GILLETTE & L’ORÉAL, WOMEN USA — VOL. VI
L’ORÉAL · 20

Dakota do Sul, Tennessee, Texas, Utah, Vermont, Virgínia, Washington, Virgínia Ocidental, Wisconsin, Wyoming. A última etapa da travessia americana, e a nota que encerra a série.
Capítulo Zero — abertura comum
Este capítulo de abertura é comum aos seis volumes de Mulheres dos Estados Unidos. Está reproduzido aqui na íntegra, e recolhido para que a série possa ser lida em sequência sem repetições.
CAPÍTULO ZERO
Aqui, o mundo não é um território: é um limite. O Polo Norte não acolhe, não perdoa, não deixa margem para o erro. O branco reina como uma entidade absoluta, silenciosa e sem memória. A temperatura não é um dado meteorológico: é um predador. A noite dura meses, esmaga os pensamentos, distorce os contornos das pessoas, engole a vontade delas.
As comunidades são poucas, pequenas e fechadas. Inuítes, yupiks, povos árticos vivem onde ninguém escolheria ficar. Aqui, cada indivíduo é essencial para a sobrevivência do grupo. Se você não é útil, vira um fardo. E quem vira fardo desaparece no silêncio, na neve, na lógica de um ambiente que não faz concessões.
As bases científicas acrescentam outro tipo de frio: o das hierarquias. Aqui, uma mulher é uma presença rara, uma anomalia que precisa se adaptar ou sucumbir.
Neste lugar, o conceito de “desaparecimento” não existe. Existe só o branco que apaga tudo.
Mulheres inuítes e yupiks
A menina ártica não é mimada: é preparada. Aprende cedo a resistir ao frio, à escuridão e à fome. Precisa se tornar útil para o clã, porque aqui a identidade não é pessoal. É funcional. A mulher carrega o peso da família e da comunidade: comida, fogo, filhos, peles, cuidados. Ninguém fala de direitos. Ninguém fala de fragilidade. A depressão existe, mas não tem nome. A violência existe, mas não tem testemunhas.
A mulher das bases científicas
Instruída, competente, acostumada à disciplina. Chega como pesquisadora, técnica e médica. Descobre logo que o Polo Norte não reconhece diplomas. Aqui, só conta a dureza mental. As hierarquias masculinas a dominam, e qualquer sinal de fraqueza é interpretado como fraqueza. É um ambiente onde a força não basta: exige-se um autocontrole extremo.
A mulher ocidental “de fora”
Criada em liberdade, chega achando que pode vencer o frio. Mas o lugar a quebra: solidão, espaços minúsculos, silêncios sem fim. As bases não são comunidades, são mecanismos. E uma mulher, dentro de um mecanismo projetado por homens, precisa lutar para não desaparecer.
A viagem até o fim do mundo
Meu vizinho, Antonio, conhecido como Nino, falava havia anos do Cabo Norte, do sol da meia-noite, dos meses sem escuridão. Era um sonho que ele guardava no bolso, como uma coisa impossível. Numa manhã de maio, toquei a campainha dele e disse só isto: “Faça a mala. Volto daqui a uma hora. Estaremos de volta em 30 dias.” Ele me olhou, surpreso, feliz. A mulher dele, preocupada, perguntou quais eram os nossos planos. “Correr atrás de um sonho”, respondi.
Entramos no carro. Nossas mulheres nos olhavam como se fôssemos loucos. Mas esta viagem era real. Nino já estava cheio de perguntas. “Para onde vamos? Quanto dinheiro devo levar?” “Relaxe”, eu lhe disse. “Chegamos em 54 horas. Só 5.000 km. Estamos no Range Rover novo. Aproveite a viagem.”
A cada 300 km eu tinha que parar: ele, doze anos mais velho que eu, tinha o seu próprio ritmo. Eu tinha água e líquidos; ele tinha café e necessidades físicas. E quanto mais avançávamos, mais ele falava da sua vida. Coisas que eu nunca teria sabido se não fosse aquela estrada sem fim.
Dois homens sozinhos num carro falando sempre de mulheres. Ele só tinha conhecido a esposa. Eu ri. Eu o tranquilizei: “Nós somos do mesmo jeito.”
Ele me perguntou como eu conseguia continuar lúcido dirigindo 60 horas. Contei a ele sobre a Rússia, quando aos 22 anos dirigi 51 horas para encontrar uma mulher que eu nunca tinha visto. “As distâncias não são limites”, eu lhe disse, “são desculpas. Eu nunca tive nenhuma.”
A chegada ao branco
Entramos na Noruega. Um albergue na estrada. Deixaríamos o carro ali e seguiríamos de trenó.
A guia estava toda coberta, impenetrável. Quando tirou os óculos, descobri que era uma mulher. Uma norueguesa, calada, direta, glacial. Nino no meio do trenó, ela na frente, eu com meus 190 cm atrás, fechando a fila.
Ainda era dia. O relógio marcava a hora, mas não me dizia se era noite ou manhã. Era o sol da meia-noite. Tínhamos chegado ao Cabo Norte.
Nino chorou. Me abraçou. Eu lhe disse, rindo: “Cuidado… o pessoal pode achar que somos gays.” Rimos, mas estávamos no fim do mundo.
Depois veio o gelo: –52 °C.
A entrada no verdadeiro Ártico
Nos levaram a um contêiner de metal para trocar de roupa. Macacões pesadíssimos, acolchoados, fechados com zíperes complicados.
Paguei pela guia. Nino ficou num iglu com alguns homens; eu fiquei em outro com uma família: um velho, entre 70 e 80 anos, e três mulheres entre 30 e 50.
Era um mundo fechado. Simples. Brutal.
O homem ficava de lado. As mulheres davam o ritmo. E o banheiro era um morrinho a cinco metros do iglu: o cocô congelava antes de tocar o chão. Meu primeiro xixi virou uma estrela ártica amarela. Era o Norte me cumprimentando.
A mulher de meia-idade, Magi, falava um pouco de inglês. O resto eram gestos, olhos, mãos. A língua do frio.
Quando eu não sabia direito como usar o macacão, ela, sem pensar, tocou minha virilha para me mostrar um zíper escondido. Não havia malícia, nem constrangimento: só função. Sobrevivência.
Os três dias no iglu
Trouxeram comida. Peixe defumado, peixe cru, fígado de bacalhau, barriga de baleia. E bolinhas de tubarão. Não havia escolha. Não havia alternativa. Era o que a natureza oferece.
Depois bebi: um líquido vermelho. Achei que era vinho. Era sangue de baleia filtrado, fervido, adoçado. Bebi. Me deu uma força que eu nunca tinha sentido. Uma energia primordial. Achei que era cocaína. Não. Era o Norte entrando no corpo.
As mulheres me observavam. O velho saía para caçar. Eu descansava e bebia sangue. Três dias sem telefone, internet, computador, sem Nino. Só eu e elas.
Não havia noite. Só luz, fogo, gelo e respiração.
As três mulheres se deitaram para dormir. Procurei um lugar. A mais nova levantou o braço e me fez sinal para chegar mais perto. Elas caíram na risada. Eu não entendi. Disseram que eu era o “Natal” delas.
Um jeito de dizer que eu tinha sido aceito.
Tentei dar a elas algum dinheiro para agradecer. Recusaram. Só queriam um abraço. E algumas palavras em calabrês para se sentirem mais perto.
Ali entendi o valor dos verdadeiros presentes: os que não se compram nem se vendem.
A despedida da guia
Depois de três dias, a guia chegou. Falou com as três mulheres durante uma hora. Eu estava lá fora. Não entendia o que diziam. Não era da minha conta. Era a língua delas, o mundo delas, a lei delas.
No contêiner, enquanto eu me despia, a guia entrou. Curiosa. Direta. Nórdica. Me abraçou com força. Me beijou. A pele dela era branca como leite. Os olhos, azuis como o céu de agosto.
Ela me pediu que a levasse embora. Teria feito qualquer coisa para sair daquele mundo.
Sorri com respeito. Eu não podia. Não devia.
Deixei a ela só uma promessa: “Se precisar de alguma coisa, me escreva uma carta. Eu ajudo você.” Ela recusou até o dinheiro. Era uma mulher linda, mas sozinha. Uma solidão que não se vê de longe. Uma solidão que o frio não perdoa.
A volta para casa
Fomos buscar Nino. Ele estava radiante. Não queria voltar. Mas eu tinha um compromisso com a mulher dele.
Ele contou a todo mundo os seus três dias. Eu fiquei calado. Nunca compartilhei nada com o homem. Só com o papel.
E assim, enquanto Nino voltava para o seu mundo, eu já estava a caminho de outro. Outro destino. Outro encontro.
Bem-vindo.
Epílogo
O Norte não leva você: ele transforma você. E nunca
devolve você inteiro. Os homens vão ao Polo Norte em busca de luz, de silêncio, de fotografias, de sonhos. As mulheres ficam para sobreviver.
Os homens contam o que viram. As mulheres calam o que viveram.
Os homens voltam. As mulheres ficam. Ficam no frio, nas casas de neve, em silêncios que ninguém ouve. Ficam para sustentar comunidades que não as celebram. Ficam para proteger crianças, velhos, estranhos. Ficam invisíveis.
Trouxe de lá uma única lembrança: uma mulher linda, incrivelmente linda, mas sozinha. Não no sentido romântico. No sentido humano. No sentido trágico.
Reflexão
O Norte não mata o corpo. Mata a presença. E o que resta é o branco: um lugar onde as mulheres vivem e desaparecem ao mesmo tempo.
É por isso que escrevo. Porque os lugares extremos não contam a própria história. E quem os atravessa não pode se dar ao luxo de ficar calado.
Eu não. Eu não. Minha terra me deu à luz, e o resto do mundo me acolhe não como hóspede, mas como alguém da família.
Do branco absoluto do Norte, desci para a confusão absoluta dos Estados Unidos.
ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
A missão impossível
Trabalhar dezoito anos para uma empresa americana dá a você algo que nenhuma outra empresa no mundo consegue dar: uma cultura de trabalho, procedimentos, uma missão clara e um sistema de valores que não são teoria — são prática diária. Eles não explicam esses valores a você; eles os constroem em você. E fazem isso sem pedir a sua permissão.
Eu estava no escritório de Nova York quando me ofereceram um trabalho que eu nunca tinha imaginado. Não uma promoção. Não uma transferência. Um experimento.
Um programa confidencial, criado para validar um modelo de relações humanas dentro dos Estados Unidos. Não tinham escolhido gerentes, psicólogos nem instrutores. Tinham escolhido pessoas com um certo tipo de experiência real. E o meu nome apareceu — mesmo eu estando em vendas havia dezoito anos. Eles não olhavam o cargo: olhavam a mente.
O teste era simples de explicar e dificílimo de cumprir:
visitar os 50 estados americanos em um ano, escolhendo eu mesmo as cidades e ficando pelo menos uma semana em cada uma.
As duas últimas semanas seriam férias obrigatórias. Eles cobririam todas as despesas. Eu só tinha que viver, observar, entender e entregar um relatório toda segunda-feira. Um relato humano, seco, preciso.
Assinei o contrato. Avisei em casa. Não perguntaram nada. Só queriam saber se as provisões do mês tinham chegado. Eu estava prestes a enfrentar um ano na América. Elas, como sempre, estavam enfrentando o mês seguinte.
Por precaução, o meu salário era depositado direto na minha conta bancária na Itália. Era um jeito educado de me dizer: “Não faça besteira. Viva com o que você tem. Vamos ver quem você é de verdade.”
Só quinze anos depois tive acesso aos meus relatórios originais, às análises e ao material que tinham reunido sobre mim. Este livro nasceu daí. Obtive a autorização para publicá-lo, com uma condição: nunca dizer o nome da empresa que o encomendou.
Não importa. Esta história não é sobre logotipos. É sobre um homem num país impossível de entender a menos que você o viva na própria pele.
Começo pelo ponto mais distante?
A escolha lógica era começar pelas margens, não pelo centro. Por dois motivos simples:
1. Eu tinha acabado de sair do experimento: lucidez alta, atenção máxima.
2. Começando pelo extremo, eu podia corrigir a rota e terminar a viagem de forma limpa.
Eu não precisava começar por Boston ou Chicago. Precisava começar por uma fronteira. Por um lugar que só era América no papel.
Escolhi Juneau, a capital do Alaska. Isolada. Alcançável só de barco ou de avião. Uma cidade que não pertence a ninguém. O lugar perfeito para começar.
Otimizar os recursos
Antes de partir, fiz aquilo que um americano respeita acima de tudo: me organizei como um profissional, não como um turista.
Liguei para três das companhias aéreas mais populares, as que têm as maiores redes domésticas. Em menos de uma hora, comprei um carnê de cinquenta voos domésticos com 60% de desconto.
Sem limite de tempo. Sem limite de dias. Sem restrições. Só uma condição: usá-los dentro de um ano.
Fiz o mesmo com as redes de hotéis, o Uber e as locadoras de carros, e depois preparei um cronograma de verdade das etapas, dos meios, mas não dos horários.
Eu estava pronto.
Foi o meu primeiro sucesso de verdade. O primeiro sinal de que eu sabia me mover. A América recompensa quem age, não quem espera.
Quando a empresa viu a transação, fez o que a cultura americana sempre faz: verificou a confiabilidade.
Eu era capaz de administrar um ano de deslocamentos constantes? Era capaz de lidar com imprevistos, distâncias e emergências? Era independente?
Por isso, antes de partir, acertei outro detalhe crucial:
Garanti um limite mensal de pelo menos 100.000 dólares no meu cartão de crédito.
Não era para ser gasto. Era para demonstrar que eu sabia administrá-lo. Os americanos pensam assim: se você não tem autonomia, não tem liberdade. E se não tem liberdade, não pode ser avaliado.
A partir daquele momento, o programa deixou de ser uma tarefa. Virou uma missão.
E AGORA VIAJAMOS DE VERDADE
O Alaska faz parte dos Estados Unidos só pela geografia. É outro mundo.
É o lugar onde as mulheres desaparecem sem deixar rastro. Onde uma denúncia nunca chega ao destino. Onde as cidades são apenas ilhas civilizadas no meio de um continente selvagem.
Juneau foi o meu primeiro teste: uma capital sem estradas que a liguem ao resto do país. Um pedaço da América que não parece América.
Aqui comecei a entender uma coisa: a viagem não seria geográfica. Seria humana.
BLOCO 1 (Volume I)
Alabama – Alaska – Arizona – Arkansas – Califórnia – Colorado – Connecticut – Delaware – Flórida – Geórgia
BLOCO 2 (Volume II)
Havaí – Idaho – Illinois – Indiana – Iowa – Kansas – Kentucky – Louisiana – Maine – Maryland
BLOCO 3 (Volume III)
Massachusetts – Michigan – Minnesota – Mississippi – Missouri – Montana – Nebraska – Nevada – New Hampshire – Nova Jersey – Novo México
BLOCO 4 (Volume IV)
Nova York – Washington
BLOCO 5 (Volume V)
Carolina do Norte – Dakota do Norte – Ohio – Oklahoma – Oregon – Pensilvânia – Rhode Island – Carolina do Sul
BLOCO 6 (Volume VI)
Dakota do Sul – Tennessee – Texas – Utah – Vermont – Virgínia – Virgínia Ocidental – Wisconsin – Wyoming
DAKOTA DO SUL
A Dakota do Sul é uma terra de vento, gelo e distância. É um daqueles lugares onde a natureza manda e a sociedade vem atrás, muitas vezes atrasada. É um estado de terra, pecuária, reservas indígenas, cidades pequenas, comunidades fechadas, invernos que duram demais e oportunidades que acabam depressa.
Aqui a mulher vive entre:
– isolamento enorme – serviços distantes – clima extremo – papéis familiares pesados – empregos mínimos – comunidades indígenas esmagadas – pobreza rural escondida
A Dakota do Sul não é má. É impiedosamente concreta. E, na concretude, as mulheres são dadas como certas.
A mulher da reserva indígena lakota – 38
anos
Pine Ridge é uma ferida aberta. Pobreza extrema, desemprego, escolas frágeis, dependências e traumas históricos nunca curados.
Alana, 38 anos, mãe de quatro filhos, pertence à Nação Oglala Lakota. Trabalha numa pequena escola. O dia dela é um número de equilibrismo entre família, trabalho, comunidade e emergências constantes.
Muitos serviços não existem. Muita ajuda não chega. Muita gente vive com uma dor antiga e um presente instável.
A ausência dela é histórica e política:
o Estado construiu a reserva para conter uma população, não para sustentá-la.
E a mulher lakota carrega um peso que não deveria ser dela.
A mulher agricultora do Leste – 52 anos
Na parte leste do estado, há fazendas enormes. Clima imprevisível, animais, máquinas e contas que nunca fecham direito.
Julie vive e trabalha numa dessas fazendas. Ela não “ajuda” o marido: faz metade do trabalho, se não mais.
– Cuida dos animais – Dirige tratores – Faz as contas – Cozinha para famílias numerosas – Enfrenta as emergências climáticas – Encara invernos gelados – Faz mil coisas que nunca aparecem nos balanços
A ausência dela é cultural:
o trabalho dela é essencial, mas definido como “doméstico”. Doméstico o caralho: é trabalho agrícola, duro e constante.
A mulher da cidade pequena – 44 anos
Nas cidades médias do Meio-Oeste, a vida parece tranquila, mas é uma tranquilidade que consome.
Karen mora em Rapid City. Trabalha como caixa num grande supermercado. Salário mínimo, horários flexíveis “por necessidade da empresa”, custos em alta, poucas alternativas.
A vida dela é feita de:
– trabalho repetitivo – longas distâncias a percorrer – nenhuma atividade cultural – poucas amizades, porque aqui as pessoas vivem isoladas – uma sensação constante de estar parada
A ausência dela é geográfica e emocional:
coisas para fazer não faltam, falta todo o resto.
A mulher que veio recomeçar – 31 anos
Muitas mulheres vêm para a Dakota do Sul procurando um lugar acessível para recomeçar. Aluguéis baixos, ruas tranquilas, uma ilusão de paz.
Emma é uma delas. Vem da Costa Oeste, onde a vida era cara demais. Achou que aqui recomeçaria.
Depois descobriu a verdade: – nenhuma comunidade – nenhum apoio – trabalho mínimo – solidão enorme – inverno exaustivo – distância de tudo.
A ausência dela é relacional:
ela encontrou espaço, mas não encontrou vida.
Epílogo – Dakota do Sul
A Dakota do Sul é uma terra de resistência. E as mulheres são as primeiras a resistir e as últimas a ser reconhecidas.
Nas reservas indígenas, nas fazendas, nas cidades pequenas, a vida dela é um número de equilibrismo sem rede de proteção: um passo em falso pode lhe custar tudo.
É um estado que confia às mulheres um papel enorme e depois as deixa sozinhas para enfrentá-lo.
Reflexão – Dakota do Sul
A ausência das mulheres aqui não nasce de um conflito social direto. Nasce da soma de três fatores:
– território imenso e isolador – história pesada e não resolvida – papéis rígidos e dados como certos
As mulheres são invisíveis porque as lutas delas são vistas como “normais”. E esse é o problema.
Este capítulo deixa claro um ponto: a Dakota do Sul não é um lugar onde as mulheres não trabalham. É um lugar onde as mulheres trabalham mais do que qualquer um e são as menos reconhecidas.
TENNESSEE
O Tennessee é um estado de música, poeira, montanhas, Cinturão da Bíblia, campos, cidades que se esforçam para ficar modernas e um interior que nunca quer mudar. É um lugar onde as mulheres vivem presas entre duas forças opostas: o empurrão da modernidade (Nashville, Memphis) e o muro da tradição (todo o resto).
As cidades crescem. Os subúrbios ficam parados. A religião entra na política, e a política entra na vida privada. E as mulheres se veem presas entre regras antigas, salários baixos, serviços escassos e comunidades que exigem demais sem dar nada em troca.
É um lugar lindo para visitar, mas complicado para viver.
A mulher de Nashville – 29 anos
Nashville é a capital da música country, mas também a capital das ilusões. Milhares de jovens chegam para “fazer sucesso” e acabam em empregos mal pagos, numa vida noturna dura e em turnos sem fim.
Jessica trabalha como garçonete num bar onde artistas em ascensão se apresentam toda noite. Faz turnos que passam da meia-noite, respira fumaça, sorri para clientes que falam demais e volta para casa exausta.
A cidade fala de música. Ela fala de aluguel.
A ausência dela é econômica e cultural:
ela faz parte do sistema que alimenta o sonho, mas não tem acesso ao sonho.
A mulher afro-americana de Memphis – 43
anos
Memphis é uma cidade com uma alma gigantesca: blues, soul, história negra. Mas é também uma das cidades mais pobres e desiguais da América.
Aisha trabalha numa escola primária de um bairro difícil. Muitas famílias vivem no limite, e muitas crianças chegam com feridas que a educação sozinha não consegue curar.
Ela segura tudo: – problemas da turma – famílias ausentes – falta de verbas – bairro complicado – responsabilidade total.
A ausência dela é social e racial:
ela está no centro da comunidade, mas o Estado a considera só uma peça da máquina escolar.
A mulher rural – 50 anos
Fora de Nashville e Memphis existe um Tennessee mais duro: vilarejos pobres, casas espalhadas, lojas que abrem e fecham, trabalho braçal e igrejas como únicas instituições presentes.
Brenda mora numa cidadezinha no sul dos Apalaches. Cresceu ali, tem dois filhos adultos e um marido que trabalha de forma intermitente.
Ela cuida de tudo: – casa – pais idosos – compras e tarefas – manutenção – turnos ocasionais numa loja.
A ausência dela é geográfica:
ela vive fora do mapa das oportunidades. Não tem alternativas. Não tem margens.
A mulher presa na saúde privada – 37
anos
O Tennessee tem um dos piores sistemas de saúde para quem não tem seguro. Custos proibitivos, pouco apoio e muitos hospitais privados.
Michelle trabalha como assistente numa clínica. Todo dia vê pacientes que não podem pagar, pessoas que adiam o tratamento e mães que chegam tarde demais.
Mas ela também está no meio: tem um seguro mínimo, salário insuficiente, dívidas médicas pessoais.
A ausência dela é médica:
ela trabalha cuidando dos outros, mas não pode pagar o próprio tratamento.
Epílogo – Tennessee
O Tennessee é um estado que muda na superfície, mas continua rígido por dentro.
As grandes cidades impõem ritmos novos, as zonas rurais impõem tradições antigas. No meio, as mulheres seguram tudo junto:
– famílias frágeis – economia precária – educação fraca – saúde proibitiva – religião que julga – salários insuficientes
Ela está presente em toda parte, mas não é reconhecida por ninguém.
Reflexão – Tennessee
A ausência feminina aqui nasce de um peso duplo: o peso da história e o peso da religião.
As mulheres vivem entre deveres antigos e problemas modernos, sem proteção nem brechas.
É um lugar onde a resiliência feminina é dada como certa, como se fosse natural, inevitável, óbvia. Não é.
Este capítulo deixa claro o que muitos evitam dizer: a força de uma mulher não é desculpa para não lhe dar o que ela merece.
TEXAS
O Texas é grande em tudo: território, dinheiro, religião, orgulho, contradições. É um dos estados mais ricos e, ao mesmo tempo, um dos mais desiguais. Uma potência econômica com uma mentalidade política voltada para trás. Um lugar onde as mulheres precisam sobreviver em meio a:
– leis pesadas – papéis familiares rígidos – cidades ingovernáveis – subúrbios sem fim – pobreza rural escondida – comunidades imigrantes essenciais, mas ignoradas – custos em alta – proteções que faltam
O Texas surpreende você se você o olha de fora. Não surpreende se você o vive por dentro.
A mulher latina de Houston – 33 anos
Houston é uma das cidades mais diversas da América. Mas é também uma das mais duras para quem está embaixo. Maribel é de El Salvador. Trabalha num centro de cuidados para idosos. Os turnos são extenuantes, há pouco apoio, e o trânsito come horas da sua vida todo dia.
Houston é imensa: distâncias enormes, ônibus pouco confiáveis, clima extremo. Locomover-se aqui é um trabalho.
Maribel manda dinheiro para a família, cria os filhos, aguenta tudo.
A ausência dela é econômica e urbana:
a cidade a usa, mas não a protege.
A mulher branca dos campos de petróleo – 41 anos
As cidades do petróleo são ricas só na aparência. Por trás delas há turnos devastadores, acidentes, drogas e famílias frágeis.
Amy mora em Odessa. O marido trabalha nas plataformas, some por semanas e volta arrasado ou agitado.
Ela faz tudo: – filhos – casa – contas – emergências – família estendida – caos – tensão constante.
A riqueza do petróleo nunca chega às mãos dela.
A ausência dela é industrial:
o Texas celebra o petróleo, mas não quem carrega o custo humano dele.
A mulher sem proteção de saúde – 35
de idade
O Texas tem leis extremamente rígidas sobre a saúde das mulheres. O acesso é difícil, os custos são altos e os serviços são poucos. Para muitas mulheres, a única opção é se virar.
Chelsea, 35 anos, mora em Lubbock. Tem um emprego de escriturária, mas o seguro é mínimo, e cada consulta médica séria vira uma dívida.
Tem dores crônicas que ignora. Tem exames que vem adiando há anos. Tem mais medo da conta do que da doença.
Sua ausência é sanitária e política:
o Estado controla o corpo dela, mas não o cura.
A Mulher Imigrante Sem Documentos – 28 anos
de idade
Carolina mora em San Antonio. Trabalha limpando escritórios e casas. Em dinheiro vivo. Sempre em dinheiro vivo.
O medo é constante: da polícia, da imigração, dos patrões exploradores, dos vizinhos que julgam.
Ela tem a competência, a força, a inteligência, mas não tem direitos. Para o Estado, ela não existe. Para a cidade, ela é indispensável.
Sua ausência é jurídica:
no Texas, a mulher imigrante governa setores inteiros, mas ninguém a reconhece.
Epílogo – Texas
O Texas é grande e contraditório: rico e pobre, moderno e atrasado, poderoso e implacável.
As mulheres sustentam a parte frágil do estado: – cidades ingovernáveis – subúrbios que se estendem sem fim – plataformas de petróleo – escolas pobres – casas superlotadas – salários baixos – leis restritivas.
Ela está presente em toda parte, mas é considerada descartável.
Reflexão – Texas
A ausência das mulheres aqui nasce da união de três forças gigantescas: economia, cultura, política.
O Texas é um lugar onde as mulheres precisam ser fortes por vontade própria. Onde a liberdade é prometida aos homens e a resistência é exigida das mulheres.
É um estado que exige as mulheres como pilares, mas as trata como recursos substituíveis.
O Texas não apaga as mulheres: ele as engole.
UTAH
Utah é um paradoxo. As pessoas o veem como um estado perfeito: famílias numerosas, cidades tranquilas, montanhas espetaculares, ordem por toda parte. Por trás dessa fachada há uma enorme pressão social, sobretudo sobre as mulheres. A presença dominante da Igreja Mórmon cria papéis rígidos, expectativas precisas, um modelo feminino que precisa ser:
– mãe – esposa – educadora – sempre sorridente – sempre disponível – nunca em conflito
E mesmo quem não faz parte da religião continua vivendo sob aquela sombra.
Utah é seguro, sim. Mas não tão livre quanto parece.
A Mulher Mórmon Sob Pressão – 31 Anos
Emily cresceu numa comunidade mórmon tradicional. Casou aos 22 anos e teve três filhos antes dos trinta. Sua vida é governada por regras precisas: serviço, família, lealdade, ordem, tranquilidade.
Por fora, ela é impecável. Por dentro, está exausta.
Não pode reclamar, não pode pedir ajuda, não pode dizer que está cansada. Porque “você não deveria estar cansada”.
Sua ausência é espiritual e cultural:
a interioridade dela não está prevista pelo sistema, só o papel.
A Mulher Não Religiosa Que Vive Contra a
Corrente – 39 Anos Sandra não é mórmon. Trabalha com marketing. Tem uma filha, é divorciada e vive segundo as próprias regras. Em Utah, isso basta para ser considerada “diferente”. As relações sociais são difíceis. As famílias tradicionais não a incluem, muitas amizades são superficiais e os locais de trabalho estão cheios de julgamento.
Sua ausência é social:
estar fora do molde significa estar fora do círculo.
A Mulher Imigrante Latina – 34 anos
Utah tem uma população latina enorme e muitas vezes invisível. Ana trabalha numa fábrica de embalagem de alimentos. Turnos de doze horas, ambientes frios, mãos congeladas, salários baixos.
A comunidade local é educada, sim, mas distante. A integração é mínima. Os serviços são poucos. O custo da moradia sobe todo ano.
Ana vive para trabalhar e manda dinheiro para a família. Nada mais.
Sua ausência é econômica e cultural:
ela faz parte da engrenagem do estado, mas o estado não a reconhece.
A Mulher dos Vilarejos da Montanha – 50 anos
Nas áreas montanhosas de Utah, a vida é linda de se ver, mas extremamente dura de se viver.
Karen mora numa cidadezinha de 2.000 habitantes. Trabalha numa escola e percorre milhas para tudo: o médico, o supermercado, a farmácia.
A comunidade é fechada. A solidão é constante. Os invernos são longos, frios e silenciosos.
Sua ausência é geográfica:
o espaço é enorme, mas a vida dela é um quartinho sem saída.
Epílogo – Utah
Utah é um estado que construiu uma imagem impecável: família, ordem, estabilidade.
Tudo verdade. Mas por trás da imagem há mulheres que sustentam sistemas rígidos, sem direito à fragilidade, a escolhas, a margens.
Utah protege a forma, não a pessoa.
Reflexão – Utah
A ausência das mulheres em Utah não nasce do conflito. Nasce de um controle gentil, daquele que diz com um sorriso o que você precisa ser.
Aqui, a mulher precisa ser perfeita. Não livre. Perfeita.
Este capítulo deixa isso a nu: um lugar pode ser seguro, limpo, arrumado e mesmo assim tirar o seu fôlego.
Utah não pune as mulheres. Ele as conduz. E conduzir, quando você não pode escolher, é só mais uma forma de apagar.
VERMONT
Vermont tem florestas, casas de madeira, neve sem fim, colinas silenciosas, cidadezinhas onde todo mundo se conhece. É um estado progressista, pacífico, seguro. Mas também é isolado, caro, difícil de alcançar e rígido no seu ritmo lento.
A mulher aguenta três situações diferentes. – isolamento geográfico – custo de vida proibitivo – falta de serviços reais
É um estado que se vende como “sereno”, mas a serenidade muitas vezes é só o efeito da falta de alternativas.
Aqui, a mulher não desaparece porque alguém a apaga. Desaparece porque ninguém chega até ela.
A Mulher Que Vive Sozinha nas Montanhas – 47
anos de idade
Claire mora numa casa numa colina perto de Montpelier. Não é uma solidão romântica. É solidão de verdade.
Inverno: neve, escuridão, estradas congeladas. Verão: distância, ninguém por perto, nenhuma ajuda imediata.
Ela faz tudo sozinha: – lenha – carro – compras programadas – manutenção – emergências.
Parece liberdade. É sobrevivência diária.
Sua ausência é geográfica:
o mundo está longe demais.
A Mulher Que Trabalha nas Cooperativas Locais – 35
Anos Vermont adora a ideia de “sustentabilidade”. Cooperativas, cadeias curtas, produtos locais.
Por trás dessa imagem há trabalho mal pago.
Emily trabalha para uma cooperativa agrícola. É um trabalho pesado, no frio, com salário modesto. O custo de vida é altíssimo: aluguel, comida e gasolina.
A narrativa sustenta que “Vermont é um modelo”. Para ela, Vermont é um equilíbrio frágil que pode desabar em qualquer mês.
Sua ausência é econômica:
a visão romântica apaga o esforço real dela.
A Mulher Que Sustenta uma Família com Zero
Apoio – 39 Anos Sarah mora em Burlington. Dois filhos, um emprego numa pequena empresa e um ex-marido que aparece e some.
Vermont é progressista, sim, mas os serviços são lentos, escassos e distantes. As escolas têm dificuldades, a saúde é cara e a ajuda financeira é mínima.
Todo dia é uma guerra silenciosa: organizar tudo sozinha, deslocar-se por um território grande, enfrentar emergências sem rede de proteção.
Sua ausência é institucional:
o Estado fala muito em apoio, mas oferece pouco.
A Mulher Que Foge da Cidade e Se Ilude
Que Está Recomeçando – 31 Anos Muitas vêm a Vermont em busca de paz. Casas tranquilas, natureza e um ritmo de vida mais lento.
Olivia veio de Boston. Achava que encontraria equilíbrio. Encontrou preços nas alturas, isolamento e poucas oportunidades de trabalho. A paisagem é deslumbrante. Mas se você precisa de comunidade, dinamismo, oportunidades, aqui não há nada.
Sua ausência é de integração:
Vermont acolhe, mas não se abre.
Epílogo – Vermont
Vermont é silêncio, ar limpo, reflexão. Mas também é distância, custos proibitivos, isolamento emocional.
As mulheres vivem nas rachaduras de um estado que só funciona para quem já tem muito:
– dinheiro – estabilidade – relações – saúde
Para quem não tem tudo isso, a vida aqui vira um caminho solitário e íngreme.
Reflexão – Vermont
A ausência das mulheres em Vermont não é tão evidente quanto nos estados mais duros. É mais sutil. Mais elegante. Mais escondida.
Ela nasce de três fatores:
– o mito da simplicidade, que apaga o cansaço – o custo da tranquilidade, que nem todos podem pagar – a distância emocional, que isola quem precisa
Este capítulo diz isso sem filtros: a natureza não é proteção suficiente. E o silêncio nem sempre é paz. Às vezes é só falta de escuta.
VIRGÍNIA
A Virgínia é um estado que existe em dois níveis: – o nível institucional (Washington DC fica logo ali) – o nível rural (os Apalaches e as áreas carentes)
É o berço da história americana, mas também é um dos lugares onde as desigualdades modernas são mais visíveis: militares por toda parte, burocracia, riqueza concentrada no Norte, pobreza no Sudoeste, cidades universitárias dinâmicas e subúrbios estagnados.
A mulher aqui enfrenta três frentes:
– o peso das instituições – o peso das tradições – o peso das diferenças territoriais
Ela é uma presença essencial em cada parte do estado, mas é sugada pelo papel que cada região exige dela.
A Mulher Rica do Norte – 34 anos
O Norte da Virgínia é a casa de quem trabalha em Washington: funcionários, analistas, servidores federais e terceirizados.
Elena trabalha para uma empresa ligada ao governo. Bom salário, perspectivas de carreira, vida impossível.
O custo de vida é altíssimo: aluguéis fora de controle, trânsito que consome horas e uma jornada de trabalho esgotante.
A mulher aqui não é pobre. Está exausta.
Sua ausência é profissional:
todos a procuram para manter as estruturas funcionando, mas ninguém a protege do esgotamento total.
A Mulher Afro-Americana de Richmond – 39
anos de idade
Richmond é uma cidade que ainda vive com um pé na própria história: segregação, linhas invisíveis que dividem os bairros, escolas em dificuldade, disparidades enormes.
Amina trabalha como enfermeira num hospital. Plantões pesados, pacientes difíceis, um bairro complicado. Todo dia é uma correria.
Richmond é uma cidade em renascimento, mas o renascimento sempre chega primeiro às áreas brancas.
Sua ausência é racial e social:
ela é o pilar do sistema, mas continua no fim da lista de prioridades.
A Mulher Rural dos Apalaches – 50 Anos
Fora das cidades, a Virgínia muda completamente. Estradas vazias, montanhas, casas espalhadas, pobreza enraizada.
Linda mora perto do Condado de Wise. Trabalha numa loja, cuida da mãe doente e administra a casa. Não há atendimento de saúde por perto, nem transporte público, nem economia.
A vida dela pesa inteira sobre os seus ombros. A comunidade é pequena, mas não forte o bastante para sustentar todos.
Sua ausência é geográfica e estrutural:
ela vive onde o Estado não consegue chegar.
A Mulher de Charlottesville – 28 anos
Charlottesville é uma cidade universitária, jovem, intelectual, progressista. Perfeita no papel.
Na prática, não.
Maya trabalha num café perto do campus. Aluguéis altos, salários baixos, vida estudantil caótica, estabilidade zero.
Aqui a cultura é rica, mas a vida não.
Sua ausência é econômica e cultural:
ela faz parte da cidade, mas não do seu bem-estar.
Epílogo – Virgínia
A Virgínia é uma colcha de retalhos de identidades que não se conectam. Riqueza extrema em cima, pobreza extrema embaixo. Cidades modernas de um lado, os Apalaches esquecidos do outro.
As mulheres vivem em cada pedaço desse mosaico, mas ninguém as considera de fato protagonistas.
Ela é móvel quando é preciso, parada quando convém ao Estado, e sempre útil.
Reflexão – Virgínia
A ausência das mulheres aqui nasce da divisão interna: território dividido, história pesada, economia desequilibrada.
As mulheres são a cola que mantém tudo isso unido, mas o estado as trata como parte da paisagem, não como motores sociais.
Este capítulo deixa claro: a Virgínia está crescendo, mas não está crescendo para todos. E quem fica para trás são sobretudo as mulheres que sustentam, cuidam e protegem, enquanto ninguém as protege.
WASHINGTON
Washington não é um estado: é um motor disfarçado de paisagem perfeita. Quem olha de fora vê o verde, as florestas, a água, Seattle com seu skyline fotogênico. Quem vive por dentro sabe que aqui o poder não se declara: se exerce.
É um dos poucos lugares da América onde o poder não vem da política, mas da tecnologia, da coordenação, do capital, da pesquisa científica e da infraestrutura. Amazon, Microsoft, Boeing, os portos do Pacífico, as universidades, a biotecnologia, a inteligência artificial, o comércio global. A Costa Oeste não sonha aqui: aqui ela executa.
Washington é um estado onde:
– um algoritmo decide mais do que um prefeito – um laboratório movimenta mais dinheiro do que um condado inteiro – um porto pode parar uma nação – uma startup pode mudar o futuro – uma pesquisadora pode influenciar um mercado global – uma gestora pode mudar o ritmo de trabalhadores em dez países
É poder. Daquele que não aparece na TV. Daquele que não faz barulho. Daquele que constrói e destrói em silêncio.
Nesse cenário, as mulheres não são figurantes. São as engrenagens centrais, os cérebros, as estratégias, as operações, o comando puro. E pagam um preço alto: solidão, esgotamento, pressão constante, carreiras que sugam você, vidas privadas que desmoronam enquanto o mundo aplaude os resultados. Washington não perdoa os frágeis. Não espera quem desacelera. Não protege quem cai.
Quem está no topo sabe disso melhor do que ninguém. Quem já viu o poder de perto — e aqui a sua frase entra naturalmente — reconhece de imediato a diferença entre aparência e influência.
Porque o poder autêntico não é encenação. É responsabilidade, risco, compostura e nenhuma margem para erro.
Isto é Washington: um laboratório de alta pressão do poder feminino, onde as mulheres que realmente comandam não têm tempo de falar disso. Precisam administrá-lo.
E este capítulo é o retrato delas. Vinte e duas artes de mostrar o que significa estar no topo de um estado que não concede trégua.
NOTA DE AUTORIDADE
“Naqueles anos em que eu frequentava a Casa Branca, na era de Bill e Hillary Clinton — e eu fui o primeiro calabrês que eles conheceram —, eles sempre me chamavam de ‘Mr. Frega’. Outros, por causa do meu passado na Gillette, me conheciam como ‘Balde-man’. Dois nomes, o mesmo peso: precisão, confiabilidade e nenhum medo do poder. Depois que você viu certas salas, entende na hora quem realmente manda e quem está só atuando.”
Elena – Diretora de Pesquisa em IA (Redmond, 43 anos
de idade
Poder: altíssimo Preço: a vida privada Elena coordena duzentos pesquisadores. Algoritmos, ética, financiamentos, pressões de Washington, DC. Ela não inventa produtos: lança as bases da futura inteligência artificial comercial.
A mão dela é invisível, mas está presente em toda parte. Se uma linha de política muda, um mercado inteiro muda.
Trabalha 14 horas por dia, dorme pouco e nunca erra.
O poder, o poder de verdade, não lhe dá liberdade. Dá responsabilidades que nenhum ser humano normal consegue carregar.
Sara – VP de Logística Global da Amazon (Seattle, 46 anos
de idade
Poder: Controle operacional planetário Preço: Nenhum equilíbrio humano
Milhares de pessoas dependem dela. Portos, aviões, centros robotizados, algoritmos de distribuição. Quando ela decide algo, muda os prazos de entrega em catorze países.
Chamam-na de “a mulher que move o mundo”. Ela não ri muito. Não tem tempo.
O poder aqui é implacável: você não erra duas vezes. Às vezes nem uma.
Claudia – CEO de Biotecnologia (Bellevue, 39 anos)
Poder: Genética, investidores, pesquisa inovadora Preço: Solidão cirúrgica Claudia dirige uma empresa de biotecnologia avaliada em 1 bilhão de dólares. Tratamentos experimentais que podem mudar a forma de tratar doenças raras.
Perdeu relacionamentos, amizades, pedaços da vida. Ganhou uma coisa só: uma visão que todos temem e respeitam.
Poder não é dinheiro. Poder é quando o mundo espera as suas escolhas.
Tanya – Diretora do Porto de Seattle (50 anos)
Poder: Infraestrutura global Preço: Pressão contínua
O porto nunca dorme. Ela também não.
Contêineres, segurança, relações com empresas chinesas, coreanas e americanas. O poder aqui não é glamoroso: é administrar o caos.
Se ela erra, uma costa inteira para.
Esta é a diferença entre imagem e substância.
Melinda French Gates – De Faxineira ao
Poder Global
Poder: Influência global em saúde, educação e igualdade. Preço: Tornar-se um símbolo sem deixar de ser humana.
A verdade, NANDO, é esta: Melinda não nasceu no poder. Fez bicos, até faxina, para pagar os estudos na Duke. Tinha uma família normal, zero riqueza, zero redes de poder. Tudo se somou: – uma graduação difícil – um primeiro emprego na Microsoft quando ainda era uma empresa pequena – um crescimento interno por mérito – uma visão filantrópica que hoje movimenta bilhões.
Hoje ela se senta às mesas onde as decisões são tomadas: – vacinação global – políticas de saúde da mulher – direito à educação – investimentos estratégicos – programas da ONU.
Poder real. Não aquele que se vê nos flashes. Aquele que muda vidas.
E é exatamente por isso que a história dela é tão importante: porque parte de baixo e sobe até onde poucas mulheres no mundo chegam.
Naomi – Diretora de Segurança, Big Tech (Seattle, 45
anos de idade
Poder: Segurança global, inteligência cibernética Preço: Paranoia profissional
Naomi nunca dorme de verdade. Ela comanda a segurança digital de uma das gigantes da tecnologia da Costa Oeste. Decide protocolos, antecipa ataques, bloqueia invasões e administra crises.
Tem uma equipe de seiscentas pessoas. Algo pode acontecer a qualquer minuto.
Poder real = responsabilidade que parte o seu coração. Porque, quando ela erra, bancos, hospitais e governos vão parando devagar.
Ninguém a vê. Mas todos usam o mundo que ela protege.
Jennifer – CFO da Microsoft Cloud (Redmond, 51 anos
de idade
Poder: números globais, estratégias, investimentos Preço: nenhuma trégua mental
Ela administra bilhões como se fossem linhas de um caderno. É uma daquelas pessoas capazes de mover ações, mercados e parcerias.
Tem uma capacidade feroz: enxerga o risco antes dos outros.
Chamam-na de “a mulher da mão firme”. Sem ela, todo o setor de nuvem não seria tão forte quanto é hoje.
O custo? Um cérebro que nunca para. E um corpo que implora por descanso há anos.
Mei Ling – Executiva do Google DeepMind (Seattle
Hub, 38 anos)
Poder: Pesquisa avançada em IA Preço: Isolamento dentro da elite
Mei Ling é um prodígio, mas paga por isso. Foi uma criança gênio, formada no MIT, depois IA avançada. Hoje lidera um dos grupos mais temidos e respeitados do setor.
Ela vê o mundo como um algoritmo avançado: velocidade, precisão, visão.
Mas a vida social dela é um deserto. A solidão é proporcional ao talento. O poder constrói, mas separa. Isabelle – Diretora de Operações da Gates Foundation (Seattle, 47 anos) Poder: Influência global Preço: Emoções congeladas Isabelle não fala muito. Ela organiza. Calcula. Distribui fundos para hospitais, vacinas, escolas e programas para mulheres. Não é um rosto conhecido. É o cérebro logístico por trás de bilhões de dólares. Trabalha com governos, ONGs, cientistas, ministros. Quando você está nesse nível, não tem amigos, só tem dossiês. A humanidade dela fica escondida, por proteção. Carla – Comandante da Guarda Costeira PNW (Tacoma, 44
anos de idade
Poder: Mar, resgate, operações federais Preço: Corpo desgastado Carla comanda equipes que enfrentam tempestades, navios, tráfico ilegal, emergências. É uma mulher de aço, respeitada até por homens que não respeitam ninguém. Salvou vidas, administrou desastres ambientais, conduziu operações noturnas em mar agitado. O poder aqui é físico. Sujo. Real.
O preço? O corpo dela está coberto de cicatrizes invisíveis.
Andrea – Diretora de Engenharia da Boeing
Aeronáutica (Everett, 49 anos)
Poder: Aviação mundial Preço: Carregar nos ombros a segurança de milhões de pessoas
Andrea projeta soluções aeronáuticas. Quando ela assina um componente, esse componente voa pelo planeta inteiro. É uma das pouquíssimas mulheres a liderar equipes de engenharia desse calibre.
Tem uma autoridade que não grita. Tem um olhar que avalia, não hesita. Tem os nervos de quem não pode errar um único parafuso.
O preço? O medo constante e silencioso que só quem comanda conhece.
Sofia – Diretora do Pronto-Socorro, UW
Medical (Seattle, 52 anos)
Poder: saúde de verdade, decisões que salvam ou destroem vidas Preço: alma consumida
Sofia é quem mantém um hospital funcionando quando o caos explode. Ela não trabalha com medicina estética. Trabalha onde quer que surjam sangue, overdose, acidentes, crises psiquiátricas e pobreza extrema.
O poder aqui é implacável: decida agora, não amanhã. E ela decide. Todo dia. Há vinte anos.
O preço? Nada mais a surpreende. E isso, para um ser humano, custa caro.
Haruni – Diretora de Segurança &
Comércio do Porto de Tacoma (45 anos)
Poder: Comércio internacional e segurança Preço: Viver sob pressão geopolítica constante
Haruni é a mulher que fala com: – FBI– Marinha– empresas japonesas– empresas coreanas– coordenação interna– agências federais.
Administra o tráfego legal, as inspeções, a segurança dos navios e as auditorias internacionais. Controla parte da cadeia que sustenta a Costa Oeste.
O custo? Nenhuma noite tranquila. Cada navio que entra é uma responsabilidade pessoal.
Zhen – CTO de uma plataforma Fintech
bilionária (Bellevue, 36 anos)
Poder: dinheiro real, transações, sistemas que não podem cair Preço: uma ética que pesa mais do que o dinheiro
Zhen não tem tempo para a narrativa das redes sociais sobre “mulheres na tecnologia”. Ela é a tecnologia.
Administra sistemas financeiros à prova de risco. Movimenta milhões a cada minuto. Tem um poder técnico que domina até a alta direção. Chamam-no de “o golpe silencioso”: quando ela fala, as decisões mudam.
O preço? Uma ética que precisa ser protegida todos os dias das concessões dos outros.
Miriam – Chefe da Unidade de Crimes Digitais, Washington
State Patrol (40 anos)
Poder: Investigações invisíveis Preço: Ver a escuridão humana todos os dias
Miriam comanda uma unidade que ninguém conhece, mas que todos temem. Crimes cibernéticos, pedofilia, fraudes internacionais, violência digital, identidades roubadas. É ela quem invade os sistemas, encontra, recupera e desmonta.
Poder operacional real. Não é glamoroso. É necessário.
O custo? A mente dela trava batalhas que ninguém deveria ver.
Laila – Diretora de Estratégias Globais de Cloud & IA
(Seattle, 48 anos)
Poder: define as regras tecnológicas do futuro Preço: viver numa guerra mental constante
Laila não é uma gestora. É uma arquiteta de ecossistemas digitais. Fala com governos, multinacionais e instituições. Escreve políticas que se tornarão padrões globais. Tem um escritório com vista para o lago, mas a mente dela vive em outro planeta. O verdadeiro poder é isto: decidir o caminho antes que o mundo entenda para onde está indo.
O preço? Não existe pausa. Não existe “depois”. Não existe normalidade.
Rachel – Gerente de Operações de Manufatura Espacial
(Kent, 44 anos) Poder: Indústria espacial privada Preço: Perder o contato com a vida na Terra
Rachel lidera as operações de uma empresa que produz componentes para veículos orbitais: satélites, módulos, sensores.
Quando algo não funciona, ligam para ela às três da manhã. Quando tudo funciona, ninguém a menciona.
O poder no espaço é cruel: um erro queima 400 milhões de dólares em um segundo.
Ela sabe disso. E vive nesse fio da navalha todos os dias.
Noor – Diretora do Departamento de Política
Energética do Estado (Olympia, 51 anos) Poder: decide o destino energético de um estado inteiro. Preço: ser odiada por todos os grupos de pressão.
Noor é uma mulher que assina documentos que mudam o clima, os transportes, o preço da conta de luz, a vida industrial.
Os ambientalistas a consideram lenta demais. As indústrias a consideram dura demais. Os políticos a temem porque ela conhece os assuntos melhor do que eles. O poder burocrático de alto nível é invisível para a mídia, mas é ali que tudo se decide.
Noor comanda sem parecer que comanda. O preço? Ser o alvo perfeito.
Helena – Chefe de Operações Digitais do Governo
Estadual (Olympia, 46 anos)
Poder: infraestrutura, dados, serviços públicos Preço: ter que proteger um estado inteiro com uma equipe pequena demais
Helena coordena sistemas críticos: identidade digital, infraestrutura, serviços de saúde, redes escolares, emergências.
Ela sabe que um ataque ao seu sistema significaria o caos para milhões de pessoas. O telefone dela nunca desliga. Nunca.
É uma mulher que trabalha no “lado cinzento do poder”: nem político nem privado. Aquele que ninguém vê, mas do qual tudo depende.
O preço? Uma sensação constante de incerteza.
Dana – Venture Capitalist Sênior, 3 bilhões de dólares sob
gestão (Seattle, 42 anos)
Poder: decide quem vive e quem morre no mundo das startups Preço: tornar-se uma máquina que sente pouco e avalia demais
Dana investe em empresas de tecnologia. Basta ela dizer “NÃO” para destruir um projeto. Basta ela dizer “SIM” para criar cinquenta empregos. Tem a frieza cirúrgica de quem vê o talento e o avalia sem emoção. É a antítese do romantismo empreendedor.
O poder do capital é simples: quem tem dinheiro governa o futuro dos outros.
Ela faz isso sem tremer. O preço? As emoções ficam fora do escritório. Sempre.
Epílogo — Washington
Washington é um estado que não se limita a funcionar: ele comanda. E não faz isso com slogans nem conferências, mas com as mãos que movem a tecnologia, a coordenação, a pesquisa e a infraestrutura. E, dentro desse sistema, as mulheres não pedem um lugar: elas o tomam.
São elas que comandam algoritmos, hospitais, portos, energia, espaço, segurança, capital. Não têm tempo de falar de si mesmas, nem interesse em agradar.
O poder delas não é barulhento. É estrutural. Está escondido em códigos, contratos, padrões e protocolos. É o poder que decide sem ser fotografado.
Washington não é um estado suave. É um mecanismo complexo que consome quem não aguenta. E as mulheres que resistem a essa altura não são símbolos. São pilares.
Este capítulo mostra isso: o poder verdadeiro existe, e aqui ele tem rosto de mulher.
Reflexão — Washington
O poder das mulheres em Washington não vem da gentileza, mas da competência. Não vem de “dar voz às mulheres”, mas do fato de que muitas mulheres aqui têm cérebros capazes de deslocar setores inteiros.
Washington é um estado onde conta o que você sabe fazer, não o que você diz que é. E as mulheres que dominam esse ambiente pagam um preço altíssimo: solidão, desempenho excessivo, vidas privadas reduzidas a parênteses, identidades construídas sobre resultados, não sobre emoções.
O poder, o poder autêntico, não é um prêmio. É um fardo. E quem o carrega de verdade não reclama. Sustenta. E paga todos os dias pela diferença entre aparência e importância.
Neste estado, não há espaço para o “quase”. Ou você fica à altura, ou eles consomem você.
As mulheres de Washington estão à altura. E muitas vezes a superam.
Carta do Autor
Vivi o poder de perto, antes mesmo de perceber que um dia escreveria sobre ele. Na Casa Branca, quando Bill e Hillary Clinton eram o centro do mundo, me chamavam de “Mr. Frega”. O primeiro calabrês que eles conheceram. Outros, por causa do meu passado na Gillette, me chamavam de “Balde-man”: um cortador, um finalizador, um homem que nunca erra uma linha.
Desde então, o poder não me impressiona. Eu o reconheço. Eu o meço. Sei quando é real e quando é só teatro. Em Washington, os teatros são inúteis. Aqui, o poder é concreto como o aço dos portos, rápido como os servidores, frágil como um algoritmo mal calibrado, caro como uma decisão que não pode ser desfeita.
E as mulheres que o carregam nos ombros lembram uma coisa simples: o poder não é um privilégio. É uma responsabilidade. E quem o tem de verdade não diz: mostra.
VIRGÍNIA OCIDENTAL
A Virgínia Ocidental é um dos lugares mais feridos da América. São montanhas, minas, opioides, desemprego, igrejas isoladas, escolas frágeis, famílias destruídas. É um dos estados que perderam tudo: suas indústrias, seus jovens, sua saúde, sua confiança.
Aqui a mulher não vive: segura os escombros.
A Mulher das Minas Fechadas – 53 anos
Cidades inteiras viviam do carvão. Depois fecharam tudo. As pessoas ficaram, os empregos não.
Linda era esposa de um mineiro. Hoje vive de dois pequenos empregos, com um marido doente dos pulmões e um filho que já morreu.
Sua ausência é industrial: o Estado abandonou o setor inteiro e deixou às mulheres o recolhimento do que sobrou.
A Mulher na Crise dos Opioides – 37 Anos
A Virgínia Ocidental é o epicentro da devastação dos opioides na América. Emily perdeu a irmã, o irmão está em recuperação e o marido vive dividido entre o vício e a lucidez.
Ela trabalha num centro comunitário e vê todos os dias o que o resto do país ignora.
Sua ausência é médica e política: ela é vítima de um sistema que destruiu uma geração.
A Mulher dos Apalaches Profundos – 44 anos
Montanhas que isolam, estradas sem iluminação, distâncias impossíveis.
Karen mora num vilarejo de setecentas pessoas. As escolas são pobres, a saúde fica longe e a economia está parada.
A vida dela é imóvel como a paisagem. E ninguém a vê.
Sua ausência é geográfica.
A Mulher Que Ensina Onde Ninguém Quer – 29
anos de idade
Professores jovens são raríssimos aqui. Megan ficou porque ninguém mais quis.
Tem turmas com crianças traumatizadas, famílias frágeis e zero recursos. É coragem pura, mas o sistema não a recompensa.
Sua ausência é institucional: o Estado exige tudo dela e não devolve nada.
Epílogo – Virgínia Ocidental
A Virgínia Ocidental é um lembrete cruel: quando uma economia cai, cai uma sociedade inteira.
A mulher ficou como o único pilar. Mas um pilar só não basta para sustentar uma montanha.
Reflexão – Virgínia Ocidental
A ausência das mulheres aqui nasce do abandono. Nenhum outro lugar do país foi deixado apodrecer assim. E as mulheres pagam o preço mais alto: cuidado, sobrevivência, silêncio, tradições que apertam como jaulas.
Aqui, resistir não é uma virtude. É uma necessidade.
WISCONSIN
Wisconsin é um paradoxo geográfico e emocional: um estado agrícola e industrial, rígido e gentil, vasto e sufocante. Cerveja, leite, fábricas, florestas, lagos congelados. Universidades ricas, campos vazios, cidades que lutam para respirar. Aqui as mulheres não desaparecem: são normalizadas, como se o peso da sobrevivência estivesse incluído no contrato de nascimento.
A Mulher do Leite – 45 anos
Wisconsin é leite. Mas por trás de cada galão há costas que vergam, joelhos que gritam, vidas que não têm um domingo há décadas.
Sarah acorda às 4h. Não por virtude: por necessidade. Vacas para ordenhar, máquinas que não perdoam erros, burocracia sem fim, neve que apaga estradas e otimismo. Muitos homens desabaram quando a agricultura deixou de ser um trabalho e virou uma loteria mortal. E as mulheres? Assumiram o leme sem nunca serem nomeadas capitãs.
A ausência de Sarah é agrícola, sistêmica e cruel.
Ela faz tudo. Mantém a empresa familiar de pé. E, no entanto, socialmente ela não existe: é um fantasma que gera renda.
A Mulher de Milwaukee – 34 anos
Milwaukee é uma ferida aberta: uma cidade dura, desigual, estratificada. Índices de pobreza nas alturas, escolas abandonadas e uma violência inadmissível.
Jasmine trabalha numa escola sem professores, sem verbas e sem futuro. Tem dois filhos e um companheiro que só aparece quando não é necessário. Toda manhã ela atravessa bairros onde ninguém fala de sonhos: aqui, o foco é sobreviver à semana.
Sua ausência é urbana.
A cidade a usa e a consome. Define-a como “forte”, um insulto disfarçado de elogio.
A Mulher da Fábrica – 51 anos
A indústria de Wisconsin não é mais aquela que um dia prometia estabilidade e aposentadoria. Hoje é uma roleta: turnos mais longos, horas extras forçadas e salários que caem enquanto o custo de vida sobe.
Maria é veterana da linha de produção: pulsos gastos, costas comprometidas, margem zero. Repete o mesmo gesto milhares de vezes, como se o corpo dela fosse uma máquina intercambiável.
Sua ausência é industrial.
É a invisibilidade da operária que mantém tudo em movimento sem que ninguém a mencione nos discursos oficiais.
A Mulher do Norte Gelado – 57 anos
O norte de Wisconsin é outro planeta: florestas sem fim, lagos parados sob metros de gelo, uma solidão que não pede licença.
Karen mora numa cabana perto de Superior. A neve dura meio ano. As distâncias são um castigo: milhas de estradas vazias separam tudo da civilização. Aqui as mulheres não desaparecem: dissolvem-se devagar, como vapor no frio.
Sua ausência é climática e geográfica.
Ninguém a vê porque ninguém chega até lá.
Epílogo – Wisconsin
O estado funciona. As fábricas rodam. As fazendas produzem. As cidades aguentam o impacto. E sempre, por trás de cada peça desse equilíbrio precário, há uma mulher fazendo o trabalho sujo e silencioso.
Mas ninguém diz isso. Não por maldade. Porque é mais conveniente assim.
Reflexão – Wisconsin
A ausência aqui nasce de um dogma tóxico: “a mulher do Meio-Oeste é forte por natureza”. Uma história conveniente para quem não quer ver o preço dessa força. Não é virtude. Não é talento genético. É a sobrevivência dela disfarçada de dever moral.
E quando a sobrevivência vira hábito, a vida deixa de ser vida.
WYOMING
Wyoming é um vazio que respira. Uma terra de montanhas recortadas, pradarias sem fim, um vento que nunca acaba, cavalos soltos, poços de petróleo, caminhões, carvão e distância. Aqui o espaço não é um conceito: é uma força que molda você.
É o estado menos povoado da América. E um dos mais hostis para as mulheres. Porque aqui a vida não se discute: se enfrenta. É física, diária, total. E não existe proteção que você não precise construir sozinha.
A Mulher do Rancho – 49 anos
Kim mora num rancho do tamanho de um condado. Os dias dela são um turbilhão de emergências: selas, animais, partos às três da manhã, cercas arrancadas pelo vento, predadores, neve até os joelhos.
Ela trabalha como um homem? Não. Trabalha mais do que a maioria dos homens. Porque, enquanto eles quebram uma vez e desabam, ela quebra dez vezes e continua.
Mas, aos olhos do mundo, ela não é uma pessoa: é uma função agrícola, um elemento operacional da propriedade, uma presença dada como certa.
Sua ausência é agrícola, estrutural, normalizada.
A Mulher do Oil & Gas – 37 anos
Alex está mergulhada no inferno gentil da energia americana. Turnos impossíveis, frio assassino, ambientes dominados por homens, onde as piadas cortam mais do que lâminas. Ela é competente, lúcida e preparada. Muito mais do que muitos que ganham mais do que ela. O respeito chega a ela em prestações, como um favor. O resto é silêncio, insinuações e esforço. Profissional, físico e psicológico.
Sua ausência é industrial e sexual:
ela não é invisível por ser incapaz, mas por ser capaz demais num lugar que não quer admiti-la.
A Mulher das Cidadezinhas – 55 anos
Aqui, as cidades não são cidades: são núcleos de resistência de duzentos–trezentos habitantes. Uma igreja, uma loja, duas ruas, um xerife de meio período.
Linda faz tudo o que mantém a comunidade de pé: banco, farmácia, voluntariado, compras para os idosos, cuidar de crianças, emergências, comitês, funerais, apoio, presença.
Ela é o mecanismo humano que impede as microcomunidades de desabar.
E, no entanto, ninguém a vê. A existência dela é dada como certa, automática, como se fosse o papel escrito no manual.
Sua ausência é cívica: fundamental, mas não reconhecida.
A Mulher dos Parques Nacionais – 32 anos
Yellowstone, Grand Teton, territórios que todos acham que conhecem, mas que ninguém conhece de verdade.
Ela é guarda-parque, guia, bióloga e uma pessoa analítica. Ouve os ruídos dos animais antes que eles cheguem. Sabe ler rastros, o terreno e as emergências. Tem um poder real sobre a paisagem, mas não tem comunidade. Vive isolada como quem habita uma fronteira invisível: natureza demais para se sentir parte da civilização, responsabilidade demais para se permitir a fragilidade.
Sua ausência é profissional e geográfica:
ela está ali, decisiva, mas longe de tudo.
Epílogo – Wyoming
Wyoming é ferozmente belo, de uma beleza de tirar o fôlego e de uma dureza que ameaça a vida.
As mulheres aqui não são ignoradas: são absorvidas pela paisagem.
O vento as leva embora pedaço por pedaço, a distância as esgota, a solidão as esculpe como pedra vulcânica. E, no fim, elas já não sabem onde começa a mulher e onde termina o território.
Reflexão – Wyoming
A ausência feminina aqui nasce da própria natureza: espaço, frio, silêncio, isolamento.
A mulher se torna parte do território, como se não precisasse de direitos, proteção, rede ou comunidade.
Mas é exatamente o contrário. Justamente porque vive na parte mais dura da América, ela precisa de mais proteção do que os outros.
E, em vez disso, pedem que ela vire rocha. Que vire paisagem. Que desapareça sem fazer barulho.
Ferdinando Frega
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