L’ORÉAL ATRAVÉS DA GILLETTE · Edição brasileira · N.º 00
Ele está morto. Explique isto.
O funeral do meu pai foi o fim da vida dele. Não da presença dele.
Meu pai morreu.
Isso não é uma teoria.
Houve um funeral.
Houve um caixão.
Houve um cemitério.
Houve parentes apertando mãos, falando baixo, repetindo as mesmas frases que as pessoas repetem há séculos quando não têm mais nada de útil a dizer.
Ele tinha setenta e nove anos.
Eu tinha sessenta.
A matemática da morte era perfeitamente clara.
O que aconteceu depois, não.
Durante um ano me comportei como qualquer homem sensato se comportaria.
Chorei por ele.
Lembrei dele.
Senti falta dele.
Às vezes falava dele.
Na maior parte do tempo, não.
A vida, como um credor paciente, vinha toda manhã cobrar o que lhe era devido.
Contas.
Trabalho.
Família.
Responsabilidades.
Os dias viraram semanas.
As semanas viraram meses.
Então alguma coisa mudou.
Não de repente.
Não de forma dramática.
Em silêncio.
Do jeito que a ferrugem aparece no ferro.
Do jeito que a aurora entra num quarto.
Do jeito que um filho descobre que o tempo andou trabalhando nele sem pedir licença.
Comecei a tomar uma taça de vinho no almoço.
Meu pai fazia isso.
Criei uma obsessão por pimenta.
Meu pai adorava.
Apareceu uma tosse persistente.
A mesma tosse irritante que ele passou anos fingindo não ter.
Depois vieram as piadas.
A mesma ironia seca.
O mesmo timing.
O mesmo hábito de sorrir antes de arrematar a piada.
Uma noite dei com o meu reflexo num espelho.
Por um instante, ri.
Depois parei.
Reconheci o rosto.
Mas não reconheci o homem.
Não consigo explicar essa sensação melhor do que assim:
Eu era igualzinho a mim mesmo.
E no entanto parecia haver outra pessoa ali, de pé.
Esse foi o começo.
Ou talvez tivesse começado muito antes, e eu simplesmente não tinha percebido.
Mais ou menos na mesma época, aconteceu outra coisa.
Em 9 de junho de 2026, sentei diante do computador para renovar um velho site em WordPress.
Esse era o plano.
Uma simples tarefa administrativa.
Uma dessas atividades chatas que os adultos cumprem porque a realidade insiste em existir.
Em vez disso, comprei um domínio novo.
Gillettenarrative.com.
Inventei um nome.
Depois comecei a construir uma coisa que ninguém tinha me pedido para construir.
O estranho não era o trabalho.
O estranho era o propósito.
Eu não estava tentando vender nada.
Não estava abrindo um negócio.
Não estava correndo atrás de investidores.
Não estava em busca de aprovação.
Estava dando tudo de graça.
Quanto mais eu trabalhava, menos racional aquilo ficava.
Dez horas por dia.
Doze.
Quinze.
Vinte.
Se a obsessão tivesse um escritório, eu tinha virado o gerente do turno da noite.
Mesmo assim, continuei.
Então o Bing fez uma coisa inesperada.
Um dos meus textos apareceu em primeiro lugar numa busca por Gillette.
Minha família chamou de sorte.
Uma coincidência.
Um acaso.
Concordei.
Logo antes de tirar a prova.
Publiquei outro trabalho.
Aconteceu de novo.
Depois outro.
De novo.
Uma hora, até a coincidência começou a exigir uma explicação.
Meu cunhado se preocupava com advogados.
Eu me preocupava em entender o que estava acontecendo.
São duas preocupações muito diferentes.
Uma teme as consequências.
A outra procura as causas.
Sempre preferi as causas.
Mas, enquanto eu corria atrás de respostas, meu corpo entrou na conversa.
Primeiro uma glândula inflamada.
Depois um abscesso dentário.
Depois dor nas costas.
Depois dor nas pernas.
Um sintoma atrás do outro.
Nada de catastrófico.
Nada de dramático.
Só o bastante para fazer um homem prestar atenção.
Um dia, procurando no porão um velho mouse de computador, encontrei uma fotografia da minha avó.
A mãe do meu pai.
Eu não estava procurando por ela.
E no entanto lá estava ela.
Esperando dentro de uma caixa esquecida.
Guardei a fotografia na carteira.
Não porque eu tivesse um motivo.
Porque eu não tinha motivo para não guardar.
Mais tarde tentei explicar algumas dessas coisas à minha mulher.
Ela ouviu com atenção.
Depois marcou uma consulta com um psiquiatra.
Achei uma reação perfeitamente razoável.
A verdade é que eu provavelmente teria feito o mesmo.
Porque àquela altura uma pergunta tinha começado a ocupar a minha cabeça.
Uma pergunta perigosa.
Não porque tivesse resposta.
Porque não tinha.
O que exatamente sobrevive quando uma pessoa morre?
Não legalmente.
Não biologicamente.
Não religiosamente.
Humanamente.
Uma voz?
Um hábito?
Uma lembrança?
Um gesto?
Um gosto por vinho?
Um sorriso?
Pode um pai desaparecer e ainda assim continuar presente dentro da arquitetura de outra vida?
Não sei.
Só sei o que aconteceu.
Quanto mais eu procurava meu pai, menos o encontrava nos cemitérios.
Mais o encontrava em mim.
Com o tempo, os problemas físicos cederam.
Alho.
Feijão.
Arroz.
Longas caminhadas.
Tempo.
O corpo se recuperou.
As perguntas ficaram.
Uma tarde saí de casa com um dólar no bolso.
Um dólar era tudo o que restava dos setenta com que eu contava sobreviver até o fim do mês.
Por sorte, minha despensa era mais rica do que minha carteira.
Arroz.
Feijão.
Cebola.
Alho.
O bastante para manter um homem vivo.
Não o bastante para impressionar ninguém.
Na rua encontrei dois senhores de idade.
Pobres.
Dignos.
Invisíveis do jeito que os velhos tantas vezes se tornam.
Não pediram dinheiro.
Não pediram ajuda.
Simplesmente existiam.
Entreguei a eles meu último dólar.
“Não discutam por causa disso”, eu disse.
“Se não der para gastar, quem sabe ele traz sorte para vocês.”
Eles riram.
Fui embora.
Alguns metros adiante, um deles me chamou de volta.
“Ei, bom homem.”
Eu me virei.
Ele sorriu.
Então disse uma coisa que nunca esqueci.
“Tudo o que é vivido pode ser contado por uma única razão.
Porque aconteceu.”
Depois foi embora.
Nunca mais o vi.
As pessoas costumam procurar Deus quando a vida fica difícil.
Eu raramente procuro.
Não porque eu O rejeite.
Porque nunca fui muito bom em procurar.
Prefiro observar.
Olhar.
Prestar atenção.
Reparar com cuidado nas coisas que a maioria das pessoas descarta.
Uma coincidência.
Uma fotografia.
Um sorriso.
Um pai morto aparecendo dentro dos hábitos do filho vivo.
Meu pai morreu.
Eu sei disso.
O funeral provou.
O caixão provou.
O cemitério provou.
Mas, se a morte pôs fim à vida dele, não pôs fim à presença dele.
E, se você discordar, isso é perfeitamente aceitável.
Não estou pedindo que você acredite em mim.
Estou só fazendo a você a mesma pergunta que fiz a mim mesmo.
Ele está morto.
Explique isto.
Ferdinando
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