A GENÉTICA GILLETTE

A genética Gillette — Gillette, a peça que falta, capítulo 17

GILLETTE, A PEÇA QUE FALTA · Edição brasileira  ·  N.º 17

A GENÉTICA GILLETTE

Origem


DEZ QUARTOS DA MENTE

Existe uma casa que cada um de nós habita sem nunca tê-la escolhido.

Não tem endereço. Não aparece em mapa nenhum. E, no entanto, nós a conhecemos melhor do que qualquer lugar onde tenhamos realmente morado. Dentro dela, há dez portas.

Algumas nós abrimos todos os dias sem perceber.

Outras mantemos trancadas, fingindo que não têm nada a ver conosco.

E há ainda quartos que não fomos nós que construímos e que, mesmo assim, de algum modo carregamos dentro de nós. Isto não é uma teoria.

Não é um manual de psicologia juntando poeira numa prateleira.

É o relato de um homem que atravessou esses dez quartos um por um, muitas vezes sem saber onde estava, e que agora, com alguns anos a mais nas costas, tenta descrevê-los exatamente como os viveu.

Dez portas.

Abri todas.

Algumas com curiosidade.

Algumas a contragosto.

Algumas só quando já era tarde demais para voltar atrás.

Se estes quartos parecerem familiares, não é porque contem a minha história.

É porque, lá no fundo, contam também a sua.

Ferdinando

GENÉTICA — Origem

Olhei no espelho.

Achei que estava vendo a mim mesmo.

Depois comecei a ver outra coisa.

Meu pai.

Meu avô.

Os silêncios deles.

A teimosia deles.

Os medos deles.

A disciplina deles.

Mas cometi um erro.

Não passei tempo suficiente procurando minha mãe.

A mulher que me pôs no mundo.

Procurei por ela só no meu rosto.

A genética é uma biblioteca sem estantes.

Um arquivo escrito na carne.

Cada gesto contém vestígios.

Cada reação guarda uma memória.

Carregamos batalhas que nunca travamos.

Medos que nunca aprendemos.

Forças cuja origem não sabemos explicar.

Nunca somos um começo absoluto.

Somos continuidade.

Somos o capítulo seguinte de uma história muito maior que o nosso nome.

Então entendi uma coisa.

A herança mais importante não estava escrita nos traços do rosto.

Não nos olhos.

Não no formato do rosto.

Estava escrita nos atos.

Naquele jeito calado de enfrentar as dificuldades.

Na capacidade de aguentar sem fazer barulho.

E ali, enfim, comecei a ver minha mãe.

Não no espelho.

Mas cada vez que escolhi não me render sem anunciar isso ao mundo.


Ferdinando

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