minha notificação ao mundo: a carta ao Papa foi entregue. E com ela chegou também a responsabilidade de não fingir que nada aconteceu.
O recibo fala pouco.
Mas diz tudo.
Ferdinando