O INSTINTO GILLETTE

O instinto Gillette — Gillette, a peça que falta, capítulo 11

GILLETTE, A PEÇA QUE FALTA · Edição brasileira  ·  N.º 11

O INSTINTO GILLETTE

Direção


DEZ QUARTOS DA MENTE

Existe uma casa que cada um de nós habita sem nunca tê-la escolhido.

Não tem endereço. Não aparece em mapa nenhum. E, no entanto, nós a conhecemos melhor do que qualquer lugar onde tenhamos realmente morado. Dentro dela, há dez portas.

Algumas nós abrimos todos os dias sem perceber.

Outras mantemos trancadas, fingindo que não têm nada a ver conosco.

E há ainda quartos que não fomos nós que construímos e que, mesmo assim, de algum modo carregamos dentro de nós. Isto não é uma teoria.

Não é um manual de psicologia juntando poeira numa prateleira.

É o relato de um homem que atravessou esses dez quartos um por um, muitas vezes sem saber onde estava, e que agora, com alguns anos a mais nas costas, tenta descrevê-los exatamente como os viveu.

Dez portas.

Abri todas.

Algumas com curiosidade.

Algumas a contragosto.

Algumas só quando já era tarde demais para voltar atrás.

Se estes quartos parecerem familiares, não é porque contem a minha história.

É porque, lá no fundo, contam também a sua.

Ferdinando

INSTINTO — Direção

Sempre que o momento chegava, eu me via parado numa encruzilhada.

A mente ficava em silêncio.

Nenhuma lógica.

Nenhum cálculo.

Nenhuma estratégia.

Só o corpo.

Uma leve inclinação para a esquerda.

Como uma folha que segue o vento sem saber onde vai pousar.

Aprendi que o instinto vem de uma região antiga.

Mais antiga que as palavras.

Mais antiga que os medos que aprendemos a carregar.

Ele já estava lá.

Antes da escola.

Antes da educação.

Antes do caráter.

O instinto é o primeiro morador da nossa casa.

Aquele que continua pagando o aluguel mesmo quando esquecemos que ele existe.

Não fala.

Aponta.

Não explica.

Acompanha.

Muitas das decisões que mudaram a minha vida nasceram assim.

Sem provas.

Sem garantias.

Sem testemunhas.

Uma sensação.

Nada mais.

E, no entanto, olhando para trás, vejo que bastou.

Porque o instinto não conhece o futuro.

Conhece a nossa verdade—a verdade que a razão pode levar anos tentando alcançar, enquanto o corpo já sabia.

E quando o escutamos de verdade, paramos de perguntar aonde a estrada leva.

Começamos a andar.

O problema não é quando o instinto erra.

O problema é quando fingimos que nunca o ouvimos.

Porque aí começamos a procurar outra pessoa para carregar as nossas responsabilidades.

Um pai.

Um professor.

Um chefe.

Um governo.

Um destino.

Se nos recusamos a escutar o que já sabemos, sempre vamos encontrar outra pessoa para culpar.

Assim é a humanidade.

Quase sempre disposta a trair a si mesma para não ter de tomar uma decisão.


Ferdinando

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