TRÊS DIAS NO EXTERIOR PELA L’ORÉAL
L’ORÉAL · 05
Quando ele veio me buscar embaixo do meu prédio naquela manhã, era muito cedo — era o jeito dele de trabalhar. Sempre dizia que a manhã tem ouro na boca, e que tudo o que você faz, tudo o que você produz nessa hora, nunca se repete à tarde. Eram 5h30. Ele me disse, meio brincando, para levar o passaporte, e eu devolvi pedindo que me dissesse de uma vez para onde diabo a gente estava indo de verdade.
A Sicília faz parte da Itália, eu disse, não precisa de passaporte para isso — mas ele riu e disse: para alguém como você, acostumado ao interior, às cidadezinhas, a esse tipo de território — se você se perdesse numa cidade como Catânia, um milhão de habitantes, pelo menos iam conseguir saber de onde você é e te mandar para casa.
Ha ha ha ha ha ha ha.
Era o jeito dele de dizer: bom dia, Nando, cheguei, e sei que você não é nenhum grande viajante.
Chegamos à balsa, e ele me olhou de cima a baixo. Eu tinha comprado um terno azul para a ocasião, camisa azul-clara, gravata azul, sapatos novos que rangiam, e estava confiante naquilo tudo.
Tinha feito a barba, passado uma das minhas clássicas loções pós-barba Gillette, o cabelo estava arrumado, o espírito estava limpo — eu estava mesmo alinhado. Mas alguma coisa me fez parar e pensar: eu sabia que ele tinha algo em mente, só não sabia o quê.
Ele me pegou pelo braço — vamos ao bar, primeiro andar —, mandou que eu o seguisse, e quando chegamos lá me puxou direto para o banheiro masculino.
Mandou tirar o paletó, a gravata, a camisa, lavar bem o rosto e me livrar daquela maldita loção pós-barba — disse que era coisa de velho, que lembrava a que o avô dele usava, forte o bastante para manter longe tanto os mosquitos quanto a avó.
Ele me entregou um lenço ascot para pôr no lugar da gravata, e um lenço de bolso para o paletó. Depois tirou o meu Casio novinho, aquele com calculadora embutida, e me deu um relógio saído direto da caixa — um Omega Seamaster, caixa de aço —, mandou usar no pulso direito, e enfiou no outro uma pulseira de prata branca.
Achei que tinha acabado, mas aí ele tirou do bolso um vidrinho de perfume francês, pour femme, e me ungiu com ele.
Isso é perfume de mulher, Giorgio, que diabo você está fazendo?
Ele me interrompeu e disse: homens e mulheres muitas vezes usam fragrâncias feitas para o sexo oposto, não pelo cheiro que têm, mas pelo que devem provocar. Não se preocupe, você vai entender — só confie em mim.
Mas eu já não sei se a gente vai trabalhar ou se você arrumou uma desculpa para ir atrás de mulher sem me avisar — me diga logo.
Ele sorriu e disse: vamos trabalhar, não vamos atrás de mulher — mas existe uma mulher em especial a cujo nome devemos respeito, e não se esqueça nunca: o nome dela é tia L’Oréal.
Era hora de descer da balsa, de desembarcar na Sicília — embora ninguém nunca tenha nos pedido passaporte. As ruas eram limpas, e as pessoas falavam usando o “Lei” formal, enquanto lá em casa, na Calábria, a gente sempre usava o velho “Voi”. Essa foi a primeira diferença, minha primeira lição: estávamos mesmo no exterior.
Ferdinando
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