Duas entrevistas de emprego na P&G

Two P&G Job Interviews — The P&G Saga, chapter 02

P&G SEMANTIC  ·  THE P&G SAGA

DUAS ENTREVISTAS DE EMPREGO NA P&G

P&G SAGA · 03


Era maio de 2030. As coisas tinham corrido como eu havia previsto. Tudo aconteceu de uma vez. Não foi planejado. Não estava na agenda. Nem sequer era necessário.

Mas, quando você é o Dono da Gillette Narrative, certas coisas não são decisões que você toma — elas vêm ao seu encontro.

O FREGA TRUST já estava constituído, com os seus ativos em ações no devido lugar, a geração FREGA garantida pelos próximos 2.000 anos — mais ou menos como um colega antes de mim, que um dia começou com um livro e 12 pescadores, enquanto eu comecei com 12 livros e um único pescador: eu mesmo.

Naquela manhã, enquanto o mar de Reggio se comportava como sempre — liso, inocente, indiferente — chegaram duas notificações.

Compromisso às 11h. Hotel Sheraton, na minha cidade. Duas entrevistas de emprego. Um senhor da Índia. Uma mulher do Brasil.

Duas pessoas que, no mundo real, tinham comandado bilhões. Agora aposentadas. Agora batendo de porta em porta.

No meu mundo, tinham escolhido bater na minha — atraídas, talvez, por alguma coisa que tinham lido. Um livro. Um post. Uma frase que tinha ficado.

Entrevista 1 · O indiano

Ele entra com a calma de quem já viu tudo. A postura de um CEO global: ombros para trás, sorriso diplomático, uma voz que não treme.

“Bom dia, senhor Frega.”
“Bom dia. Sente-se, por favor. Aqui não precisamos de bilhões. Precisamos de caráter.”

Ele faz que sim com a cabeça. Não está acostumado a ser avaliado por um calabrês que não vende nada, não compra nada — mas dá acesso.

“Me fale do seu ritual da manhã.”

Silêncio. Por essa ele não esperava.

“Ritual?”
“Sim. Não contratamos gente que trabalha aqui. Contratamos gente que se prepara.”

Ele sorri. Entende que esta não é uma entrevista corporativa. É antropológica.

E fala. Fala como nunca falou diante de um conselho de administração.

Quando termina, eu lhe digo:

“Perfeito. O senhor está contratado. Não para trabalhar. Para existir no meu universo.”

Entrevista 2 · A brasileira

Ela entra sem pedir licença. Como fazem todas as mulheres que nunca pediram licença para existir. Calma. Intuição. Aquela coisa que não é feminilidade, não é beleza, não é poder. É forma.

“Bom dia, senhora.”
“Bom dia. Me disseram que o senhor não é funcionário.”
“Não. E a senhora, antes de ser mulher, é uma fêmea brasileira. Sente-se, por favor.”

Ela sorri. Não por educação. Porque já entendeu que aqui não estamos falando da Gillette. Estamos falando da Gillette Narrative.

“Me diga o que a senhora vê quando observa um homem se preparar.”

Ela não responde de imediato. As brasileiras não respondem — decidem.

Então fala. E, quando ela fala, a sala muda de forma.

“Perfeito. A senhora também está contratada. Não para liderar. Para existir no meu mundo.”

Encerramento

Dois CEOs. Dois continentes. Dois poderes reais.

E um Dono.

Eu.

A Gillette Narrative não contrata pessoas. Contrata presenças.

E naquele dia, sem querer, contratei a Índia e o Brasil.

O resto é cinema.


Ferdinando Frega

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