GILLETTE & L’ORÉAL, WOMEN USA — VOL. III
L’ORÉAL · 08

Kentucky, Louisiana, Maine, Maryland, Massachusetts, Michigan, Minnesota, Mississippi. A terceira etapa da travessia americana, do vale do Ohio até o delta.
Capítulo Zero — abertura comum
Este capítulo de abertura é comum aos seis volumes de Mulheres dos Estados Unidos. Está reproduzido aqui na íntegra, e recolhido para que a série possa ser lida em sequência sem repetições.
CAPÍTULO ZERO
Aqui, o mundo não é um território: é um limite. O Polo Norte não acolhe, não perdoa, não deixa margem para o erro. O branco reina como uma entidade absoluta, silenciosa e sem memória. A temperatura não é um dado meteorológico: é um predador. A noite dura meses, esmaga os pensamentos, distorce os contornos das pessoas, engole a vontade delas.
As comunidades são poucas, pequenas e fechadas. Inuítes, yupiks, povos árticos vivem onde ninguém escolheria ficar. Aqui, cada indivíduo é essencial para a sobrevivência do grupo. Se você não é útil, vira um fardo. E quem vira fardo desaparece no silêncio, na neve, na lógica de um ambiente que não faz concessões.
As bases científicas acrescentam outro tipo de frio: o das hierarquias. Aqui, uma mulher é uma presença rara, uma anomalia que precisa se adaptar ou sucumbir.
Neste lugar, o conceito de “desaparecimento” não existe. Existe só o branco que apaga tudo.
Mulheres inuítes e yupiks
A menina ártica não é mimada: é preparada. Aprende cedo a resistir ao frio, à escuridão e à fome. Precisa se tornar útil para o clã, porque aqui a identidade não é pessoal. É funcional. A mulher carrega o peso da família e da comunidade: comida, fogo, filhos, peles, cuidados. Ninguém fala de direitos. Ninguém fala de fragilidade. A depressão existe, mas não tem nome. A violência existe, mas não tem testemunhas.
A mulher das bases científicas
Instruída, competente, acostumada à disciplina. Chega como pesquisadora, técnica e médica. Descobre logo que o Polo Norte não reconhece diplomas. Aqui, só conta a dureza mental. As hierarquias masculinas a dominam, e qualquer sinal de fraqueza é interpretado como fraqueza. É um ambiente onde a força não basta: exige-se um autocontrole extremo.
A mulher ocidental “de fora”
Criada em liberdade, chega achando que pode vencer o frio. Mas o lugar a quebra: solidão, espaços minúsculos, silêncios sem fim. As bases não são comunidades, são mecanismos. E uma mulher, dentro de um mecanismo projetado por homens, precisa lutar para não desaparecer.
A viagem até o fim do mundo
Meu vizinho, Antonio, conhecido como Nino, falava havia anos do Cabo Norte, do sol da meia-noite, dos meses sem escuridão. Era um sonho que ele guardava no bolso, como uma coisa impossível. Numa manhã de maio, toquei a campainha dele e disse só isto: “Faça a mala. Volto daqui a uma hora. Estaremos de volta em 30 dias.” Ele me olhou, surpreso, feliz. A mulher dele, preocupada, perguntou quais eram os nossos planos. “Correr atrás de um sonho”, respondi.
Entramos no carro. Nossas mulheres nos olhavam como se fôssemos loucos. Mas esta viagem era real. Nino já estava cheio de perguntas. “Para onde vamos? Quanto dinheiro devo levar?” “Relaxe”, eu lhe disse. “Chegamos em 54 horas. Só 5.000 km. Estamos no Range Rover novo. Aproveite a viagem.”
A cada 300 km eu tinha que parar: ele, doze anos mais velho que eu, tinha o seu próprio ritmo. Eu tinha água e líquidos; ele tinha café e necessidades físicas. E quanto mais avançávamos, mais ele falava da sua vida. Coisas que eu nunca teria sabido se não fosse aquela estrada sem fim.
Dois homens sozinhos num carro falando sempre de mulheres. Ele só tinha conhecido a esposa. Eu ri. Eu o tranquilizei: “Nós somos do mesmo jeito.”
Ele me perguntou como eu conseguia continuar lúcido dirigindo 60 horas. Contei a ele sobre a Rússia, quando aos 22 anos dirigi 51 horas para encontrar uma mulher que eu nunca tinha visto. “As distâncias não são limites”, eu lhe disse, “são desculpas. Eu nunca tive nenhuma.”
A chegada ao branco
Entramos na Noruega. Um albergue na estrada. Deixaríamos o carro ali e seguiríamos de trenó.
A guia estava toda coberta, impenetrável. Quando tirou os óculos, descobri que era uma mulher. Uma norueguesa, calada, direta, glacial. Nino no meio do trenó, ela na frente, eu com meus 190 cm atrás, fechando a fila.
Ainda era dia. O relógio marcava a hora, mas não me dizia se era noite ou manhã. Era o sol da meia-noite. Tínhamos chegado ao Cabo Norte.
Nino chorou. Me abraçou. Eu lhe disse, rindo: “Cuidado… o pessoal pode achar que somos gays.” Rimos, mas estávamos no fim do mundo.
Depois veio o gelo: –52 °C.
A entrada no verdadeiro Ártico
Nos levaram a um contêiner de metal para trocar de roupa. Macacões pesadíssimos, acolchoados, fechados com zíperes complicados.
Paguei pela guia. Nino ficou num iglu com alguns homens; eu fiquei em outro com uma família: um velho, entre 70 e 80 anos, e três mulheres entre 30 e 50.
Era um mundo fechado. Simples. Brutal.
O homem ficava de lado. As mulheres davam o ritmo. E o banheiro era um morrinho a cinco metros do iglu: o cocô congelava antes de tocar o chão. Meu primeiro xixi virou uma estrela ártica amarela. Era o Norte me cumprimentando.
A mulher de meia-idade, Magi, falava um pouco de inglês. O resto eram gestos, olhos, mãos. A língua do frio.
Quando eu não sabia direito como usar o macacão, ela, sem pensar, tocou minha virilha para me mostrar um zíper escondido. Não havia malícia, nem constrangimento: só função. Sobrevivência.
Os três dias no iglu
Trouxeram comida. Peixe defumado, peixe cru, fígado de bacalhau, barriga de baleia. E bolinhas de tubarão. Não havia escolha. Não havia alternativa. Era o que a natureza oferece.
Depois bebi: um líquido vermelho. Achei que era vinho. Era sangue de baleia filtrado, fervido, adoçado. Bebi. Me deu uma força que eu nunca tinha sentido. Uma energia primordial. Achei que era cocaína. Não. Era o Norte entrando no corpo.
As mulheres me observavam. O velho saía para caçar. Eu descansava e bebia sangue. Três dias sem telefone, internet, computador, sem Nino. Só eu e elas.
Não havia noite. Só luz, fogo, gelo e respiração.
As três mulheres se deitaram para dormir. Procurei um lugar. A mais nova levantou o braço e me fez sinal para chegar mais perto. Elas caíram na risada. Eu não entendi. Disseram que eu era o “Natal” delas.
Um jeito de dizer que eu tinha sido aceito.
Tentei dar a elas algum dinheiro para agradecer. Recusaram. Só queriam um abraço. E algumas palavras em calabrês para se sentirem mais perto.
Ali entendi o valor dos verdadeiros presentes: os que não se compram nem se vendem.
A despedida da guia
Depois de três dias, a guia chegou. Falou com as três mulheres durante uma hora. Eu estava lá fora. Não entendia o que diziam. Não era da minha conta. Era a língua delas, o mundo delas, a lei delas.
No contêiner, enquanto eu me despia, a guia entrou. Curiosa. Direta. Nórdica. Me abraçou com força. Me beijou. A pele dela era branca como leite. Os olhos, azuis como o céu de agosto.
Ela me pediu que a levasse embora. Teria feito qualquer coisa para sair daquele mundo.
Sorri com respeito. Eu não podia. Não devia.
Deixei a ela só uma promessa: “Se precisar de alguma coisa, me escreva uma carta. Eu ajudo você.” Ela recusou até o dinheiro. Era uma mulher linda, mas sozinha. Uma solidão que não se vê de longe. Uma solidão que o frio não perdoa.
A volta para casa
Fomos buscar Nino. Ele estava radiante. Não queria voltar. Mas eu tinha um compromisso com a mulher dele.
Ele contou a todo mundo os seus três dias. Eu fiquei calado. Nunca compartilhei nada com o homem. Só com o papel.
E assim, enquanto Nino voltava para o seu mundo, eu já estava a caminho de outro. Outro destino. Outro encontro.
Bem-vindo.
Epílogo
O Norte não leva você: ele transforma você. E nunca
devolve você inteiro. Os homens vão ao Polo Norte em busca de luz, de silêncio, de fotografias, de sonhos. As mulheres ficam para sobreviver.
Os homens contam o que viram. As mulheres calam o que viveram.
Os homens voltam. As mulheres ficam. Ficam no frio, nas casas de neve, em silêncios que ninguém ouve. Ficam para sustentar comunidades que não as celebram. Ficam para proteger crianças, velhos, estranhos. Ficam invisíveis.
Trouxe de lá uma única lembrança: uma mulher linda, incrivelmente linda, mas sozinha. Não no sentido romântico. No sentido humano. No sentido trágico.
Reflexão
O Norte não mata o corpo. Mata a presença. E o que resta é o branco: um lugar onde as mulheres vivem e desaparecem ao mesmo tempo.
É por isso que escrevo. Porque os lugares extremos não contam a própria história. E quem os atravessa não pode se dar ao luxo de ficar calado.
Eu não. Eu não. Minha terra me deu à luz, e o resto do mundo me acolhe não como hóspede, mas como alguém da família.
Do branco absoluto do Norte, desci para a confusão absoluta dos Estados Unidos.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
A missão impossível
Trabalhar dezoito anos para uma empresa americana dá a você algo que nenhuma outra empresa no mundo consegue dar: uma cultura de trabalho, procedimentos, uma missão clara e um sistema de valores que não são teoria — são prática diária. Eles não explicam esses valores a você; eles os constroem em você. E fazem isso sem pedir a sua permissão.
Eu estava no escritório de Nova York quando me ofereceram um trabalho que eu nunca tinha imaginado. Não uma promoção. Não uma transferência. Um experimento.
Um programa confidencial, criado para validar um modelo de relações humanas dentro dos Estados Unidos. Não tinham escolhido gerentes, psicólogos nem instrutores. Tinham escolhido pessoas com um certo tipo de experiência real. E o meu nome apareceu — mesmo eu estando em vendas havia dezoito anos. Eles não olhavam o cargo: olhavam a mente.
O teste era simples de explicar e dificílimo de cumprir:
visitar os 50 estados americanos em um ano, escolhendo eu mesmo as cidades e ficando pelo menos uma semana em cada uma.
As duas últimas semanas seriam férias obrigatórias. Eles cobririam todas as despesas. Eu só tinha que viver, observar, entender e entregar um relatório toda segunda-feira. Um relato humano, seco, preciso.
Assinei o contrato. Avisei em casa. Não perguntaram nada. Só queriam saber se as provisões do mês tinham chegado. Eu estava prestes a enfrentar um ano na América. Elas, como sempre, estavam enfrentando o mês seguinte.
Por precaução, o meu salário era depositado direto na minha conta bancária na Itália. Era um jeito educado de me dizer: “Não faça besteira. Viva com o que você tem. Vamos ver quem você é de verdade.”
Só quinze anos depois tive acesso aos meus relatórios originais, às análises e ao material que tinham reunido sobre mim. Este livro nasceu daí. Obtive a autorização para publicá-lo, com uma condição: nunca dizer o nome da empresa que o encomendou.
Não importa. Esta história não é sobre logotipos. É sobre um homem num país impossível de entender a menos que você o viva na própria pele.
Começo pelo ponto mais distante?
A escolha lógica era começar pelas margens, não pelo centro. Por dois motivos simples:
1. Eu tinha acabado de sair do experimento: lucidez alta, atenção máxima.
2. Começando pelo extremo, eu podia corrigir a rota e terminar a viagem de forma limpa.
Eu não precisava começar por Boston ou Chicago. Precisava começar por uma fronteira. Por um lugar que só era América no papel.
Escolhi Juneau, a capital do Alaska. Isolada. Alcançável só de barco ou de avião. Uma cidade que não pertence a ninguém. O lugar perfeito para começar.
Otimizar os recursos
Antes de partir, fiz aquilo que um americano respeita acima de tudo: me organizei como um profissional, não como um turista.
Liguei para três das companhias aéreas mais populares, as que têm as maiores redes domésticas. Em menos de uma hora, comprei um carnê de cinquenta voos domésticos com 60% de desconto.
Sem limite de tempo. Sem limite de dias. Sem restrições. Só uma condição: usá-los dentro de um ano.
Fiz o mesmo com as redes de hotéis, o Uber e as locadoras de carros, e depois preparei um cronograma de verdade das etapas, dos meios, mas não dos horários.
Eu estava pronto.
Foi o meu primeiro sucesso de verdade. O primeiro sinal de que eu sabia me mover. A América recompensa quem age, não quem espera.
Quando a empresa viu a transação, fez o que a cultura americana sempre faz: verificou a confiabilidade.
Eu era capaz de administrar um ano de deslocamentos constantes? Era capaz de lidar com imprevistos, distâncias e emergências? Era independente?
Por isso, antes de partir, acertei outro detalhe crucial:
Garanti um limite mensal de pelo menos 100.000 dólares no meu cartão de crédito.
Não era para ser gasto. Era para demonstrar que eu sabia administrá-lo. Os americanos pensam assim: se você não tem autonomia, não tem liberdade. E se não tem liberdade, não pode ser avaliado.
A partir daquele momento, o programa deixou de ser uma tarefa. Virou uma missão.
E AGORA VIAJAMOS DE VERDADE
O Alaska faz parte dos Estados Unidos só pela geografia. É outro mundo.
É o lugar onde as mulheres desaparecem sem deixar rastro. Onde uma denúncia nunca chega ao destino. Onde as cidades são apenas ilhas civilizadas no meio de um continente selvagem.
Juneau foi o meu primeiro teste: uma capital sem estradas que a liguem ao resto do país. Um pedaço da América que não parece América.
Aqui comecei a entender uma coisa: a viagem não seria geográfica. Seria humana.
BLOCO 1 (Volume I)
Alabama – Alaska – Arizona – Arkansas – Califórnia – Colorado – Connecticut – Delaware – Flórida – Geórgia
BLOCO 2 (Volume II)
Havaí – Idaho – Illinois – Indiana – Iowa – Kansas – Kentucky – Louisiana – Maine – Maryland
BLOCO 3 (Volume III)
Massachusetts – Michigan – Minnesota – Mississippi – Missouri – Montana – Nebraska – Nevada – New Hampshire – Nova Jersey – Novo México
BLOCO 4 (Volume IV)
Nova York – Washington
BLOCO 5 (Volume V)
Carolina do Norte – Dakota do Norte – Ohio – Oklahoma – Oregon – Pensilvânia – Rhode Island – Carolina do Sul
BLOCO 6 (Volume VI)
Dakota do Sul – Tennessee – Texas – Utah – Vermont – Virgínia – Virgínia Ocidental – Wisconsin – Wyoming
KENTUCKY
O Kentucky é um estado que existe em duas dimensões: a superfície é feita de minas de carvão, uísque, cavalos e colinas verdes; as profundezas, porém, são feitas de pobreza antiga, comunidades isoladas, religião rígida e oportunidades raras.
É uma terra que já não é rural, mas ainda não é moderna. Suspensa. Lenta. Cansada. E quando uma terra fica suspensa, são as mulheres que a seguram.
No Kentucky, uma mulher não desaparece por causa de um acontecimento. Desaparece por causa de uma herança social que, há gerações, exige que ela se sacrifique. Família, filhos, trabalho precário, igreja, vizinhos, os problemas dos outros: está tudo nos ombros delas. A ausência dela não é barulho. É peso.
A mulher das antigas áreas de mineração – 41
anos
O carvão construiu o Kentucky e o destruiu. As minas fecham, os homens perdem o emprego, a dependência química aumenta, a pobreza se espalha.
As mulheres aqui seguram o que vem depois. – maridos sem emprego – filhos criados na frustração – salários baixíssimos – overdoses que atingem amigos e parentes – comunidades exasperadas.
Trabalham em lojas, escolas, prestadoras de serviços e como auxiliares de apoio. Fazem tudo o que os sistemas econômicos quebrados já não fazem.
A ausência dela é social: se ela não fosse mulher, o estado desabaria. Mas ninguém a reconhece.
A mulher do Derby e dos haras – 36 anos
O Kentucky é famoso pelos seus cavalos e pelo Derby. Por trás dessa imagem elegante há um exército de mulheres que limpam estábulos, cuidam dos animais, fazem turnos de madrugada e trabalham por salários ridículos.
O glamour fica na frente. O suor fica nos fundos.
A ausência dela é econômica: sem ela a indústria não funciona, mas ela continua sendo uma engrenagem ignorada pelo público e pelos políticos.
A mulher presa na religião – 48 anos.
Em muitos condados do Kentucky, a igreja tem mais poder que o estado.
Uma mulher precisa ser: – mãe – esposa – uma figura moral – uma presença respeitável – obediente à comunidade.
Ela não pode sair do seu papel. Não pode se reinventar. Não pode expressar dúvidas nem fragilidade.
A ausência dela é cultural: ela não pertence a si mesma. Pertence à narrativa religiosa do lugar.
A mulher do trabalho mínimo – 29 anos
O Kentucky vive de empregos mal pagos. E esses empregos são todos das mulheres.
Caixas, garçonetes, faxineiras, funcionárias de casas de repouso, auxiliares escolares. Vidas consumidas por turnos precários, gasolina cara, filhos para criar e perspectiva zero.
A ausência dela é econômica e mental: ela não vê saída e ninguém lhe oferece uma.
Epílogo – Kentucky
O Kentucky é um mosaico de tradição, pobreza, religião e dificuldades. As mulheres são a sua espinha dorsal. E justamente por isso se tornam invisíveis.
A ausência aqui é um hábito coletivo. Um modo de vida. Uma normalidade equivocada que nunca é questionada.
Reflexão – Kentucky
Cada estado mostra uma face diferente da ausência. O Kentucky mostra aquela que nasce do colapso econômico e de uma tradição agarrada ao passado.
Aqui a mulher segura tudo o que os homens perderam, tudo o que a religião impõe, tudo o que a pobreza torna permanente.
É o elo forte, mas tratado como o elo fraco.
E é exatamente por isso que este estado é necessário no volume: para mostrar o que acontece quando uma sociedade deixa tudo nos ombros das mulheres e depois se comporta como se fosse normal.
LOUISIANA
A Louisiana é um estado de contrastes ferozes. É cultura, música, história, culinária, espiritualidade e identidade. Mas também é pobreza, instabilidade, dependência, desigualdade racial, furacões devastadores, política desorganizada e um sistema social frágil.
É um lugar onde a beleza convive com a feiura, sem equilíbrio. Aqui tudo tem dois lados: Nova Orleans é festa e trauma, Baton Rouge é política e decadência, e as paróquias rurais são comunidade e isolamento.
A mulher na Louisiana não desaparece por acaso. Desaparece porque é a única figura estável numa terra instável. E essa estabilidade a consome.
A ausência dela é o resultado de três fatores pesados: – pobreza enraizada
– desastres ambientais cíclicos
– patriarcado cultural duro.
Aqui, as mulheres governam famílias, bairros, comunidades inteiras. E enquanto todos os outros aparecem, ela vai se apagando.
A mulher de Nova Orleans – 35 anos
Nova Orleans é música, festa, caos e história. Mas também é uma das cidades mais complexas e difíceis do país.
A mulher que trabalha aqui vive em três frentes ao mesmo tempo: – turismo predatório – violência urbana – economia instável
Trabalha em: – bares – hotéis – restaurantes – passeios turísticos – serviços públicos – música ao vivo – vida noturna
Sorrisos obrigatórios. Salários baixos. Aluguéis altos. Clientes pesados. Horários exaustivos.
A ausência dela é moral: a cidade usa a energia dela e a devolve esgotada.
Todo mundo quer a “magia” de Nova Orleans. Ninguém paga quem a cria.
A mulher afro-americana das paróquias pobres –
42 anos Fora de Nova Orleans fica a Louisiana rural e empobrecida. Casas pequenas, escolas fracas, serviços mínimos e salários ridículos. A mulher afro-americana aqui desempenha três papéis ao mesmo tempo: – trabalhadora – mãe – pilar social da comunidade.
Ela trabalha onde pode: – casas de repouso – lojas de conveniência – cozinhas de fast-food – limpeza – cuidados informais.
Sem ela, a comunidade não funciona. E mesmo assim ela vive com salários baixos, estresse crônico, pouca assistência médica e a presença constante da violência doméstica.
A ausência dela é histórica: descende da mesma estrutura que, por gerações, sempre a colocou no degrau mais baixo da escada social.
A mulher que sobrevive aos furacões – 39
anos
Na Louisiana, não existe vida “estável”. Os furacões mudam tudo: casas destruídas, empregos perdidos, famílias separadas, lembranças perdidas.
A mulher é quem: – retira as crianças – protege os documentos – limpa a casa invadida pela água – recomeça do nada – lida com apólices de seguro que pagam tarde ou nunca – mantém a família calma enquanto por dentro desmorona.
Para os homens, a reconstrução é física. Para as mulheres, é psicológica. Ano após ano.
A ausência dela é ambiental: cada tempestade leva embora um pedaço da sua energia, até quase não sobrar nada. Ninguém a reembolsa por isso.
A mulher das tradições pesadas – 51 anos
A Louisiana vive de tradições fortes, enraizadas, quase sagradas.
Uma mulher precisa ser: – a mãe perfeita – uma figura dentro de casa – um pilar da família estendida – uma presença na igreja – cuidadora dos idosos – guia dos pequenos – a estrutura que sustenta tudo.
É um papel antigo, nunca atualizado.
Ela não pode recusar os pedidos da família. Não pode responder. Não pode dizer “não”. Não pode pensar em si mesma sem se sentir culpada.
A ausência dela é cultural e emocional: está tão ocupada sustentando todos que desaparece de si mesma.
Epílogo – Louisiana
A Louisiana é uma mistura de beleza e feridas não cicatrizadas. E no meio desse caos cotidiano, as mulheres seguram tudo: família, trabalho, comunidade, tradições, sobrevivência emocional.
A ausência delas é um paradoxo: quanto mais fazem, menos são vistas.
A Louisiana não apaga as mulheres com uma única força. Apaga-as com mil pequenas forças diárias: pobreza, furacões, turismo, história racial, papéis familiares, falta de apoio.
É um apagamento lento, profundo, silencioso.
Reflexão – Louisiana
Cada estado exibe uma forma diferente de ausência. A Louisiana exibe uma causada por: – desastres naturais – desastres sociais – desastres familiares.
É o estado onde a mulher sobrevive por todos, mas ninguém sobrevive por ela.
É o estado onde o trauma vira rotina e a rotina vira identidade.
A Louisiana mostra que a ausência das mulheres não é só pobreza ou falta de direitos. É também um cansaço tão profundo que ninguém o nota mais.
E é por isso que este capítulo é crucial: para lembrar que por trás de cada cartão-postal de Nova Orleans há uma mulher segurando algo que o mundo não consegue ver.
MAINE
O Maine é um dos estados mais bonitos e mais duros da América. Florestas sem fim, costas frias, faróis, vilas de pescadores e um silêncio imenso. É uma terra romântica só para quem a visita. Para quem vive lá, é puro isolamento.
A população é escassa, as distâncias são longas, os invernos duram meses, as oportunidades são poucas. O Maine não ataca você: ele consome você.
As mulheres aqui desaparecem por três motivos: – solidão geográfica – trabalhos sazonais instáveis – pequenas comunidades que sufocam a mudança. É um estado onde a natureza domina e os seres humanos se adaptam. Sempre. Demais.
A mulher do Maine não cai por um choque. Cai pela repetição.
A mulher das vilas de pescadores – 39 anos
A costa do Maine vive da pesca: lagosta, bacalhau, temporadas curtas e trabalho pesado.
A mulher aqui administra tudo o que o barco não administra: – coordenação – redes para consertar – vendas – contabilidade da família – família – casa – emergências repentinas.
O mar é bonito de longe. De perto, é um patrão implacável.
A ausência dela é ao mesmo tempo econômica e física: vive num setor em que o ganho depende do tempo, da temporada e da sorte. E quando a temporada acaba, acaba também a segurança.
A mulher que vive no longo inverno – 52
anos
O Maine no inverno é um muro: neve, gelo, escuridão, silêncios infinitos.
No interior — Millinocket, Greenville, a região dos lagos —, as mulheres enfrentam: – meses sem contato social de verdade– estradas perigosas– casas isoladas– pouca assistência médica– depressão sazonal generalizada– distância dos serviços essenciais
Se está doente, ela espera. Se precisa de um médico, dirige por horas. Se desmorona emocionalmente, ninguém a vê. A ausência dela é geográfica: ela desaparece porque está longe de tudo.
A mulher dos trabalhos sazonais – 28 anos
No verão, o Maine explode: turismo, pousadas, restaurantes, cruzeiros.
A mulher aqui trabalha sem parar: – servir – limpar – cozinhar – receber – administrar – arrumar.
É um trabalho duro, mal pago, instável. Dura três meses, depois nada.
Passa de horários intensos a semanas vazias. Do dinheiro que entra rápido a meses de sobrevivência.
A ausência dela é econômica: vive sempre entre duas temporadas, mas não pertence a nenhuma.
A mulher das pequenas comunidades – 46 anos
As cidadezinhas do Maine são comunidades fechadas: todo mundo sabe tudo de todo mundo, e ninguém muda de verdade.
A mulher aqui precisa ser linear: – mãe – trabalhadora estável – presença confiável – “boa pessoa” segundo os códigos locais.
Ela não pode se reinventar. Não pode mudar de emprego com facilidade. Não pode deixar a comunidade sem ser julgada.
A ausência dela é cultural: ela pertence mais ao território do que a si mesma. É prisioneira não da maldade, mas do hábito.
Epílogo – Maine
O Maine é um estado que observa você em silêncio. E o silêncio, quando é demais, vira um fardo.
As mulheres aqui desaparecem nas distâncias, nas temporadas, nos papéis repetidos, nos trabalhos precários, nas vilas fechadas, nos longos invernos.
A ausência não é evidente. Está debaixo da pele. É coisa de todo dia.
O Maine não bate. Ele deixa você ir.
Reflexão – Maine
Todo estado revela uma forma de ausência. O Maine revela aquela que nasce da geografia:
Quanto mais belo o território, mais difícil é para quem vive nele.
Aqui, a mulher não é apagada pelo conflito, mas pela quietude. Pela repetição. Pela distância. Pelo frio que nunca passa. Pela vida que encolhe.
O Maine ensina uma coisa: a ausência feminina também pode ser uma paisagem. Um mapa. Uma estação que nunca termina.
E é por isso que este capítulo é necessário: porque a América não é só violência ou caos. É também um silêncio que consome.
MARYLAND
Maryland é um estado enganoso. Pequeno, debruçado sobre o Atlântico, perto de Washington. Elegante na superfície, complexo por dentro.
É um território partido em dois: – subúrbios ricos, instruídos, protegidos, ordenados – cidades difíceis, pobres, marcadas pelo crime e pelo abandono.
É um dos estados com a maior renda média da América e, ao mesmo tempo, um dos que têm as desigualdades mais evidentes.
As mulheres aqui não desaparecem por um único motivo. Desaparecem por causa de mundos demais aos quais precisam se adaptar: metrópole, subúrbios, política, saúde, pobreza urbana, identidades raciais.
A ausência das mulheres em Maryland é múltipla.
Ela varia conforme o CEP.
A mulher de Baltimore – 34 anos
Baltimore é uma das cidades mais complicadas dos Estados Unidos: pobreza enraizada, criminalidade alta, isolamento social, serviços sobrecarregados e escolas em risco.
Aqui, as mulheres seguram tudo: – os filhos – o trabalho precário – os bairros perigosos – o custo de vida proibitivo – o transporte lento – a falta de proteção real.
Ela trabalha onde pode: supermercados, clínicas, centros de assistência, redes de fast-food, casas de repouso, limpeza. Sua ausência é urbana: a cidade fala de “requalificação”, mas nunca parte da vida dela.
Ela é visível para o sistema só quando serve como mão de obra. Desaparece quando se trata de reconhecer seus direitos.
A mulher dos subúrbios ricos – 42 anos
A parte rica de Maryland é perfeita: casas de cinema, rendas altas, escolas de elite, carreiras ambiciosas, famílias bem estruturadas.
A mulher aqui desaparece por outro motivo: a pressão da perfeição.
É um ambiente competitivo em que o papel feminino precisa ser impecável: – gestão total da família – imagem social elevada – filhos perfeitos – voluntariado obrigatório – trabalho ou carreira paralela que nunca deve “ofuscar” o parceiro.
Ela vive num contexto que a quer sempre presente, sem nunca desistir, sem nunca mostrar cansaço.
Sua ausência é identitária: a comunidade a considera um papel, não uma pessoa.
A mulher afro-americana do Central
Corridor – 45 anos Maryland tem uma das comunidades afro-americanas maiores e mais influentes dos Estados Unidos.
As mulheres aqui são uma força motriz da sociedade: – trabalham na saúde – trabalham nas escolas – dirigem escritórios e a administração pública – mantêm unidas famílias grandes – sustentam comunidades inteiras. Mas ela vive com um peso duplo: racial e de gênero.
Ela faz tudo. Segura tudo. Aparece em toda parte. Mas raramente é ouvida.
Sua ausência é política: ela sustenta o Estado sem se sentar às mesas onde as decisões são tomadas.
A mulher que trabalha na saúde – 37 anos
Maryland é um dos estados com o maior número de trabalhadoras da saúde, graças à proximidade com Washington e aos seus grandes hospitais regionais.
As mulheres aqui vivem dentro de um sistema que nunca para de exigir: – plantões sem fim – setores sobrecarregados – emergências repetidas – responsabilidades altíssimas – pouca proteção psicológica – salários que não compensam o impacto emocional.
É ela quem cuida de todos: dos idosos, das crianças, dos doentes crônicos, das emergências urbanas, dos desastres ambientais.
Sua ausência é operacional: ela é fundamental, mas sua voz pesa extraordinariamente pouco nas decisões sobre a saúde.
Epílogo – Maryland
Maryland é um estado construído sobre contrastes duros: riqueza extrema e pobreza extrema, política de alto nível e bairros abandonados, carreiras brilhantes e empregos mínimos. As mulheres aqui vivem todas essas contradições ao mesmo tempo. Cada área de Maryland tem uma forma diferente de apagamento: urbana, social, identitária, racial e de saúde.
A ausência delas é um resultado coletivo: o Estado funciona porque elas se mantêm firmes.
E é exatamente por isso que não são vistas.
Reflexão – Maryland
Cada estado revela um retrato matizado da ausência das mulheres. Maryland revela o mais complexo: as mulheres existem em todos os níveis sociais, mas são ignoradas justamente onde o sistema toma forma.
Aqui, as mulheres são: – a espinha dorsal dos subúrbios ricos– o motor das comunidades negras– quem garante a saúde– a sobrevivência dos bairros pobres.
No entanto, ela não é reconhecida como força política, não é colocada no centro das estratégias, não é protegida.
Em Maryland, a ausência não é pobreza nem solidão. É desproporção: as mulheres dão mais do que o estado devolve.
E é por isso que ela encontra seu lugar aqui no volume.
MASSACHUSETTS
Massachusetts é um dos estados mais inteligentes da América. Universidades de elite, hospitais de nível mundial, centros de pesquisa, tecnologia e inovação. Visto de fora, parece um dos lugares mais avançados e “certos” do país: instrução elevada, rendas altas, políticas modernas e serviços completos.
Mas a verdade é mais complexa.
Massachusetts é um território de duas velocidades: – quem pertence aos circuitos do conhecimento – quem fica do lado de fora dessas portas.
É um estado que fala de progresso, mas vive sob uma pressão cultural enorme. E essa pressão esmaga lentamente a presença das mulheres.
As mulheres aqui não desaparecem por falta do que têm. Desaparecem por excesso de expectativas: carreira, família, padrões elevados, desempenho constante, modelos sociais perfeitos.
A ausência das mulheres em Massachusetts é moderna, culta, refinada — e devastadora.
A mulher da universidade de elite – 33 anos
Massachusetts é o coração acadêmico do planeta. O futuro do conhecimento se decide dentro daqueles campi.
A pesquisadora entra com capacidades altíssimas, mas se vê diante de um sistema que exige:
– publicar sem parar – competir com colegas protegidos – fazer conferências, seminários, grandes eventos – manter uma imagem sempre brilhante – abrir mão da vida privada por anos
O contexto parece progressista, mas os cargos de poder continuam masculinos. Quem faz pesquisa respira um ar de excelência… e de desgaste.
Sua ausência é institucional: ela produz conhecimento, mas raramente comanda.
A mulher migrante da limpeza e da alimentação – 29 anos
Fora dos seus campi de cartão-postal, Massachusetts vive do trabalho migrante: latinas, haitianas, brasileiras, cabo-verdianas, africanas.
São elas que: – limpam os escritórios da elite – cozinham nos restaurantes universitários – fazem turnos nos hotéis – tocam as cozinhas dos restaurantes de Boston – cuidam dos idosos – cuidam dos filhos dos outros.
Vidas duras, ganhos baixos, aluguéis nas alturas.
Sua ausência é econômica e política: ela mantém de pé a cidade mais instruída da América sem ser reconhecida por ninguém.
A mulher das clínicas e dos hospitais – 41 anos
Massachusetts é o centro da saúde avançada. Por trás dos grandes nomes há milhares de mulheres: enfermeiras, técnicas, pessoal de enfermaria, assistentes e pessoal de apoio.
Plantões impossíveis. Estresse constante. Responsabilidades enormes. Pacientes difíceis. Custo de vida altíssimo. Pouco descanso.
Sua ausência é operacional: ela é o motor da melhor saúde da América, mas o sistema não a vê como pessoa: só como função.
A mulher dos bairros difíceis – 35 anos
Além dos campi e dos subúrbios abastados, Massachusetts tem uma pobreza real, dura, invisível para a mídia.
A mulher que vive aqui enfrenta: – aluguéis inacessíveis – escolas frágeis – violência difusa – serviços insuficientes – transporte precário – empregos mal pagos – discriminação racial estrutural.
Ela é uma sobrevivente do dia a dia.
Sua ausência é urbana: ela não cabe na narrativa “perfeita” de Massachusetts, então o sistema a ignora.
Epílogo – Massachusetts
Este estado é um paradoxo evidente: quanto mais culto é, mais espera que as mulheres deem conta de tudo.
A ausência aqui não é ignorância. É hiperexcelência. É a convicção de que, num território evoluído, “tudo vai ficar bem”.
Nem tudo está bem.
As mulheres carregam pesos enormes e invisíveis: acadêmicos, de saúde, familiares, econômicos.
Massachusetts funciona porque elas trabalham. E é exatamente por isso que desaparecem.
Reflexão – Massachusetts
Cada estado mostra uma ferida diferente. Massachusetts mostra aquela escondida sob a sua cultura.
Aqui, as mulheres não são apagadas porque lhes faltam oportunidades. São apagadas porque têm oportunidades demais, e ninguém as protege enquanto as enfrentam.
É um apagamento moderno: não violento, não barulhento, não evidente. Mas total.
E é por isso que Massachusetts é um capítulo necessário: para lembrar que o progresso não basta se não liberta de verdade quem o sustenta.
MICHIGAN
Michigan é o esqueleto da América industrial. O estado que criou o automóvel, que construiu a própria ideia da classe operária americana — e que viu tudo desmoronar. Fábricas fechadas, cidades esvaziadas, bairros abandonados, água contaminada, dependências, infraestrutura envelhecida, salários reduzidos.
É um estado que conheceu ascensão, declínio e resistência. E, ao longo de tudo isso, as mulheres aguentaram o que os homens já não conseguiam sustentar.
Michigan não elimina as mulheres de uma só vez. Ele as consome, dia após dia, por meio de três forças: – a indústria que desaba – as cidades que se esvaziam – os problemas ambientais que envenenam tudo. A ausência das mulheres aqui é o resultado de uma economia quebrada que continua exigindo sem dar quase nada.
A mulher de Detroit – 38 anos
Detroit é o símbolo mundial do colapso industrial. Bairros vazios, casas abandonadas, serviços frágeis, escolas sem verba e pobreza histórica.
As mulheres aqui vivem com: – empregos precários – transporte pouco confiável – violência difusa – custos proibitivos – falta de redes sociais sólidas – responsabilidades familiares totais.
Ela trabalha onde encontra trabalho: supermercados, clínicas, call centers, restaurantes, cooperativas locais.
Sua ausência é urbana: uma cidade famosa no mundo inteiro, mas que não olha para quem a mantém de pé.
Detroit celebra sua história industrial. Não celebra as mulheres que sobreviveram ao seu fracasso.
A mulher de Flint – 34 anos
Flint é uma ferida nacional. Água envenenada durante anos, crianças intoxicadas, famílias traídas pelo estado.
A mulher aqui viveu o escândalo na própria pele: – cozinhou com água tóxica – lavou os filhos com água perigosa – lutou contra instituições que negavam as evidências – administrou casas com problemas sanitários enormes – teve de escolher entre pagar as contas ou comprar água engarrafada. Sua ausência é ambiental: o Estado falhou, e quem pagou o preço foi ela.
Flint não é só uma tragédia. É um exemplo de quão pouco vale a vida de uma mulher pobre na América.
A mulher das ex-fábricas – 46 anos
Antigamente, as fábricas de Michigan davam estabilidade: salários justos, uma casa, uma família, um futuro.
Depois tudo desabou: deslocalização, robotização, fechamentos, demissões em massa.
As mulheres aqui tiveram de se reinventar depressa: – supermercados – assistência – limpeza – pequenos serviços – meio período – turnos divididos.
Da indústria pesada à precariedade cotidiana.
Sua ausência é econômica: ela perdeu a segurança, perdeu as perspectivas, perdeu a proteção que tinha quando o carro dominava o mundo.
A mulher rural – 50 anos
O Michigan rural é imenso: regiões de lagos, florestas, comunidades isoladas, cidadezinhas lentas.
A mulher aqui enfrenta: – invernos duros – dependências que atingem maridos e filhos – saúde distante – trabalhos sazonais – solidão – transporte quase inexistente.
É uma vida de ajustes constantes. Sem apoio, sem crescimento, sem redes sólidas. Sua ausência é geográfica: ela desaparece nos quilômetros, no silêncio, na rotina da sobrevivência.
Epílogo – Michigan
Michigan é um estado que carrega as cicatrizes do passado e as consequências do presente.
As mulheres se mantêm firmes: Detroit, Flint, as áreas rurais, as ex-fábricas, os bairros difíceis, as famílias que resistem.
Mas, enquanto seguram tudo, desaparecem: – entre infraestruturas que desabam – entre águas poluídas – entre empregos precários – entre cidades meio vazias – entre economias falidas.
Michigan celebra seu passado glorioso. As mulheres pagam o presente.
Reflexão – Michigan
Cada estado mostra uma forma diferente de ausência. Michigan mostra aquela causada pela fragilidade das estruturas: quando a fábrica cai, a comunidade cai. E quando a comunidade cai, é a mulher que fica de pé — sozinha.
A ausência das mulheres aqui é o resultado de uma vida inteira passada tapando buracos: trabalho, filhos, casa, crises econômicas, desastres ambientais, cortes nos serviços e violência urbana.
É a América que já não funciona e que espera que as mulheres funcionem mesmo assim. E é por isso que este capítulo é crucial.
MINNESOTA
Minnesota é um estado de que todos gostam: lagos, natureza, ordem, instrução, civilidade, invernos longos e uma vida “tranquila”. É isso que se vê de fora.
Por dentro, é diferente. É um estado que vive metade do ano em temperaturas congelantes, com comunidades que parecem abertas mas na verdade são muito fechadas, com cidades que se vendem como progressistas mas escondem tensões raciais profundas, com um sistema social que só funciona enquanto você funciona — e as mulheres sempre funcionam.
Aqui, a mulher não desaparece no caos. Desaparece na correção aparente. No silêncio. Na frieza. Nas expectativas “gentis” que a esmagam mais do que a violência explícita.
Minnesota não ataca. Consome.
A mulher dos bairros de imigrantes – 32 anos
Minnesota tem uma das comunidades imigrantes maiores e mais visíveis dos Estados Unidos: somalis, hmong, etíopes e latinos. E as mulheres estão no coração dessas comunidades.
Elas vivem entre dois mundos: – a cultura de origem – o sistema americano rígido e caro. Trabalham como: – auxiliares de saúde – faxineiras – cozinheiras – babás – motoristas – mediadoras culturais.
Falam duas línguas, criam os filhos e sustentam famílias numerosas. Sem parar.
A ausência delas é cultural e econômica: são a força motriz das comunidades, mas a sociedade as trata como uma presença de serviço.
São visíveis como números, invisíveis como pessoas.
A mulher que trabalha na assistência social – 38 anos
Minnesota investe muito em serviços sociais. Mas quem faz o trabalho de verdade são sempre as mulheres: nos centros para famílias, nos projetos educativos, nos abrigos e nas estruturas públicas.
Chamam-nas de “anjos sociais”. São trabalhadoras mal pagas e sobrecarregadas.
Histórias duras de carregar, emergências constantes, pessoas para ajudar sem os instrumentos adequados, gestão emocional contínua.
A ausência delas é profissional: sustentam a parte mais frágil da sociedade, mas o sistema não consegue sustentá-las.
A mulher dos invernos longos – 50 anos
Minnesota no inverno é como outro planeta: meses de neve, estradas congeladas, isolamento forçado. Nas áreas do interior e nas cidades pequenas, as mulheres vivem: – a quilômetros de tudo – com pouca assistência de saúde – numa rotina monótona – com problemas domésticos sem redes de apoio – com um inverno que entra até na cabeça.
Quando você está longe, está sozinha. E quando você está sozinha em Minnesota, ninguém vê.
Sua ausência é geográfica: ela desaparece na neve, na distância, no silêncio.
Setores essenciais – 40 anos
Minnesota é um estado que se apoia em três pilares: – a saúde – a educação – a distribuição de alimentos.
Três setores dominados por mulheres. Turnos longos, altos níveis de responsabilidade, falta de pessoal e estresse constante.
São elas que mantêm o estado funcionando quando a temperatura cai para -25. São elas que não podem faltar, nem mesmo doentes.
A ausência delas é operacional: não podem parar, mas ninguém constrói um sistema para protegê-las.
Epílogo – Minnesota
Minnesota é um estado frio por fora e quente por fora. As mulheres mantêm tudo em equilíbrio: comunidades imigrantes, serviços sociais, saúde, escolas e famílias isoladas.
A ausência delas é feita de três elementos: – o gelo – o silêncio – a responsabilidade sem reconhecimento. Não há caos, não há barulho, não há violência espetacular. Há apenas uma calma que consome.
Reflexão – Minnesota
Todo estado mostra sua própria forma de ausência. Minnesota mostra a mais “educada”: o apagamento pela gentileza aparente.
Aqui não gritam com você. Não te barram abertamente. Não te atacam.
Simplesmente deixam você funcionar sozinha. E você precisa funcionar sempre.
Minnesota é o estado onde as mulheres se tornam invisíveis não porque são fracas, mas porque são fortes demais para serem ajudadas.
E é por isso que este capítulo é crucial: para mostrar que até os estados “bons” têm ausências significativas.
MISSISSIPPI
O Mississippi é o coração do Sul mais profundo. É um estado que ainda carrega o peso da sua história: escravidão, pobreza enraizada, segregação, falta de serviços, infraestrutura mínima, educação sem verba.
É um dos lugares onde nascer mulher significa partir com três obstáculos: – a pobreza herdada – papéis familiares rígidos – um estado que não oferece nada. Aqui, as mulheres não desaparecem por causa de um acontecimento. Desaparecem porque vivem numa sociedade que nunca foi pensada para protegê-las.
A ausência das mulheres no Mississippi é total: econômica, cultural, de saúde, política, racial.
É o estado em que as mulheres seguram tudo e não recebem nada.
A mulher afro-americana do Delta – 40 anos
O Delta do Mississippi é um dos lugares mais pobres dos Estados Unidos. Extraordinariamente rico em cultura, música e história, e mesmo assim devastado pelo abandono político, pela falta de serviços e por uma desigualdade enorme.
A mulher afro-americana aqui é o eixo da comunidade: – cria filhos e netos – trabalha em escolas frágeis – cuida da família – faz turnos em casas de repouso – limpa casas e estruturas – sustenta o bairro inteiro.
Sem ela, o Delta desabaria em um dia.
Sua ausência é histórica e racial: o Estado nunca a colocou no centro de nada. Ela dá tudo, não recebe nada.
A mulher das áreas rurais mais pobres – 48 anos
O Mississippi rural é imenso. Cidades minúsculas, casas isoladas, igrejas por toda parte e hospitais quase inexistentes.
A mulher vive com: – quilômetros de distância de tudo – problemas crônicos de saúde não tratados – transporte mínimo – trabalhos sazonais ou precários – casas velhas, difíceis de manter – uma sensação de isolamento que vira modo de vida.
Se acontece uma emergência, ninguém chega a tempo.
Sua ausência é geográfica: ela vive longe demais para ser alcançada e pobre demais para ser ouvida.
A mulher que trabalha nos serviços mais baixos – 33 anos
O Mississippi é um dos estados com os salários mais baixos do país. E esses empregos, invariavelmente, são para as mulheres.
A mulher aqui trabalha em: – redes de baixo custo – supermercados populares – redes de fast-food – limpeza – cuidado informal de doentes e idosos – serviços de babá sem registro.
Turnos pesados, nenhum direito, nenhum horário estável. Ela trabalha muito, ganha pouco e sobrevive.
Sua ausência é econômica: sem o trabalho dela, o Mississippi para aos poucos, mas o estado a trata como se qualquer pessoa pudesse substituí-la.
A mulher presa na tradição religiosa – 55 anos
A religião no Mississippi não é um fator. É um sistema.
A mulher aqui precisa: – ser mãe – ser devota – ser o apoio da família – ser uma figura moral – ser “forte” mesmo quando não é.
Ela não pode se separar sem estigma. Não pode mudar de vida sem provocar julgamentos. Não pode se colocar à frente da família.
Sua ausência é cultural e emocional: foi criada para sustentar todos, mas ninguém a sustenta.
Epílogo – Mississippi
O Mississippi é o estado mais lento para mudar. E nessa lentidão, as mulheres se perdem.
São elas que mantêm funcionando escolas, lojas, igrejas, famílias e comunidades. São elas que mantêm unido o que o governo não consegue.
No entanto, desaparecem dentro de uma estrutura que nunca as considera centrais.
A ausência aqui não é um acidente. É uma tradição.
Reflexão – Mississippi
Todo estado mostra uma forma de ausência. O Mississippi mostra a mais antiga e a mais cruel.
Aqui, as mulheres não são apenas invisíveis. São dadas como certas. São consideradas um recurso natural: sempre disponíveis, nunca protegidas.
O Mississippi demonstra uma verdade dura: quando a história não muda, são as mulheres que pagam o preço mais alto.
É por isso que este capítulo é um dos mais importantes do volume: porque mostra o que resta quando o Estado abandona gerações inteiras e espera que as mulheres as salvem.
Ferdinando Frega
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